Como nossos pais

Publicado janeiro 21, 2012 por timilique
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Nunca sabemos exatamente do que estamos sendo cúmplices.

Luis Fernando Veríssimo, in A Compensação

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A gente ainda é criança e imagina que ao virar adulto vai ter resposta para tudo.  O adulto, em termos morais, é uma espécie de deus:  diz sim ou diz não ( embora pareça que muitas vezes diga mais  ”não” do que “sim”).  Jamais parece ter dúvidas.

Tem adulto que, além dos nãos e dos sins,  didaticamente tenta explicar seus motivos, sempre bem fundamentados.  Tipo: não vou dar esmolas para esse aí porque ele vai usar o dinheiro para beber ou não vou comprar esse picolé porque você vai perder a fome para o almoço, ô peste.  Da mesma forma como pode ser: deixa eu achar um trocado para o coitado desse mendigo poder comer; ou tá, toma o picolé, meu amor, mas promete que vai almoçar tudinho. Com a cara mais impassível do mundo, o adulto tem todas as certezas.

Aí a criança fica com aquela ilusão, quando eu crescer vou saber como  fazer qualquer coisa, o que responder, quando dar esmolas, decidir isso ou aquilo.

Longe de mim falar mal de alguém, mas gente grande deveria ter cuidado na hora de dizer as coisas na frente de uma criança.  Até aproveitar a chance, repensar o que anda decidindo a esmo.  Criança é uma esponjinha, retém o que ouve e depois repete tudo o que aprende por aí, na escola, para as mães dos amiguinhos, até na igreja!

Essa coisa de exemplo merece atenção. Depois tem muito pai que fica bronqueado porque a criança não cumprimenta os outros, fala palavrão na frente da vovó, mostra a língua para o motorista do carro ao lado, chuta e morde os primos nos aniversários. Qual a surpresa, se depois que saem da festa de Natal da família, papai e mamãe reclamam dos presentes, da comida, e ainda falam mal da parentada toda?

Sei que não estou dizendo nenhuma novidade.  Até porque rapidamente a criança cresce, vira pré-adolescente, depois adolescente, e se dá conta de que o adulto não era aquilo que imaginava. Dezenas de defeitos são descobertos diariamente,  o adulto se metamorfoseia – sob o novo olhar – de ídolo a monstro, um verdadeiro incompetente diante da vida. Para piorar, adulto é muito chato quando está sem paciência, a criança pede para que ele repetir alguma coisa e ele responde: Ah, deixa pra lá!, assim, meio nervosinho.

Mas  há um ponto de exceção na despedida das ilusões infantis.  A referência moral continua.  Adultos podem  ser desatualizados,  não entenderem nadica de computador, das novas tendências musicais, da moda, das novas gírias, o que é in ou out.  Ainda assim continuam como padrão ético para a geração seguinte, principalmente no que diz respeito a valores e limites.

Talvez seja esse o motivo porque cedo ou tarde nos flagramos reproduzindo gestos, hábitos e manias dos nossos antepassados. Quero acreditar que ainda é possível a gente quebrar aquele orgulho besta de adulto, ainda pedir perdão,  ainda reconsiderar quando necessário. Não que seja fácil. Acho que  a gente pode acertar e errar, acertar e errar, repetidamente. Mas não se conformar. Senão corre o risco de ficar intolerante, rabugento de verdade. Conheço marmanjo que negaria isso com todas as forças, ao qual eu cantarolaria: “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.” 

Se você já ouviu essa música, sabe do que estou falando.  Mas se você pertence a segunda geração humana que nem imagina quem compôs  isso, informo que foi Belchior.

Quem?  Deixa pra lá.

HBP, 21/01/2012

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O olhar dela e a poesia de Cummings

Publicado janeiro 15, 2012 por timilique
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nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

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Poesia de E. E. Cummings

Tradução de Augusto de Campos

Crédito das fotos: Sofia Pacitti

Presente para mim e para você

Publicado janeiro 14, 2012 por timilique
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É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca.

Dom Helder Câmara

Remexendo uma caixa postal antiga e quase desativada, encontro um rascunho onde deixei uma reflexão incompleta direcionada a mim mesma em um dos piores momentos da minha vida.  Não era somente um pior momento. Eram dias de tragédia, de perda, de ficar sem chão. Não me lembro de ter conversado com alguém naquela época, exceto meus médicos, portanto escrever foi a forma que encontrei para não sucumbir.

Passado tanto tempo, encontro antigas palavras e me emociono. Apesar de não ter direção alguma naquele momento, acho que pressenti que sobreviveria.

Também descobri que já não importa o ‘tamanho’ da tragédia, se é que essas coisas têm tamanho. Tragédia pode ser perder alguém que muito se ama. Ou descobrir-se com uma doença incurável.  Ou sofrer um sequestro  relâmpago, uma violência sem aviso.  Pode ser algo agudo ou crônico. Perder tudo o que se possui depois de uma catástrofe como uma enchente, um deslizamento de terra, um incêndio, um ato terrorista. Pode até acontecer de serem todas essas coisas juntas,  ou combinadas (até nisso as tragédias parecem incorrer).  Mas, neste caso – como depois concluí- a sensação é de que a tragédia é uma só, e não várias.

Encontrar esse registro tornou-se hoje um pequeno presente para mim mesma.  Então lá vai:

Os dias seguintes  a minha tragédia pessoal costumam ser de um certo amortecimento.  Às vezes acordo razoavelmente tranqüila, racionalizando assim: ”não adianta pensar demais agora. Vou levantar, escovar os dentes e começar o dia. Passo por passo.”

É tão estranho você passar o dia conversando com pessoas que te buscam pedindo ajuda ou conselho, ou abrindo o coração, falando, além de saúde e doença, de anseios , de expectativas no emprego e na vida.  Elas te buscam às vezes querendo uma solução mágica, ou querendo apenas desabafar.  Tenho mais ouvido que falado, deixando no final “vazar” alguma coisa bem sincera como: ” Você não acha que se eu te disser para parar e fumar e beber, tirar todo o sal e gorduras da sua dieta, fazer exercício e tirar férias, você não vai se sentir mais oprimido ainda? Então eu não vou falar, pronto. Vamos tentar negociar e ver o que é factível, mesmo que seja pouca coisa.  Aí a gente pode acompanhar os progressos daqui a um determinado tempo…

Só isso, mas agora me ocorre desejar-lhe: comece bem esse ano. Persevere. Passo a passo, sem necessidade de metas mirabolantes.  É possível sobreviver a situações-limite.  É possível sorrir de novo.  Um dia o tempo das lágrimas acabará.  Certas palavras pertencem ao passado, mas são capazes de germinar, tornando-se frutos de paz para este presente.  Que hoje divido com você.

HBP, 12/01/2012

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Porque a-do-ro ser mãe de adolescentes

Publicado dezembro 7, 2011 por timilique
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Mãe:"Ah... minha bebê"

Mãe:"Ah... minha bebê"

Adolescente:"Ai que mico..."

Adolescente:"Ai que mico..."

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Quem um dia irá dizer
                          Que existe razão
                          Nas coisas feitas pelo coração?
                          E quem irá dizer
                          Que não existe razão? 
                          (“Eduardo e Mônica” – Renato Russo)

Por que adoro ser mãe de adolescentes?

Serei humilde –  a lista é infinita.  Hoje, por exemplo, vou citar alguns poucos tópicos (futuramente escreverei mais).  Começando pela parte braçal: já não é preciso limpar pós coco/xixi como há pouco tempo fazíamos, ou servir comida no prato ou vigiar se vai cair comida no chão;  não é mais preciso dar banho,  ficar paranóico se o xampu vai cair nos olhinhos ; não precisa secar dobrinhas da pele, vestir e colocar aquelas meias justas que nunca entram.

Também não é preciso mais comprar: guarda-chuva, revistinha na banca, suquinho para lanche, danoninho e material escolar. Dispensado o primeiro item e com as respectivas substituições, o adolescente comprará o que precisa sozinho e melhor, desde que a mesada seja naturalmente atualizada e ‘justa’.  Não é preciso mais encapar os cadernos.  Nem precisa preparar café da manhã completo, mamão, ovo mexido, nescauzinho… adolescente sai sempre atrasado e não vai ter tempo de comer essa tonelada.

Não é preciso mais levar para a escola.  Mas, se levar, jamais – jamais! – abrace ou beije seu adolescente a menos de 1 Km do portão de entrada.  E apenas uma vez!

Não precisa mais  segurar a mão para atravessar a rua.

Não precisa contar histórias para dormir.  Aliás o adulto é que passa a dormir mais cedo.

Não precisa achar uma gracinha todos os rabiscos, desenhos e bilhetes que seu filho faz. Principalmente aqueles das paredes e outros locais inusitados. Também é bom não elogiar demais; mas não elogie de menos.

Parte emocional:

Os adolescentes têm opinião sobre qualquer assunto.  A mais frequente é: “Sei lá!” , frase muito prática e que serve pra quase tudo.

Um adulto nunca está certo; menos ainda se for o pai ou a mãe.

Um adulto sempre entra em contradição.

Um adulto costuma ser hipócrita.

Um adulto é sempre chato.

O adolescente sempre está certo, mesmo quando entra em contradição ou admite que foi meio hipócrita. Adultos continuam sendo chatos.

Parte estética:

Mãe de adolescente fica ri-dí-cu-la de esmalte azul metálico. A filha adolescente, por sua vez, pode e deve usar qualquer tom extravagante como o roxo intenso, o grafite-cinza-preto-cintilante e, principalmente,  o azul metálico! E a mãe da adolescente aprende achar uma gracinha quando a filha volta do salão com as unhas dos pés em cor verde.

Mãe de adolescente não pode usar minissaia, biquini, piercing de orelha, umbigo de fora, brinco de argola, sapatos vistosos. Mãe de filho adolescente tem o personal stylist mais rigoroso que se possa imaginar. Mas pode comprar tudo isso para a filha adolescente pegar emprestado e usar essas ‘coisas ri-dí-cu-las!’

É conveniente, em casa:

Instalar secretária eletrônica no telefone, porque adolescente nunca lembra do recado de quem ligou mesmo?…ah, sei lá.

Instalar chuveiro com modalidade ‘ultra-super-quente com tripla resistência’ para suportar períodos de funcionamento ininterrupto.

Ninguém – ninguém mesmo! – vai reclamar se não for possível preparar aquela refeição-padrão saudável (grelhados, saladas, verduras , suco natural de laranja) por falta de tempo e apelar para tranqueiras tipo pizza, refrigerante e  salsichas.  Será a refeição mais elogiada da semana.

Pais de adolescentes aprendem sempre.  É preciso ser criativo.  É preciso ter um tremendo de um bom humor; além de blasé em algumas situações e ter a paciência de um guru das montanhas.

Pais de adolescentes reaprendem a questionar tudo de novo: o sistema educacional, o comportamento dos políticos, a frescura da distinção entre elevador social e elevador de serviços… Têm de enxergar como o adolescente enxerga, sentir como ele sente, sofrer junto suas dores, sua indignação, suas surpresas.

Também adoro ser mãe de adolescentes porque reaprendi a ouvi-los e a chorar com eles. Assim reaprendi a ouvir meu próximo também, ficando muitas vezes sem respostas.

E a independência que tanto reivindicam? Vendo assim, até parece que não precisam mais da gente. E é verdade, para certas coisas não precisam mais.

Mas para outras, as novas coisas, eles precisam de nós, e muito, para novas demandas, novas angústias, novas descobertas.  A distância física pode aumentar, mas não a emocional.   Precisam de amor e carinho, talvez demonstrados de formas diferentes daquelas que já sabemos.  Esse é o desafio, o mistério e a arte.

Mas o melhor mesmo de ter filhos adolescentes é achar que não mudam, que nada acontece, e um belo dia descobrir que viraram adultos incríveis; transformando-se em versões infinitamente melhores que nós mesmos.  Porque [como dizia Guimarães Rosa]  justo quando nada acontece há um grande milagre que não estamos vendo.

HBP, 07/12/2011

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Teletransporte

Publicado dezembro 6, 2011 por timilique
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Estava fazendo a minha peregrinação de dona de casa pós viagem, que inclui a passagem pelo banco, correios, loja de consertos e supermercado, aproveitando para matar a saudade das coisas do Brasil.  Por exemplo, aqui no Rio [de Janeiro], o pessoal do comércio tem o costume de colocar como som ambiente uma rádio local.  Acho que era a MPB FM, que só toca música brasileira.

Então, no corredor do supermercado, ouviu-se um grito repentino: “Ai meu Deus!”  exatamente no momento em que entrou o refrão da música “Você não me ensinou a te esquecer”, interpretada pelo Caetano Veloso*:

‘Agora que faço eu na vida sem você
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo…’

Todos se voltaram assustados, inclusive eu.  Vai que algum cliente passava mal, dor no peito, etc…(A gente que é médico pensa primeiro uma coisa assim).  Só que voz  era de uma senhora, nem tão nova nem tão velha, cabelos grisalhos, coque, vestido florido.  Corri para acudir, ela deu um passo à frente, levantou os braços em direção as caixas de som e continuou: “Ai meu Deeeeuuus… não posso ouvir essa música… que me lembro do grande amor da minha vida!”

Voltou-se para a turma do corredor, fazendo um volteio e  suspirou novamente: “ah, o amor da minha vida,agora eu viajei…”

Não dava para não sorrir.  Ninguém a reprimiu.  Um sentimento terno pairava nas adjacências, entre os legumes da feirinha e o setor de congelados.  Afinal, todo mundo já teve um grande amor, com ou sem música para lembrar.

Fiquei feliz duplamente: pela alegria daquela mulher e por conhecer pessoalmente o autor da letra que tanto a comovera.  Mas não disse nada a ela, claro, para que não tivesse um colapso de tanta felicidade.  Também me lembrei daquele texto delicioso do Rubem Alves (pois é, não me canso de repetir para todo mundo) sobre como surgem as nossas memórias: uma só palavra, feito um punhal,  é capaz de nos levar em segundos  a milhares de quilômetros ou a décadas de um tempo ou lugar.

A letra da música havia feito isso.  Quando o refrão começou, a senhorinha se transportou não sei para onde e para os braços de não sei quem.  O que tenho por certo é  o poder que tem a palavra que sai da boca e do coração.  Poder maior – e mais impressionante – que qualquer máquina de teletransporte já imaginada.

*Nota: A autoria original da canção é de Fernando Mendes, José Wilson e Lucas.

HBP, 06/12/2011

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Para ser criança

Publicado outubro 31, 2011 por timilique
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Pra ser criança é preciso não dizer: “isso eu já sei!”.

Tipo  assim.

HBP, 31/11/2011

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Sebastiana

Publicado outubro 26, 2011 por timilique
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Rio de Janeiro, outubro de 2011. De volta ao Brasil, me disponho a comprar “uma Sebastiana”  para as demandas da casa. Explico: Sebastiana nº 5 – ou simplesmente Sebastiana – é  nome de vassoura, mais precisamente do modelo 0011 da vassoura piaçava fabricada pela tradicional empresa J. Paineiras, localizada no bairro de Pendotiba, em Niterói.  Após andanças pelas redondezas, finalmente a encontro.

Na volta, passo em frente ao salão de cabeleireiros e resolvo experimentar um novo penteado.  Aguardando na recepção, bastam 20 minutos diante da tela da TV para me atualizar: detalhes sórdidos sobre a captura e execução de um ex ditador; um punhado de acidentes automobilisticos fatais ocorridos hoje em SP e Rio de Janeiro; assaltos e violências variados no Brasil, China, Líbia e Austrália; o adolescente de 13 anos que atirou com revólver em um colega após discussão; a moça que apanhou na boate após recusar o beijo de um desconhecido.

Sinto uma espécie de vergonha pela baixeza da raça humana e meio que aturdida pergunto às paredes, sem qualquer originalidade, o que está acontecendo.

Também não sei qual náusea é pior: a crueza das notícias ou a impressão de que estou me acostumando a elas.  “Sempre foi assim”, afirmam os historiadores e seus livros, “o ser humano sempre matou, discriminou, oprimiu, sofreu e usou da violência. Talvez a diferença esteja nas ferramentas empregadas  para a barbárie.”

Mas será que as coisas realmente pioraram?

Mundo, janeiro de 1900.  Nesse ano, cerca de metade dos habitantes do globo nunca havia conversado com um médico nem entrado em um hospital.  Quem se sentisse doente procurava tratamentos caseiros a base de plantas ou do folclore.  As taxas de mortalidade de crianças e pessoas de meia-idade eram altíssimas. Além de calamidades naturais, a Ásia e África eram assoladas por fome severa e a malária matava 12 000 pessoas anualmente na Italia no início do século.

Mesmo após oficializada a abolição da escravatura em vários países, ela persistia em seus territórios, ainda que posteriormente adquiridos.  Na década de 20 a escravidão era comum na Etiópia; em 1950 havia meio milhão de escravos na Arábia Saudita.  Entre as pessoas livres as condições de vida também ficavam a desejar: no interior da Italia, por exemplo, uma familia típica de agricultores espremia-se na parte superior da casa enquanto os animais ficavam no térreo, compartilhando espaço com palha e esterco.

Europa e Ásia, novembro de 1945.  Somando-se o saldo da 2ª Guerra Ítalo-Etíope, 2ª Guerra Sino-Japonesa e a 2ª Guerra Mundial, foram mortos seis milhões de judeus , 20 milhões de russos, aproximadamente 30 milhões de chineses étnicos e outros milhões de filipinos, malaios, vietnamitas, cambojanos, indonésios e birmaneses, contabilizando mais de 70 milhões de vidas perdidas.

Se o presente parece pior que o passado, ou vice-versa, não me disponho a recomeçar pela milésima vez a disputa do copo que não se sabe se está meio cheio ou meio vazio.  Até porque uma criança consegue perceber o bem e o mal na natureza humana.  Mas concordo com o registro do célebre historiador inglês Lorde Acton – nascido John Emerich Edward Dalberg, em carta endereçada a um amigo:

“E, lembre-se, quando se tem uma concentração de poder em poucas mãos, freqüentemente homens com mentalidade de gangsters detêm o controle. A história provou isso. Todo o poder corrompe: o poder absoluto corrompe absolutamente.” E acrescentou melancolicamente: “Grandes homens quase sempre são homens maus”. 

De volta a Niterói, outubro de 2011.  Carrego a vassoura nova.  Ao invés de me dirigir às paredes e recorrer a vaguidades pseudocietíficas, brinco de imaginar e suspiro: o que o coração humano precisava mesmo … era de uma Sebastiana gigante para faxinar a maldade toda!

HBP, 26/10/2011

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Quando surgem novas palavras

Publicado outubro 16, 2011 por timilique
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New York buildings - Crédito: Reto Fetz

New York buildings - Crédito: Reto Fetz

 Para situações novas, palavras novas.  

Elas são os signos, as defesas, os projetos.

(Jean-Paul Betbèze)

Valéria, 4 anos e vaidosa desde sempre, foi dormir com a vovó porque adora os cafunés que ela faz. Aí falou baixinho: “Vovó, você é tão carinhosa…”  Vovó se derreteu e replicou: “E você, minha netinha, o que você é?”

“Ah…” (Valéria muda o tom de voz)   “…eu sou batonzeira, esmalteira e maquiadeira!”

Não só as crianças inventam palavras, embora elas sejam as campeãs na modalidade. Todos inventam. Às vezes por capricho, necessidade literária, simplificação, criatividade ou desconhecimento. Uns são mesmo geniais, outros infelizes. Uns inventam mais e outros menos.

Inventamos palavras quando as que existem já não nos bastam. Talvez sintamos necessidade de escolher os termos que julgamos mais adequados para expressar determinado pensamento, ainda que isso inclua evocar gírias, vocábulos estrangeiros, expressões regionais e até mesmo formas condenadas pela língua culta padrão.  Ainda que as palavras dos homens nos separem desde a Torre de Babel, volta e meia procuram harmonizar-se, preferindo a convergência  à colisão.

As palavras são mesmo um encantamento. Haja vista a quantidade de textos a elas dedicados.  Só aqui me lembro de crônicas de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos,  Luis Fernando Verissimo e Rubem Braga.

Outros preferem neologismos, como o fizeram Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Oliver Wendell Holmes, Santos Dumont, Sir Francis Galton , Goethe,Thomas Huxley, John W. Campbell, William Gibson, Montaigne, Gelett Burgess e Mia Couto (parte desta lista me foi lembrada pelo jornalista Braulio Tavares).

Às vezes surgem diante de nós palavras novas, mas que já são velhas, velhas.  É que antes faziam parte da nossa coleção de ignorâncias.  Como por exemplo, a palavra xibolete.

Calma. Também pensei que fosse palavrão.  Felizmente, segundo o professor Claudio Moreno, significa apenas “um tipo de senha lingüística que identifica os componentes de uma comunidade, assim como a impressão digital identifica o indivíduo… (segue exemplo) …Ora, talvez o xibolete mais evidente do Português seja exatamente o ditongo ão, como já tinha notado Monteiro Lobato no seu Emília no País da Gramática (aliás, não por acaso, foi exatamente esse o ditonguinho que o Visconde de Sabugosa seqüestrou e que acabou sendo salvo por artes  da astuciosa boneca).”  Xibolete, pois.

Há palavras velhas que eu chamo de “velhas-novas”.  São usadas com tanta frequência que se esquece o sentido original.  Quem nos re-desvenda seu significado é a Etimologia.

Uma vez, recém formada no curso de Medicina, me apaixonei pela palavra amador. Não simplesmente o que eu conhecia como o antônimo de profissional, mas a que designava a “ pessoa que faz determinada atividade não por oficio, técnica ou conhecimento, mas por amor’.  Foi uma revelação.  Ou seja, já não bastava ser profissional – tinha que ser amadora! Não bastava praticar uma arte ou ciência com destreza – tinha que ser agradável, demonstrar delicadeza e simpatia em falas, gestos e comportamentos. Tinha de estar enamorada. Tinha que amar.  Foi uma grande motivação e inspiração para vida toda.

Quando novas palavras surgem, a mente começa a caminhar rapidamente por ruas de alguma cidade imaginária.  Embora os jardins, as grades das janelas e casas pareçam familiares, sabemos que nunca estivemos lá antes.  A surpresa nos obrigará a reaprender.

Palavras novas desafiam e nos levam a uma deliciosa tensão, a mesma quando visitamos pontos turísticos e observamos simultaneamente os velhos cartões postais do lugar.  A pracinha é a mesma, mas na foto antiga há o chafariz no lugar da rampa de skate.  O toldo da mercearia no lugar do arranha-céu. Crianças brincando na rua ao invés da passarela de vidro.

As palavras são para ser assim, velhas e novas: conforto passageiro, e o questionamento – eternamente insolucionado.

HBP, 16/10/2011

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Meu desejo maior

Publicado outubro 11, 2011 por timilique
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Para o Pedro, Lucas, Glaucia Moraes e Beto –  que sem saber deu nome ao poema. Para Dadinho e  Maga, de novo.

Relembrando um Koan famoso, que versa sobre três cegos apalpando um elefante.

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Quando finalmente

eu aprender

o silêncio,

a música,

Deus

aprender a morrer

um pouquinho todo dia,

não me surpreenderei

com um dragão real.

Nem vou desperdiçar a vida

que é gota

de orvalho sobre a grama

Nem vou usar o tempo

apalpando

uma única parte de um elefante.

HBP, 11/10/2011

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Meu pé de manjericão

Publicado outubro 7, 2011 por timilique
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A música perdeu seus elementos espirituais. O poder da música deixou de ser o espírito para ser o entretenimento. A música conduz a outros planos e os músicos de hoje não percebem o esse poder. Isso tem a ver com o coração das pessoas. Estão cada dia mais duras, ligadas ao dinheiro. A tecnologia também atrapalha. A maneira como ouvimos música hoje, no MP3, no iPod, nos torna impacientes, incapazes de apreciar. Não compramos um álbum e, com reverência, nos dedicamos a escutá-lo. A música hoje serve apenas como trilha sonora de fundo. E nada mais.

Bobby McFerrin

Enquanto o tempo/Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora/Vou na valsa
A vida é tão rara…

Lenine

Nos fundos do jardim do luxuoso Grand Hotel de Macnak Island, ao norte de Michigan, há uma pequena horta de temperos. Fileiras de manjericão, sálvia, hortelã, salsinha e pimentas se alinham em paralelas na terra escura da ilha, exalando um aroma delicioso. Longe de fazer parte das atrações turísticas locais,  a horta serve para abastecer de condimentos a cozinha do famoso Main Dining Room.

Ao voltarmos do passeio, compramos no supermercado perto de casa um vasinho de manjericão. O vaso vinha com instruções na etiqueta: ‘molhar uma vez ao dia e deixar em local iluminado’. Facílimo.

Por 2 dias o manjericão continuou viçoso e feliz.   Então esquecemos de colocá-lo sob a luz, ele encurvou.  Depois molhamos demais e depois, de menos. Tiramos umas folhas com tesoura para temperarmos o spaghetti. Ele murchou e algumas folhas amareleceram. Na pressa, esquecemos de pesquisar como se lidava de verdade com a plantinha.  Falta de paciência.

Concluí que não era tão simples como parecia.  O manjericão gosta de pelo menos,  quatro horas diárias de sol, assim como gosta de ser de molhado somente para manter o solo úmido, sem exageros.  Com clima frio ou chuvoso deve-se diminuir a quantidade de água, por exemplo.

Para adubar - pois é, tem que adubar - usa-se duas colheres de sopa bem cheias de húmus de minhoca a cada 40 dias: primeiro dá-se uma afofada na camada superficial, espalha-se o húmus regando em seguida.

Finalmente, o modo certo de colher é como se desse um beliscão, retirando as ponteiras dos galhos. Isso estimula a saída de galhos laterais e o manjericão fica mais cheinho e sempre com novas brotações.

Não adianta se impacientar: é necessário que a planta se desenvolva bem antes de iniciar a colheita das folhas. Além disso, as flores sempre devem ser cortadas para manter a planta jovem por mais tempo e preservar o sabor das folhas mais acentuado.  A explicação é que as flores funcionam como um dreno nas plantas, ou seja, consomem muita energia.

Já vi que a pressa e  excessos não combinam com o meu manjericão. Da mesma forma que ele, há também outras coisas, pessoas e  situações que diariamente me relembram as virtudes da paciência e de esperar. Em tempos de caixa eletrônico, café e leite instantâneos, cesarianas pré-agendadas, microondas, conexões super velozes, relacionamentos descartáveis, excessos tecnológicos, comida fast food e  a insaciável pressa, agradeço ao meu mixuruco  pé de manjericão.

Lá da cozinha – e não dos livros de Filosofia – chega o lembrete: a paciência, o cuidado, a delicadeza e muita, muita, muita calma são ainda são imprescindíveis, ainda são essenciais quando se trata de Vida.

HBP, 07/10/2011

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