E você acha o Português complicado?

25 06 2008

    

      

Paulo Rónai comenta as dificuldades de seu idioma materno, o húngaro, considerado uma das línguas mais complexas da Europa. “Levei muitos anos até perceber as complicações de seu mecanismo. À medida que aprendi outras línguas é que me espantava com a minha”, confessa. No seu primeiro contato, o estrangeiro se extasia com a simplicidade aparente do idioma: a ortografia é praticamente fonética (ao mesmo som corresponde sempre a mesma maneira de grafá-lo). Além disso, as palavras não têm gênero (masculino, feminino ou neutro), o que deixa todos os adjetivos com uma única forma, já que inexiste a necessidade de concordância. O quadro dos tempos verbais é quase miserável: só existe um passado e um presente, mais alguns tempos compostos. Cessa aí, contudo, essa singeleza enganadora. Há um feroz sistema de declinações, com quase o dobro das declinações do Latim. Além disso, diz ele, “A inexistência dos tempos verbais é também compensada, e rijamente, pela abundância de outra espécie de recursos. 0 húngaro, como o russo, pouco se preocupa com a correlação dos tempos de um período, mas é cioso de marcar nitidamente o aspecto de cada ação considerada separadamente. Ele não sente a diferença entre escrevi, escrevia, tenho escrito, escrevera, tinha escrito, ações que se confundem a seus olhos num vago passado “írtam“; mas quer saber as circunstâncias em que a ação foi realizada: se a pessoa escreveu sob ditado ou copiando, se em folha solta ou num livro, com ou sem intuito de guardar a anotação, se encheu a folha ou não, se o que escreveu era substancial ou acessório, se o tirou de uma ou de várias fontes…e, conforme o aspecto dominante, usará o passado “írtam” precedido de prefixo ou provérbio diferente (“leírtam, átírtam, beírtam, felírtam, teleírtam, odaírtam, kiírtam, összeírtam” …) ou, como diríamos nós, empregará outro verbo composto.
A riqueza de matizes destes e de outros prevérbios é espantosa: um deles (“ki-“), junto ao mesmo “írtam“, indicará ainda que o escritor deu tudo o que podia dar e está esgotado; outro (“el-“) que o assunto que tratou ia ser tratado por outro autor; um terceiro (“agyon-“),que morreu de tanto escrever.
“Os adolescentes húngaros não sabem o que são aspectos do verbo, porém os manejam com instintiva segurança; ao passo que o estrangeiro perde completamente o seu latim sem ter adquirido o húngaro dos outros. Tanto mais que os mesmos prevérbios associados a outros verbos indicam aspectos inteiramente diversos: assim, se “fel-“, seguido de escrever, indica que se escreve para guardar a anotação; de ler, que se lê em voz alta; de viver, que se come tudo o que se tem; de olhar, que se olha de baixo para cima; de chorar, que se explode num choro convulso; de citar, que se evoca um morto; de cobrir, que se descobre; de dar, que se remete uma coisa pelo correio, ou que se denuncia alguém, ou que se abandona uma partida; de tomar, que se apanha uma coisa no chão, ou se admite um empregado, ou se leva a sério uma observação; e, por cúmulo, às vezes não exprime nada disso, apenas o acabamento da ação.
“Se essa riqueza na expressão dos aspectos constitui fenômeno surpreendente para os latinos, não perturbará sobremaneira um alemão ou um russo, que conhecem na própria experiência lingüística o uso dos prevérbios, fonemazinhos perversos que, sem chegar a ser palavras, freqüentemente se soltam do verbo, às vezes até para substituí-lo de vez; mas germânicos e eslavos perdem todo o à-vontade ao tomarem conhecimento da existência de uma conjugação “transitiva” e outra “intransitiva” (denominação imperfeita, pois a segunda se usa também transitivamente, apenas com objeto indeterminado), e ficam perplexos ao descobrir que as formas verbais podem refletir a pessoa não só do sujeito, mas também do objeto direto – o que faz que nas frases “Eu amo uma mulher”, “Eu amo as mulheres louras” e “Eu te amo” se usem três formas diferentes do verbo “szeretni“(“amar”): “szeretek, szeretem, szeretlek“.





O que um amigo diz a outro?

25 06 2008

(Sabino,Hélio, Paulo e Otto)

Na juventude, já grande amigo do escritor Fernando Sabino, Hélio Pellegrino lhe escreveu a seguinte mensagem:
“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua liberrérima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome.”

Muitos anos depois, quando completava 60 anos, Hélio reformulou o que havia escrito para Sabino, com muito humor:

“Quando você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60 são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!”

[Os textos acima foram extraídos do livro "Hélio Pellegrino - A paixão indignada", da coleção "Perfis do Rio", Relume-Dumará/Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1998, pág. 11 e seguintes.]





Urbanas

25 06 2008

São Paulo – túnel da Rua 13 de maio – Bexiga (Gepeto)

 

 Piracicaba – Vôo de balão (BeeLee)

São Paulo – Bienal (Eduardo Haak)