Porque a-do-ro ser mãe de adolescentes
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Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
(“Eduardo e Mônica” – Renato Russo)
Por que adoro ser mãe de adolescentes?
Serei humilde – a lista é infinita. Hoje, por exemplo, vou citar alguns poucos tópicos (futuramente escreverei mais). Começando pela parte braçal: já não é preciso limpar pós coco/xixi como há pouco tempo fazíamos, ou servir comida no prato ou vigiar se vai cair comida no chão; não é mais preciso dar banho, ficar paranóico se o xampu vai cair nos olhinhos ; não precisa secar dobrinhas da pele, vestir e colocar aquelas meias justas que nunca entram.
Também não é preciso mais comprar: guarda-chuva, revistinha na banca, suquinho para lanche, danoninho e material escolar. Dispensado o primeiro item e com as respectivas substituições, o adolescente comprará o que precisa sozinho e melhor, desde que a mesada seja naturalmente atualizada e ‘justa’. Não é preciso mais encapar os cadernos. Nem precisa preparar café da manhã completo, mamão, ovo mexido, nescauzinho… adolescente sai sempre atrasado e não vai ter tempo de comer essa tonelada.
Não é preciso mais levar para a escola. Mas, se levar, jamais – jamais! – abrace ou beije seu adolescente a menos de 1 Km do portão de entrada. E apenas uma vez!
Não precisa mais segurar a mão para atravessar a rua.
Não precisa contar histórias para dormir. Aliás o adulto é que passa a dormir mais cedo.
Não precisa achar uma gracinha todos os rabiscos, desenhos e bilhetes que seu filho faz. Principalmente aqueles das paredes e outros locais inusitados. Também é bom não elogiar demais; mas não elogie de menos.
Parte emocional:
Os adolescentes têm opinião sobre qualquer assunto. A mais frequente é: “Sei lá!” , frase muito prática e que serve pra quase tudo.
Um adulto nunca está certo; menos ainda se for o pai ou a mãe.
Um adulto sempre entra em contradição.
Um adulto costuma ser hipócrita.
Um adulto é sempre chato.
O adolescente sempre está certo, mesmo quando entra em contradição ou admite que foi meio hipócrita. Adultos continuam sendo chatos.
Parte estética:
Mãe de adolescente fica ri-dí-cu-la de esmalte azul metálico. A filha adolescente, por sua vez, pode e deve usar qualquer tom extravagante como o roxo intenso, o grafite-cinza-preto-cintilante e, principalmente, o azul metálico! E a mãe da adolescente aprende achar uma gracinha quando a filha volta do salão com as unhas dos pés em cor verde.
Mãe de adolescente não pode usar minissaia, biquini, piercing de orelha, umbigo de fora, brinco de argola, sapatos vistosos. Mãe de filho adolescente tem o personal stylist mais rigoroso que se possa imaginar. Mas pode comprar tudo isso para a filha adolescente pegar emprestado e usar essas ‘coisas ri-dí-cu-las!’
É conveniente, em casa:
Instalar secretária eletrônica no telefone, porque adolescente nunca lembra do recado de quem ligou mesmo?…ah, sei lá.
Instalar chuveiro com modalidade ‘ultra-super-quente com tripla resistência’ para suportar períodos de funcionamento ininterrupto.
Ninguém – ninguém mesmo! – vai reclamar se não for possível preparar aquela refeição-padrão saudável (grelhados, saladas, verduras , suco natural de laranja) por falta de tempo e apelar para tranqueiras tipo pizza, refrigerante e salsichas. Será a refeição mais elogiada da semana.
Pais de adolescentes aprendem sempre. É preciso ser criativo. É preciso ter um tremendo de um bom humor; além de blasé em algumas situações e ter a paciência de um guru das montanhas.
Pais de adolescentes reaprendem a questionar tudo de novo: o sistema educacional, o comportamento dos políticos, a frescura da distinção entre elevador social e elevador de serviços… Têm de enxergar como o adolescente enxerga, sentir como ele sente, sofrer junto suas dores, sua indignação, suas surpresas.
Também adoro ser mãe de adolescentes porque reaprendi a ouvi-los e a chorar com eles. Assim reaprendi a ouvir meu próximo também, ficando muitas vezes sem respostas.
E a independência que tanto reivindicam? Vendo assim, até parece que não precisam mais da gente. E é verdade, para certas coisas não precisam mais.
Mas para outras, as novas coisas, eles precisam de nós, e muito, para novas demandas, novas angústias, novas descobertas. A distância física pode aumentar, mas não a emocional. Precisam de amor e carinho, talvez demonstrados de formas diferentes daquelas que já sabemos. Esse é o desafio, o mistério e a arte.
Mas o melhor mesmo de ter filhos adolescentes é achar que não mudam, que nada acontece, e um belo dia descobrir que viraram adultos incríveis; transformando-se em versões infinitamente melhores que nós mesmos. Porque [como dizia Guimarães Rosa] justo quando nada acontece há um grande milagre que não estamos vendo.
HBP, 07/12/2011

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dezembro 8, 2011 às 4:36 am
Nesse texto voce mostrou duas facetas da sua personalidade que eu amo, na primeira parte o bom humor e na segunda a sua sensibilidade, humildade, sabedoria e amor! Ri muito na primeira parte e me emocionei na segunda! Um grande beijo e abraco!
dezembro 8, 2011 às 1:22 pm
dezembro 8, 2011 às 3:46 pm
Amei!! É isso mesmo!! Vivo tudo isso com minha filhota de 14 anos!
dezembro 8, 2011 às 4:35 pm
E não é uma delícia?
HB:)
Beijocas as duas!
dezembro 12, 2011 às 4:29 pm
belíssimo texto,real e bem humorado.
Como mãe de adolescentes e dentista de adolescentes,não gosto dos esteriótipos nem das reclamações que os adultos costumam fazer sobre as “chatices” deles…eles são ótimos,a gente é que não lembra como nós éramos ,assim mesmo.
dezembro 12, 2011 às 4:46 pm
Você tem razão, Maria Paula!
Abração, venha sempre.
HB
dezembro 12, 2011 às 5:00 pm
bacana….a melhor parte de ser mãe de adolescente, é o quanto aprendemos e mudamos junto com eles…qd esse lado não muda(pais) me parece que é qd mais temos atritos….adorei “paciencia de guru” hheheheh demais….foi a epoca que me tornei paciente….
dezembro 12, 2011 às 5:03 pm
Um adolescente sincero revela mais sobre nós mesmos do que 10 psicoterapeutas.
(Não conte isso a seu filho/a – ele vai querer os honorários!)
janeiro 10, 2012 às 11:09 am
Oi Helena!
Tudo bem?
Sou repórter da Folha de S.Paulo, caderno Folha Equilíbrio. Estou fazendo uma matéria sobre o uso de internet por crianças e adolescentes.
Encontrei seu blog e decidi te escrever para saber se você tem alguma história para contar sobre o tema, já que é mãe de adolescente!
Se sim, podemos conversar, por telefone mesmo?
O único porém é que tenho um pouco de pressa. Fecho a matéria amanhã, quarta-feira.
Obrigada desde já,
Juliana Vines
janeiro 11, 2012 às 4:51 pm
Ops. Só hoje (11 jan) a tardinha li seu comentário, Juliana. Espero que tenha conseguido fazer sua matéria.
Abraço.