As mínimas coisas

9 07 2009

Joaninha

 

Não posso satisfazer as expectativas de quem anda mal resolvido com a vida. Afasto-me da personagem que tentaram grudar em mim. Não vou deixar que desajustados se escorem em mim – ou me apedrejem. Não consigo carregar o peso do mundo…

…Quero aprender a viver. Busco leveza. Anseio ser amigo de gente espirituosa que sabe desafogar a vida… quero aprender a amar. Apreciar, sem extravagância, as mínimas coisas: o tirocínio do garoto; o desabrochar da paixão na menina em flor; a conversa de velhos amigos. E no final do dia, rever as horas e notar que o saldo foi uma tremenda paixão por simplesmente existir.

 

Ricardo Gondim





A força do desejo

7 07 2009

 

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As inteligências dormem. Inúteis são todas as tentativas de acordá-las por meio da força e das ameaças. As inteligências só entendem os argumentos do desejo: elas são ferramentas e brinquedos do desejo.

Rubem Alves





6 07 2009

 

Mother and Child, escultura de Ron Mueck - Photo by Johannes Simon/Getty Images Europe

Mother and Child, escultura de Ron Mueck - Photo by Johannes Simon/Getty Images Europe

 

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A Vida é líquida.

 

Hilda Hilst





Uma vida extraordinária – e quase desconhecida

5 07 2009

sapato sombra

Ainda não me acostumei com as perdas. Já perdi meu pai, meu avô, professores, mestres. Agora estou perdendo amigos. Mas não me acostumo. É verdade que a dor se atenua com o tempo, mas minha alma agora tem ficado indelevelmente esburacada pela ausência permanente deles, e sinto que, aos poucos, estou ficando sem pedaços da minha própria memória, sem aquela possibilidade maravilhosa de pedir que relembrem algum fato pontual de nossas vidas. “Vô, lembra-se daquela vez em que desenhei com giz de cera na parede da sua casa?” Então o “Vô” começava a detalhar, sem rabujice, alguns dos cabelos brancos que lhe proporcionei. “Pai, lembra-se de quando soltamos alguns balões de gás hélio com bilhetes atados nas pontas, caso alguém os encontrasse?”

Hoje perdi uma amiga querida, Inge Schreen. Mais que querida. Ela e o marido participaram da minha adolescência, dos conflitos na faculdade de Medicina, dos meus pequenos dramas existenciais, de decisões importantes como morar fora do país e trancar a faculdade, voltar, casar, mudar de cidade, mudar de Estado, mudar de sotaque. Com ela partilhei por vezes  meus medos e inabilidades, receios e dúvidas. Era uma mulher inteligentíssima, hábil com palavras e gestos, bem humorada. Quem teria disposição de gastar as férias inteiras viajando pelo Brasil dentro de um trailler com o marido e 3 filhos adolescentes? Quem seria capaz de deixar riscado a lápis o batente da porta da sala com a altura progressiva de todos os filhos e netos durante anos, sem passar uma tinta por cima? Capaz de ter viajado o mundo inteiro e mesmo assim exclamar alegremente quando presenteada com coisas simples como uns docinhos de padaria? Quem seria capaz de, quando já na doença avançada, discutir detalhadamente sobre o sucesso e insucesso da quimioterapia, ler livros sobre obituários e “adiantar” o aniversário da neta mais velha, com receio de não poder estar presente quando ela completasse seus 15 anos?

Seu sorriso caloroso, vestido florido, óculos de aros dourados, é assim que a vejo na fotografia da minha memória. Em minha última visita, há pouco mais de um ano, não evitamos conversar sobre o câncer, mas preferimos gastar a noite falando mais dos nossos filhos, dos seus netos, das travessuras do cachorro da casa, das fotos na parede do corredor, das alegrias cotidianas, dos relacionamentos.

“- No fim, o que vale, o que fica, são os relacionamentos, as pessoas…”, ela e o marido disseram ao final daquela noite, mãos dadas. Ficamos todos gratos a Deus, embevecidos por alguns minutos em uma espécie de oração silenciosa por estarmos partilhando a mesa e renovando os laços de amizade e amor.

Eu gostaria agora de ir lá e ainda levar docinhos, e rirmos um pouco ao redor da mesa, e abraçá-los ao final, e nos despedirmos no portão de madeira. Não posso mais, e por isso não me acostumo com as perdas. Hoje chorei muito a sua ausência, somada às dos que já se foram.
Um dia a dor será mais suave e a lembrança suportável. Isso já aprendi. Mas o que não me acostumo é ter a alma cada vez mais esburacada, e minha memória com dificuldades em se renovar, meio que aos pedaços.

O que suaviza é ter tido a chance de conhecê-la.

Tiz , 02/9/2009





O caminho das Índias

3 07 2009

trem

 

Quando a lenda é mais interessante do que a realidade, publica-se a lenda.

 

Carleton Young, um jornalista experiente em”The Man Who Shot Liberty Valance”  (1962)





Se fosse possível engessar a mente

28 06 2009

 

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Este é o trecho do corajoso relato da crítica literária, ensaísta e romancista americana Daphne Merkin sobre a doença que a acompanha há 4 décadas:

“A depressão – essa gosma densa e negra do desalento – estava longe de ser uma novidade na minha vida. Desde a infância vinha batalhando contra ela, como se ao sair do ventre me tivessem envolvido num cobertor cinzento e áspero, em vez da manta de algodão macio, em tom pastel. Não acho que tenha sido um bebê triste, a julgar pelas fotos em que apareço com um ar moleque, os olhos brilhantes e sorriso aberto. Ainda assim, quem sabe se já não estava adotando a máscara de bem-estar que todo deprimido aprende a usar para poder navegar pelo mundo?

… sempre me perguntava como me sentiria se fosse uma pessoa com uma visão mais luminosa das coisas. Alguém que possuísse as ilusões necessárias, sem as quais a vida é insuportável. Alguém que conseguisse se levantar pela manhã sem se deixar aprisionar por pensamentos melancólicos: Não adianta, é tarde demais, sempre foi tarde demais. Desista, volte para a cama, não adianta. Tanta coisa a fazer. Nada a fazer. Não adianta.

Era essa sem dúvida a pior parte: não ter como fugir da realidade de ser quem você é, uma pessoa que sempre percebe o limo negro impregnado nos tijolos, os defeitos dos amigos. Como o sangue, a tristeza que corre por baixo da pele das coisas começa como um filete mínimo e termina como uma hemorragia, manchando tudo. “

Daphne Merkin

Leia o texto integral em português ou em inglês





Dueto

26 06 2009

Ceus

Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca.

Chico Buarque e Nara Leão





Ame-o ou deixe-o

22 06 2009

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Keith Jarret foi sempre um músico polêmico desde que começou a se apresentar solo em longos concertos totalmente improvisados, nos anos 70, culminando com o Köhl Concert em 1975. Seus gemidos e exclamações (que lhe rendem eternas críticas – aliás, um conhecido dedicou ao Keith um dos comentários mais mordazes que já li) não o impedem de um desenvolvimento fluente, tecnicamente impecável, de suas contruções melódico harmônicas.

Keith começou como sideman do saxofonista Charles Loyd em 1966, tocando sax soprano e eventualmente piano.Nos anos 80-90, além dos concertos solo e de gravações de música erudita, formou o trio Standarts ( Gary Peacock e Jack DeJornette).

Sugestões de álbuns: The Köhl Concert (ECM 1064), The Cure (ECM 1440), Bye bye blackbird (ECM 1467) e Tokyo ‘96 (ECM 1666).

Parafraseando (de longe) Pascal: “para quem gosta nada é necessário, para quem não gosta, nada é suficiente.”

Helena Beatriz Pacitti





Mozart e os números

19 06 2009

-Mozart 3

 

Concerto Nº 20, Sinfonia nº 41, K. 551 – o que significam esses números?

Vejamos como exemplo uma obra bem conhecida de Mozart, a Sinfonia “Júpiter”. Segundo a editora vienense Breitkopf und Härtel, a primeira a publicar a maioria das obras orquestrais de Mozart, no início do século XIX, a “Júpiter” é a 41ª na ordem cronológica das sinfonias. Essa enumeração não inclui as diversas peças orquestrais que Mozart formou a partir de outras obras suas, chamando-as de “sinfonias”.
Porém a “Jupiter” também é a Nº 1 no conjunto de sinfonias arranjadas como duetos para piano, publicados por C.F. Peters em Leipzig por volta de 1830.No catálogo Köchel, ela aparece como K. 551. Mozart não teve nada a ver com o nome “Júpiter”, embora este seja muito apropriado à música. O nome foi cunhado pelo empresário londrino J.P. Salomon, o mesmo que patrocinou os concertos dados por Haydn em Londres. Esse nome apareceu pela primeira vez na imprensa em 1823, numa versão para piano solo de Muzio Clementi.
Nessa época, antes que a publicação de partituras se tornasse uma próspera indústria, muitas grandes obras sobreviveram apenas em manuscritos e era quase impossível identificá-las e datá-las com precisão. Em 1862 o austríaco Ludwig von Köschel (1800-1877), botânico, mineralogista e musicólogo, publicou o seu Índice Temático e Cronológico das Obras de Mozart, trabalho amoroso que o ocupou durante várias décadas. Köchel foi à caça de cada fragmento de partitura de Mozart de que teve notícia, estabeleceu a data das composições por meio de uma série de técnicas detetivescas e atribuiu um número a cada obra. Seu último número, 626, foi para o Réquiem que Mozart deixou inacabado.
Considerando a quantidade de obras ainda não descobertas na sua época e outras erroneamente atribuidas a Mozart, mas já identificadas com precisão, Köchel cometeu relativamente poucos erros. Outros estudiosos em épocas recentes revisaram a sua numeração, porém sua lista original foi tão divulgada e elogiada na época, e está tão perto da exatidão, que poucos se preocupam com essas revisões.
Assim, a letra K (ou K.V., de Köchel Verzeichnis, Catálogo Köchel), acompanhada de um número, após uma obra de Mozart, é uma boa identificação. Indica, por exemplo, que o Concerto para Piano Nº 20( K. 466) data do mesmo período do chamado Quarteto das Dissonâncias ( K. 465) e da notável Sonata para Piano em Dó Menor ( K. 457) e de pouco antes de As Bodas de Figaro ( K. 496).

Outros compositores beneficiaram-se a exemplo de Köchel: a designação S após uma obra de Bach indica seu lugar no catálogo de Wolfgang von Schmieder, o D no catálogo de Schubert mostra a mão do ilustre Otto Deustsh. A partir da época de Beethoven, a maioria dos compositores mais considerados tinha fácil acesso à publicação logo que iam completando suas partituras, e eles próprios atribuíam números de Opus (obra) às suas novas composições.





Mastodonte ou beija-flor?

17 06 2009

Handels messiah

O Messias é o oratório mais popular de Handel. É grande número dos corais que atacam, confiantes e sorridentes, o coral Hallelujah. Eles estão certos. Só que esta peça não é o melhor neste oratório cheio de lirismo e de um melodismo raro, riquíssimo. É difícil de se encontrar árias mais inspiradas do que He shall feed His flock, Ev`ry valley shall be exalted, Why do the nations?, corais como For unto us a child is born, And the glory of the Lord, And He shall purify, além da ária-coral O thou thet tellest good tidings to Zion. Handel era genial e aqui tem seu ponto mais alto. A popularidade de O Messias é merecida.

O Messias normalmente ouvido por nós, principalmente no célebre Hallelujah, está bem longe daquilo que foi planejado originalmente por Handel. Pode parecer surpreendente a muitos o fato de que Handel, enquanto compunha o Oratório, lutava contra problemas administrativos que o levaram a utilizar um grupo pequeno de músicos, pela simples razão de que não os havia na Dublin de 1742 e de que era oneroso buscá-los em outras cidades. Handel dispunha apenas de 16 cantores-solistas e uma orquestra mínima e a estréia foi assim mesmo. No curso destes mais de 260 anos, o popular Messias foi executado de todas as formas imagináveis. Nas antigas gravações da obra e até hoje, são ouvidos enormes corais, oboés dobrando as vozes – não há oboés na versão original -, fagotes no baixo contínuo – fagotes no original?, que fagotes? – etc.

Nos anos 70, quando ouvi esta obra-prima pela primeira vez, foi na mastodôntica versão de Karl Richter. Achei uma maravilha o que hoje acho estranho. Richter usou enorme coral e um potente conjunto instrumental, tudo muito pouco barroco. Só que a gravação era linda, avassaladora. Ouvia-se ali o precursor do Beethoven da 9ª Sinfonia. Só após os anos 70 trouxeram as gravações em instrumentos originais, com as obras sendo executadas dentro da formação mínima prescrita pelo compositor em Dublin — um pouco maior em Londres — e, enquanto definhava em potência sonora, O Messias ia ganhando outros coloridos. A partir da década de 80, fomos nos acostumando a deixar o volume para compositores mais modernos e a fruir a delicadeza barroca. Não, não é proibido ouvir as velhas gravações que utilizam exércitos fortemente armados na interpretação deste oratório — e nem as novas que ainda fazem o mesmo –, mas alguém com tendências puristas como eu, teve de acostumar-se ao uso de forças menores na interpretação do powerful Messiah. Hoje, parece a mim uma desonestidade ouvir uma obra interpretada dentro de uma concepção tão longínqua das intenções do compositor, ou seja, tão longe daquilo que Handel ouvia. Sei que estou em terreno perigoso e que há fóruns que estão discutindo isto há anos. Tudo começa com alguém perguntando “Mas, e se Handel dispusesse de um coral de 96 elementos e pudesse quadruplicar a orquestra, a música seria diferente?”. Tenho posições nestas questões, porém aqui a intenção é a de modestamente descrever e louvar um pouco de O Messias, esta delicada e poderosa obra de câmara…

É lendária velocidade com que Handel escrevia suas obras. Imaginem que os mais de 140 minutos deste oratório foram escritos em apenas 21 dias. Certa vez, creio que Stefan Zweig escreveu uma narrativa da gestação de O Messias. Ele valorizava como uma exceção a velocidade com que a obra tinha sido escrita, mas ao consultar meus alfarrábios descobri que ele sempre produzia assim. Seus doze concerti grossi, opus 6, foram escritos em 24 dias, quando há pessoas que não conseguiriam sequer copiá-los neste período! Quando inspirado, o homem era rápido mesmo.

Mais curiosidades? Depois da elogiada e aplaudidíssima estréia em Dublin (em 13 de abril de 1742), Londres… bem, Londres só conseguiu ler as notícias. Ocorria que era proibido falar de coisas sagradas nos teatros e não se podia trazer profissionais dos teatros para cantarem numa igreja. Um impasse. Então o oratório, tal qual uma alma penada, caiu no limbo. Só com alguns de atraso e quase à morte, Handel pode ver seu oratório triunfar na capital.

Olha, há um monte de boas gravações… A gravação da Naxos obedece a rarefeita formação dublinense da estréia; a de Gardiner aparece com alguns reforços no coral, o que vamos perdoar, mas só desta vez. Para quem não está nem aí para estas filigranas, indico também a clássica gravação de Karl Richter com a Orquestra Filarmônica de Londres e o coro John Alldis. Sim, é bonita, mas talvez não seja mais Handel. Dentre as mais novas, a de Nicholas McGegan é perfeita. Mas fique tranqüilo, com a gravação abaixo, você poderá sair à rua e gritar que ouviu um excelente O Messias.

O nome de Handel também aparece como Händel ou Haendel. Este alemão que produziu parte de sua obra na Inglaterra teve seu nome grafado nas três formas citadas. Seu nome original é Georg Friedrich Haendel, mas ele tornou-se George e Frideric e Handel na Inglaterra. Ah, é uma confusão.

( texto de P.Q. B. Bach)