O Manual da Delicadeza

30 06 2008

 

Sam lendo para Léri, foto de BeeLee

Sam lendo para Léri, foto de BeeLee

   A alma é invisível,
   um anjo é invisível,
   o vento é invisível.
   E no entanto,
   com delicadeza,
   se pode enxergar a alma,
   se pode adivinhar um anjo,
   se pode sentir o vento,
   se pode mudar o mundo
   com alguns pensamentos.

    Roseana Murray





All Star

30 06 2008

Meus

 

Dele





Há controvérsias

27 06 2008

 

Responda rápido: meu filho adolescente não está bem na escola. Devo ser duro na disciplina ou compreensivo nesta fase de conflitos e mudanças? Estou absolutamente convencido de algo, mas minha esposa não quer assumir riscos. Devo seguir em frente e fazer a coisa sozinho ou devo esperar um pouco mais para tentar chegar a um consenso? Meu marido não agüenta mais a pressão no trabalho. Devo encorajar que ele peça demissão e cuide de sua saúde psíquica e emocional ou devo ajudá-lo a superar essa fase difícil, lembrando a dificuldade que é arrumar um outro emprego? Meus pais se intrometem demais na educação que dou aos meus filhos. Devo ter uma conversa franca com a mamãe e arrumar uma tremenda confusão ou devo continuar pedindo ao meu marido que compreenda minha situação e administrar nosso conflito conjugal? Descobri uma falcatrua na empresa. Devo colocar a boca no mundo e denunciar os colegas ou devo ficar quieto, deixando que os responsáveis cuidem do problema? Tenho um ótimo funcionário que compromete o ambiente da equipe. Devo manter o funcionário e sacrificar a equipe ou preservar a equipe e sacrificar o funcionário? Meu pai está em tratamento médico. Devo vigiar rigorosamente seus hábitos alimentares ou devo deixar que ele faça uma extravagância de vez em quando?

Pois é, a vida é assim. As coisas que realmente importam não têm respostas fáceis, nem exatas, nem podem ser padronizadas em conselhos do tipo “faça sempre assim” ou “nunca faça isso”. Tomar decisões é uma arte que carece de boa consciência. E a boa consciência não é aquela que sabe, é aquela que ama. Como bem disse Santo Agostinho, “ama, e faze o que quiseres”, o que significa que quando a gente ama não existe certo e errado, certo? Há controvérsias.

(Ed René Kivitz)





E você acha o Português complicado?

25 06 2008

    

      

Paulo Rónai comenta as dificuldades de seu idioma materno, o húngaro, considerado uma das línguas mais complexas da Europa. “Levei muitos anos até perceber as complicações de seu mecanismo. À medida que aprendi outras línguas é que me espantava com a minha”, confessa. No seu primeiro contato, o estrangeiro se extasia com a simplicidade aparente do idioma: a ortografia é praticamente fonética (ao mesmo som corresponde sempre a mesma maneira de grafá-lo). Além disso, as palavras não têm gênero (masculino, feminino ou neutro), o que deixa todos os adjetivos com uma única forma, já que inexiste a necessidade de concordância. O quadro dos tempos verbais é quase miserável: só existe um passado e um presente, mais alguns tempos compostos. Cessa aí, contudo, essa singeleza enganadora. Há um feroz sistema de declinações, com quase o dobro das declinações do Latim. Além disso, diz ele, “A inexistência dos tempos verbais é também compensada, e rijamente, pela abundância de outra espécie de recursos. 0 húngaro, como o russo, pouco se preocupa com a correlação dos tempos de um período, mas é cioso de marcar nitidamente o aspecto de cada ação considerada separadamente. Ele não sente a diferença entre escrevi, escrevia, tenho escrito, escrevera, tinha escrito, ações que se confundem a seus olhos num vago passado “írtam“; mas quer saber as circunstâncias em que a ação foi realizada: se a pessoa escreveu sob ditado ou copiando, se em folha solta ou num livro, com ou sem intuito de guardar a anotação, se encheu a folha ou não, se o que escreveu era substancial ou acessório, se o tirou de uma ou de várias fontes…e, conforme o aspecto dominante, usará o passado “írtam” precedido de prefixo ou provérbio diferente (“leírtam, átírtam, beírtam, felírtam, teleírtam, odaírtam, kiírtam, összeírtam” …) ou, como diríamos nós, empregará outro verbo composto.
A riqueza de matizes destes e de outros prevérbios é espantosa: um deles (“ki-“), junto ao mesmo “írtam“, indicará ainda que o escritor deu tudo o que podia dar e está esgotado; outro (“el-“) que o assunto que tratou ia ser tratado por outro autor; um terceiro (“agyon-“),que morreu de tanto escrever.
“Os adolescentes húngaros não sabem o que são aspectos do verbo, porém os manejam com instintiva segurança; ao passo que o estrangeiro perde completamente o seu latim sem ter adquirido o húngaro dos outros. Tanto mais que os mesmos prevérbios associados a outros verbos indicam aspectos inteiramente diversos: assim, se “fel-“, seguido de escrever, indica que se escreve para guardar a anotação; de ler, que se lê em voz alta; de viver, que se come tudo o que se tem; de olhar, que se olha de baixo para cima; de chorar, que se explode num choro convulso; de citar, que se evoca um morto; de cobrir, que se descobre; de dar, que se remete uma coisa pelo correio, ou que se denuncia alguém, ou que se abandona uma partida; de tomar, que se apanha uma coisa no chão, ou se admite um empregado, ou se leva a sério uma observação; e, por cúmulo, às vezes não exprime nada disso, apenas o acabamento da ação.
“Se essa riqueza na expressão dos aspectos constitui fenômeno surpreendente para os latinos, não perturbará sobremaneira um alemão ou um russo, que conhecem na própria experiência lingüística o uso dos prevérbios, fonemazinhos perversos que, sem chegar a ser palavras, freqüentemente se soltam do verbo, às vezes até para substituí-lo de vez; mas germânicos e eslavos perdem todo o à-vontade ao tomarem conhecimento da existência de uma conjugação “transitiva” e outra “intransitiva” (denominação imperfeita, pois a segunda se usa também transitivamente, apenas com objeto indeterminado), e ficam perplexos ao descobrir que as formas verbais podem refletir a pessoa não só do sujeito, mas também do objeto direto – o que faz que nas frases “Eu amo uma mulher”, “Eu amo as mulheres louras” e “Eu te amo” se usem três formas diferentes do verbo “szeretni“(“amar”): “szeretek, szeretem, szeretlek“.





O que um amigo diz a outro?

25 06 2008

(Sabino,Hélio, Paulo e Otto)

Na juventude, já grande amigo do escritor Fernando Sabino, Hélio Pellegrino lhe escreveu a seguinte mensagem:
“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua liberrérima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome.”

Muitos anos depois, quando completava 60 anos, Hélio reformulou o que havia escrito para Sabino, com muito humor:

“Quando você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60 são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!”

[Os textos acima foram extraídos do livro "Hélio Pellegrino - A paixão indignada", da coleção "Perfis do Rio", Relume-Dumará/Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1998, pág. 11 e seguintes.]





Urbanas

25 06 2008

São Paulo – túnel da Rua 13 de maio – Bexiga (Gepeto)

 

 Piracicaba – Vôo de balão (BeeLee)

São Paulo – Bienal (Eduardo Haak)





La Carencia

21 06 2008

Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.

(Alejandra Pizarnik)





Luzes

21 06 2008

“Hay cosas mágicas!”

(Horacio Salas, poeta argentino)

 





Jogo da Verdade

20 06 2008


A verdade é um labirinto.

Se digo a verdade inteira,
se digo tudo o que penso,
se digo com todas as letras,
com todos os pingos nos is,
seria um deus-nos-acuda,
entraria um sudoeste
pela janela da sala.
Então eu digo
a verdade possível,
e o resto guardo
a sete chaves
no meu cofre de silêncios.

(Roseana Murray)





Picasso, poeta

17 06 2008

(“Quando vier a inspiração, que me pegue trabalhando.” – Pablo Picasso)

Pablo Ruiz y Picasso, artista genial cujos 10 últimos anos de vida foram retratados pelo amigo e fotógrafo argentino Roberto Otero (fotos atualmente expostas no Museu Picasso de Málaga), possuía uma faceta literária pouco conhecida do público.Suas duas publicações tiveram poucas edições, sendo que uma foi na França em 1969, “Picasso Escrito”, e em 1961 na Espanha, “Pedaço de Pele”.
O texto a seguir , de sua autoria,acompanha as gravuras de “Sonho e mentira de Franco” (1937), marcado pelo expressionismo:

Gritos de niños gritos de mujeres gritos de
pájaros gritos de flores gritos de maderas y
de piedras gritos de ladrillos gritos de
muebles de camas de sillas de cortinas de
cazuelas de gatos y de papeles gritos de olores
que se arañan gritos de humo…

(Pablo Picasso 15-18 de junho de 1937)

Gritos de crianças gritos de mulheres gritos de
pássaros gritos de flores gritos de madeiras e
de pedras gritos de azulejos gritos de
móveis de camas de cadeiras de cortinas de
panelas de gatos e de papéis de cheiros