Os Chatos Prediletos

Publicado novembro 15, 2016 por timilique
Categorias: Lendo

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“Há 2 espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos.” 

M. Q.

Ontem (14 de novembro de 2016) a Martha Medeiros postou um texto lindo que começa assim:

“Amizades passam por fases, como os amores. Fase do grude, fase do silêncio, fase da demolição, fase da reconstrução. Tenho uma amigona com a qual eu andava na fase grude, só que ela se apaixonou e saiu de cena com o novo namorado. Hoje nós duas estamos na fase “qual é mesmo o teu nome?”, mas ela me mandou um whatsapp dia desses dizendo que sente minha falta e que um dia irá “voltar”, como se estivesse num paraíso perdido. Ora, ela está – o que é uma benção. O que me comoveu foi a sua definição do momento atual: “A felicidade anda me desorganizando”. Ao final, ela conclui que é “o êxtase, esse adorável corruptor da nossa agenda”.

As palavras caíram feito luva pra mim. Também ando desorganizada. Quero adicionar que não é só a felicidade que me desorganiza, mas a tristeza também. Ou a empatia. Ou testemunhar ao vivo aquela felicidade, ou melhor seria dizer, aquele contentamento, que surge muito devagarinho na alma que começa a cicatrizar após ser atropelada pela tragédia. Pois esse ano o êxtase e a tragédia chegaram meio juntos, mexendo de novo com minhas estruturas, fazendo rever crenças, reforçar laços, tornando-me ainda mais cuidadosa e seletiva com o uso do tempo. Em meio a desorganização a gente continua tocando a vida, cancela compromissos, negligencia os ritos sociais, se recolhe e, com um pouco de sorte, aprende.

Aprende que, assim como cada amizade passa por fases, a amizade também passa por testes.

Tem o teste da distância, o teste do tempo, o teste das diferenças pessoais, o teste da convivência intensiva (quem já frequentou acampamentos de verão na juventude sabe do que estou falando). Acho que a maioria de nós já teve a oportunidade de rever amigos e conhecidos de décadas passadas. E o novo encontro pode ser a chance de recomeçar a amizade, ou encerrá-la de vez. Porque a gente muda, os outros mudam, e as histórias e afinidades não necessariamente coincidirão. Às vezes isso acontece de forma curiosa.

Por exemplo, quando alguém sai de cena (tanto faz se em um paraíso perdido ou em um inferno pessoal), o amigo de verdade costuma ir atrás, escreve, telefona, manda sinal de fumaça ou o que necessário for. Um bom amigo também pode optar pelo silêncio – silêncio sereno – na esperança de que tudo esteja bem. No entanto, há quem prefira ir direto para a especulação. No ambiente da detração, quem fala mal do ausente pensa estabelecer uma aliança com seu interlocutor. Mas não há empatia, só curiosidade rasa. Nesse caso seria melhor repensar a amizade.

Lembro com saudades da fase de disputas e briguinhas que minha irmã e eu tivemos em nossa inocente pré-adolescência. A melhor forma de argumentar, ou a pior de ofender, era chamarmos uma à outra de chata! E a gente se adorava. E mais alguns minutinhos já estávamos rindo e brincando de novo, cada uma com sua chata predileta.

A arte de conviver não deveria ser baseada em critérios de entrevista de emprego, como idade, opção religiosa ou política. A reciprocidade, muito contabilizada, às vezes nem faz diferença. Como se tudo fosse matematicamente equacionado nessa vida. A química que funciona é aquela que junta a hora, o dia e a pessoa certa.

(Vale lembrar que é bom ser amigo de si mesmo. O que significa que, de tanto em tanto, alguém queira usufruir da própria companhia por longas horas, dias, quiçá meses…)

Amigo é uma espécie de porção diária da tolerância que carecemos. É um bálsamo (ou merthiolate) em nossas feridas. Em suma, amigo é quem ainda nos inspira, e (arremato com F. Sabino) “… sabe fazer da queda um passo de dança; do medo uma escada; do sonho uma ponte; da procura um encontro.”

HBP, Nov 15, 2016

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Não Visito Túmulos.

Publicado novembro 2, 2016 por timilique
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Foto: 4-H Children's Garden (acervo pessoal)

(Foto: 4-H Children’s Garden – acervo pessoal)

 

Dedico esse texto a Silvana, irmã de coração, e aos meus sobrinhos Leo e Thi, que souberam transformar a tragédia em um vôo de superação e alegria. 

“Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.”

(Paulo Mendes Campos)

Vou entrar de supetão no assunto, como diria Quintana. Nunca curti o farfalhar do culto a morte, Finados, as flores murchas no cemitério, aquela coisa tipo festa mexicana de Dia de Los Muertos, o comércio em torno disso, a atitude sombria circulante, e que mais me parece uma auto-comiseração enrustida. Eu acho até falta de respeito! Falta de respeito aos que se foram é cultuar a tristeza, é cultuar a autopiedade de quem ficou, o martirio da culpa do que não foi dito ou feito.

Também não visito túmulos. Pra mim o corpo inerte é uma casca e eu nunca consigo associar com a pessoa (a real pessoa) que partiu. Feito casca de cigarra que fica grudada nas árvores. A cigarra já cresceu, já cantou e já se mandou dali faz muito tempo, voando… A casca? Pois alguém realmente se importa com o destino da casca? Vou lhe contar algo só para ilustrar meu sentimento.

Outro dia achei no mercado um pacotinho de salame italiano e trouxe pra casa. Mario, meu marido, até estranhou. Logo eu, com mania de coisas saudáveis, ia comer salame? Mas naquele dia senti vontade, e, mais que vontade, senti uma imensa ternura e saudades do meu pai, já falecido faz tempo. Ele adorava esse tipo de tranqueiras, salames, mortadelas, presuntos, capocollo, sardelas, queijos salgados e aromáticos, obviamente tudo reprovado por minha zelosa mamãe por conta dos problemas de saúde dele. Pois papai comia mesmo, sem culpas e ainda era o terror (ou a alegria) dos cardiologistas: acima do peso, hipertenso, valvulopata, coronariopata, nefropata, e bota “pata” nisso. 

Mas voltando ao salame. Antes do jantar  abrimos um vinho e uns queijos, e falei um tempão do meu pai, de coisas engraçadas que ele dizia, de suas manias e aforismos. Mario também  lembrou-se do pai dele, quando a familia ainda morava perto do aeroporto de Congonhas. Uma vez estavam empinando pipa juntos e o Mario, com 6 anos de idade, teve um medo súbito de que os aviões esbarrassem na pipa, já lá no alto. E o pai dele retornou a pipa a terra em segundos, graças a um engenhoso arranjo onde atrelara o fio da pipa ao maquinário de uma enceradeira. Que talento!

Lá pelas tantas peguei uma fatia do salame e exclamei: “Oh pai, esse salame aqui é em sua homenagem, porque eu sei que você adorava isso!” E nós dois, naquele instante, ficamos tão felizes, tão bobos, tão rejuvenescidos pensando na sorte, na benção, no privilégio em termos convivido e amado nossos pais.

Claro que a gente tem saudade de quem partiu. Há de se sentir falta da voz, do cheiro, do abraço. Há de se chorar. Mas nada disso justifica um sentimento de desesperança, e nada disso ocupa mais espaço que a alegria da memória que eles deixaram.

Faça assim. Celebre a vida hoje. E amanhã, e depois. Faça coisas gostosas, permita-se um agrado, use uma camiseta furada, dê risadas com quem ainda está por aqui, ande descalço, tome um picolé, sinta o ventinho bagunçar seu cabelo, coma um pedaço de salame. Não visite túmulos, visite um jardim, de preferência com excesso de flores. Vai por mim. Honrar de verdade a memória de alguém deveria ser com imensa leveza, com prazer, e amor.

HBP, Nov 2nd, 2016
 

O Tornar-se

Publicado novembro 2, 2015 por timilique
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No último mês o Outono entrou em erupção. Em toda a sua glória. A Natureza ainda nos presenteia com estações imperturbáveis. Já tivemos a primeira geada, as árvores estão com as cores em chamas e com certa relutância tiramos dos armários nossos casacos, luvas e capas de chuva.  Sem dúvida alguma o Verão acabou.

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Cerca de 500 anos um teólogo escreveu: “A vida não consiste em sermos piedosos, mas em nos tornarmos de Deus. Não em sermos absolutamente saudáveis, mas em estarmos sendo curados. Não importa o ser, mas o tornar-se. A vida não é descanso, mas é um constante exercitar.  Ainda não somos o que devemos ser, mas em tal seremos transformados. Nem tudo já aconteceu e nem tudo já foi feito, mas está em andamento.  Isso não é um fim em si mesmo, mas o caminho. Ainda nem tudo brilha e faísca, mas tudo está sendo purificado e melhorado.”

Isso me faz relembrar de que estamos em constante fluxo – não existe um “ser” estático, imóvel. Há apenas o que está acontecendo, agora. Momento após momento. Continuamente.

Nossa filha caçula começou o segundo ano no College, está trabalhando e acaba de completar 20 anos de idade. Mal consigo compreender como isso aconteceu. Há pouco mais de 4 anos não sabíamos sequer se a mudança de país seria uma experiência temporária ou pra valer. Há 15 anos eu não tinha certeza de que veria meus filhos crescerem, submersa em uma crise de lupus eritematoso sistêmico. Há duas décadas uma médica havia me dito que eu nunca teria minha bebê-menina, junto com o diagnóstico de abortamento evitável. (“Se você perder essa bebê, perdeu. Mas você é jovem e pode engravidar de novo”).

Todos os dias tenho novos motivos para estar extremamente agradecida. Repito, todo o meu ser descansa em gratidão. Conheço a alegria diária, assim como tenho conhecido a imperfeição, a dor e as incertezas que os anos trouxeram. Estou aprendendo a me sentir confortável com o bom e o ruim, mesmo quando aparecem juntos. Não é por isso que usufruimos da Graça?

Os amigos e parentes com os quais convivemos, particularmente as crianças, são um presente abundante de juventude e energia. Vejo os bebês de casais amigos começando a desabrochar em sua primeira infância. Eles não têm idéia do que está por vir. Vejo amigos mais jovens e nossos próprios filhos esforçando-se, fazendo acontecer seus sonhos. Eles estão trabalhando duro na vida. Há momentos em que se permitem pedir um conselho ou ajuda, e demonstram como ainda é importante se sentirem aprovados por nós. Amigos mais velhos se alegram com nossa companhia e amizade, e nos enriquecem com seus ensinamentos. Isso é lindo se de testemunhar, e é uma honra para nós ainda desempenharmos um papel em suas vidas.

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20150828_194709_HDRNem tudo já aconteceu e nem tudo já foi feito, mas está em andamento.

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Não importa o que se é,  mas no que está se tornando.

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A vida não é descanso, mas é um constante exercitar.

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Este não é o objetivo, mas é o caminho certo.

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Vejo um pedacinho de nós em cada acontecimento, em cada pessoa que amamos.  A vida ainda não está “luzindo e brilhando”, mas “tornando-se”. 

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Quando nos permitimos sair da superficialidade, quando nos deleitamos com coisas pequeninas, quando notamos o brilho das cores em uma folhinha seca, então sabemos que estamos vivendo plenamente.  Vivendo não no ser, mas naquilo que está se tornando. 

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HBP, Fall 2015

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Expatriados

Publicado outubro 25, 2015 por timilique
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Mais Casos

Publicado setembro 29, 2015 por timilique
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Ainda sobre pequenas delícias de se morar na roça, o doce de abóbora e outros assuntos menos e mais relevantes.

When we are not sure, we are alive. 

Graham Greene

Caso 1. Morar na roça.

Você vai pagar umas contas em Watertown Charter Township e na estradinha de volta pra casa fica com vontade de comer doce. Obviamente precisa ir ao mercado comprar abóbora.  Eis que no meio da estrada, em frente a uma casinha, surge uma mesa improvisada com abóboras e tomates.

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Um senhor idoso acena da janela, mas não sai de casa. Na mesa do lado de fora, um pequeno cartaz com preços, uma latinha para deixar o dinheiro e sacolas de plástico para embalar a mercadoria.

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Caso 2.  Doce de abóbora.

Um dos primeiros doces que aprendi a fazer. Muito fácil e sempre dá certo com somente esses ingredientes:

  • 1, 5 kg de Abóbora de Pescoço ou Abóbora Seca descascada e cortada em cubos pequenos
  • 1 xícara de açúcar cristal
  • 1 pauzinho de canela
  • 1 xícara de coco ralado fresco
  • Tempo e fogo baixo

Em uma panela grande coloco os cubos de abóbora. Cubro com o açúcar e coloco a canela no meio. Não mexo. Tampo bem e levo ao fogo baixo, ainda sem mexer, até a abóbora começar a se desmanchar e soltar água. Amasso os pedaços de abóbora delicadamente com um garfo e só então mexo para misturar com o açúcar que já deve estar derretido. Deixo a tampa mal fechada desta vez e mantenho em fogo baixo. Quando a calda tiver engrossado (em torno de 40 a 50 minutos), junto o coco e deixo mais 10 minutos – fogo baixo. Espero esfriar completamente antes de guardar na geladeira.

Não encontrei a Abóbora de Pescoço por aqui e usei 2 unidades de Butternut squash da estradinha de Grand Ledge. Para adoçar usei Crystals demerara nature cane sugar. O coco fresco substituí por Bob’s Red Mill Coconut Flake Unsweetened.  Não fica igual ao brasileiro, mas dá para matar a saudade.

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doce 2Caso 3.  Catarse

Esse assunto do doce me fez lembrar de uns conhecidos (não amigos, só conhecidos mesmo), aos quais oferecemos um almoço em casa, há mais de 20 anos. Fiz tudo sozinha, com o capricho de dona de casa novinha e pimpona. Quando eu trouxe o doce de abóbora com coco, um deles fez cara de nojinho. Disse que não suportava o doce. E a esposa ainda disse pra tirar o doce da mesa, senão seu marido poderia vomitar a qualquer momento. “Trauma de infância, voce sabe”.  Não, não sei.  Sei que ninguém é obrigado a gostar de doce de abóbora.  Mas fazer cara de nojinho e dizer que vai vomitar? Tem mais de 40 anos? Ah, vai me desculpar, mas isso pra mim foi uma tremenda falta de educação, falta de amor, falta de tudo. Nesse dia percebi que a química não estava rolando e essa amizade não iria prosperar. Estão perdoados , claro, e sinto que fui poupada de novos dissabores evitando re-contato. Vou falar um pouco sobre esse assunto de quem não tem papas na língua a seguir.

Caso 4. A franqueza mal habitada.

Contam (já virou lenda mas nunca encontrei a fonte histórica) que Abraham Lincoln, quando presidente dos Estados Unidos, recusou incluir determinado sujeito em seu gabinete porque não havia gostado do rosto dele. Sua explicação: “Todo homem acima de 40 anos é responsável pelo rosto que tem”.

Não estou tão certa de que as pessoas que passaram dos 40 são totalmente responsáveis pelo rosto que tem, mas certamente são responsáveis pela maneira como agem e reagem. Há quem se gabe “Sou totalmente franco, comigo não tem falsidade. Falo tudo o que penso e não tenho papas na língua!”

Nesse caso, só posso dizer que a franqueza é muito mal habitada entre gente sem educação e sem limites, que confunde sinceridade com grosseria, ou rudeza.

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                                                                                 (foto de “The London Magazine, Or, Gentleman’s Monthly Intelligencer“;volume 47, pagina 24,  publicado em 1778.)

 

 

Caso 5. A conjugação verbal anda confusa no meu tempo sabático.

Às vezes me perguntava qual dessas seria a correta. “Sou médica,” “Eu era médica”, “Eu costumava ser médica e voltarei a ser de novo”? Obviamente a confusão acontece se eu considerar que minha participação nesse planeta só pode ser autenticada enquanto eu continuar exercendo a profissão que pratiquei por mais de 20 anos, e de preferência ganhando dinheiro com ela. Nada contra o dinheiro. Mas o tempo sabático vai revelando que as motivações primeiras que me levaram a ser médica (ou seja, a compaixão, a vontade de ajudar o próximo, a curiosidade, a criatividade, o impulso em querer aliviar a tristeza ou o sofrimento de alguém) ainda estão, todas, em mim. O amor, a compaixão pelo paradoxo da natureza humana, isso tudo cresceu. Também cresceu a compreensão do papel de Deus em minha existência; ou, mais corretamente, da minha existência dentro dos planos de Deus. Agora, fica mais fácil conjugar o que sou porque não preciso viver das glórias do passado ou de expectativas futuras. Não quero sentir que a vida só aconteceu nos primeiros 30 anos ou 40 anos e o restante ficou somente para reflexão.

Alem disso, desde que perdi uma porção de entes queridos e constatei que o lugar deles jamais seria substituído em minha vida, meu tempo verbal predileto passou a ser o presente do indicativo. “Eu acordo”. “Eu vejo o nascer do sol”. “Eu amo e tenho sido amada”. “Dou tão pouco e recebo tanto mais em troca”. E é claro, “Deus cuida de mim”.

Caso 6. “Deus cuida de mim”.

Virou uma citação na nossa familia por conta de um evento verídico. Uma familia frequentava a Igreja Presbiteriana aos Domingos na cidade de São Paulo, Brasil, onde havia uma programação para adultos e uma especial para crianças pequenas. Certa ocasião a lição das crianças tinha sido sobre Daniel, um personagem do Velho Testamento. Segundo a história bíblica, Daniel fora lançado em uma cova cheia de leões famintos após uma conspiração de seus inimigos. Claro que Daniel, o herói confiante em seu Deus, escapa são e salvo, para a alegria da criançada! Depois todo mundo desenhou um leãozinho em uma folha de papel (verdade seja dita,  alguns leões pareciam mais um cachorro com juba) e a professora completou à mão: “O Senhor cuida de nós”.

Finda a escola dominical era hora de uma mãe atarefada recolher suas 2 garotinhas e o bebê de colo, e e levá-los o mais rápido possivel para o almoço em casa com a babá. Depois seguiria para buscar o marido no Banco, que fazia plantão dominical para recolhimento do Imposto de Renda. Tudo cronometrado, as filhas pulando a frente na calçada, o bebê em uma das mãos, a chave do carro na outra mão, em um ombro a bolsa, no outro a sacola de bugigangas do bebê. A mãe colocou o bebê na cadeirinha, a filha menor no banco de trás, cinto de segurança, e agora… epa, então…cadê a outra filha?

Sem que a mãe percebesse, uma das garotas já se desgrudara do grupo. A menina sequer havia notado que os outros tinham ficado para trás. Correu mais um pouco e nao achou a mãe nem seus irmãos.

Do ponto de vista da garotinha, enfrentar a novidade era de uma simplicidade tremenda. Respirou fundo e olhou bem a rua. Caminhou de volta para a avenida principal (à época cheia de buracos gigantes pela construção do Metrô) tentando reconhecer algum caminho. Lembrou-se qu o e ônibus escolar costumava passar por ali durante os dias da semana, descendo a Rua Machado de Assis na volta da escola pra casa. Ela achou que podia fazer o mesmo caminho a pé. De vestido de croche amarelo-gema e o desenho do leão em punho, lá foi ela marchando pra casa.

Reconheceu casas, ruas, reproduzindo todo o caminho do ônibus. Nos cruzamentos obedecia à sinalização recém-aprendida na escola e só atravessou na faixa de pedestres. Começou a sentir fome e um certo cansaço. Queria chegar rápido em casa, tomar um copo de água e deitar-se no berço do irmãozinho, como recompensa. Se alguém a olhasse com estranheza ou em caso de repentina apreensão, ela abria o papel amassado nas maos, olhava o desenho do leão e repetia para si mesma: “O Senhor cuida de nós”.

Assim, de rua em rua e passo a passo, duas ou três horas depois chegou a casa, exausta. Empurrou a porta destrancada e disse oi, para espanto da babá que começou a gritar histericamente. Bebeu dois copos de agua, tirou os sapatinhos e foi para o berço, sempre agarrada ao desenho do leão.  Quando abriu os olhos viu rostos familiares chorando e rindo ao seu redor: a mãe, o pai, o avô, vizinho, a empregada, o mundo. Só não entendeu porque tanto exagero, esses adultos, se preocupam à toa, perguntando se estava tudo bem e se algo tinha acontecido. Como assim, acontecido? Não entendia aquela comoção. O que fez simplesmente foi seguir o caminho do ônibus escolar e chegar em casa.

Lágrimas e abraços resolvidos, palmada e bronca colossal do avô, mil telefonemas na casa, amigos chegando e saindo… o susto passou e a aventura ficou registrada no pequeno desenho ultra amarrotado e suado. A mãe até emoldurou o papel, que virou quadrinho exposto na parede. A frase virou jargão de família: “O Senhor cuida de nós” .

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Com o recurso da moderna tecnologia, eis a reprodução do provável trajeto de 40 anos atrás. O Google Maps dá uma rota aproximada de 3.6 km em 44 minutos de caminhada, estimativa para um adulto. Para uma crianca de 6 anos de idade deve ter demorado mesmo um bom par de horas.

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Para completar, a garotinha de 6 anos virou adulta e é essa que aqui vos escreve.  Por anos encontrei alguns voluntarios que ajudaram em minha “busca” e disseram, “Ah, você era aquela garotinha que fugiu!” A bem da verdade nunca fugi, apenas fui … adiante.

Hoje esses seis casos, os tais legumes da estrada, o doce de abóbora, as pessoas que entram e saem da nossa vida, a delicadeza que existe ou que inexiste, os insights do ano sabático… tudo isso me faz pensar por quantas estradinhas já andei e quantas vezes me senti perdida no limbo, sem saber o que fazer. E ainda assim meu sentimento predominante é de imensa gratidão. Primeiro por estar a bordo dessa aventura incrível, do privilégio constante chamado vida. E, mais importante, sou grata porque , acredite ou não, o Senhor cuida de nós, de você, de mim.

HBP, September 29, 2015

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As Três Vidas do Brasileiro

Publicado março 16, 2015 por timilique
Categorias: Prestando atenção

“We are what we repeatedly do. Excellence, therefore, is not an act, but a habit.”

Somos aquilo que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.

Will Durant

 

15 de março de 2015. Data histórica no Brasil. Muitos cidadãos nas ruas contra a corrupção gigante, macroscópica, escandalosa que avassala um Brasil quebrado e dividido. Aliás, corrupção vem do latim corruptus, que significa “quebrado em pedaços” ou “deteriorado”. Políticos aparecem na TV e, em protesto, a população bate panelas, acende a apaga as luzes de casa e grita “abaixo os corruptos!” Assistir aos panelaços faz lembrar dos caerolazos na Argentina em 2001, que marcaram a renúncia do presidente Fernando de la Rúa. Ou, muitos anos antes no Chile, dos protestos com panelas que mostraram a revolta popular contra o regime do ditador Augusto Pinochet. Também lembro dos panelaços de 2014 na Venezuela, onde foi denunciada mundialmente a escassez de alimentos e produtos básicos no país.

A gente, que mora longe, recebe noticias por amigos, familiares e via midia, e o coração aperta em um misto de emoções, saudades e as perguntas: Será que dessa vez o brasileiro acorda politicamente? Será que o povo esta no caminho certo? Desejo sinceramente que sim, que cada um esteja aprendendo a construir a democracia, a se indignar diante da impunidade e da Grande Corrupção.

Espero que, daqui para a frente, cada um que foi as ruas esteja muito, mas muito disposto mesmo a fazer a sua parte também contra aquela corrupção pequenina, endêmica, corrosiva, quase invisível. Aquela que já faz parte do dia a dia do brasileiro. Aquela que sempre vem com uma desculpa no estilo “sonego porque sonegam” ou “eu faço porque todo mundo faz” ou “só dá pra sobreviver assim”.

Tipo o profissional de saúde que vende recibos falsos para dedução no imposto de renda. Tipo o funcionario publico ou privado que aceita “presente” adiantado e/ou gorjeta para agilizar um atendimento presencial. Tipo o plantonista que faz “esquema” com os colegas para não permanecer na sua unidade o tempo pelo qual foi realmente contratado. Tipo o estudante de classe média/alta que prepara, faz e passa “cola” aos colegas; assim, tudo muito natural. Tipo oferecer ao guarda de transito um “café” ou uma “cerveja” para aliviar a multa. Tipo aquele “gato” de eletricidade ou internet ou TV a cabo puxado em casa ou na empresa. Tipo a empregada doméstica que leva pra casa o iogurte, o rolo de papel toalha ou o sabão em po da patroa. Tipo o dinheiro pedido emprestado àquele parente idoso ou a um amigo, ao qual o inadimplente não tem a minima intenção de restituir, torcendo para que de preferência a divida seja esquecida magicamente… Tipo o médico que faz atestado para academia sem examinar o paciente, ou emite receita azul (= medicação controlada) de cortesia para gente desconhecida, pro amigo do amigo do amigo do paciente. Tipo o motorista de carro que paga taxa mensal ao “flanelinha” da rua, o qual paga sua respectiva “taxa” ao policial da regiao para usar o ponto. Tipo o patrao ou empresa que nao paga os beneficios dos funcionarios. Tipo o juiz que recebe propina por trás das audiencias. Tipo a sindrome do “sabe com quem esta falando?”.  Tipo sonegar na boa o imposto de renda. Tipo bater o ponto do colega. Tipo cobrar X sem recibo e X + Y com recibo. Tipo encontrar um conhecido em uma enorme fila, ficar de papo e passar na frente de todo mundo sem nenhum pudor. Tipo o repasse de “caixinha” para toda a equipe do setor, ou da caixinha proporcional do departamento (20% pra nos, 10% pro supervisor e 8% pro diretor da corporação). Tipo empurrar um produto ao seu cliente, forçando a barra e dizendo que é um otimo negocio. Tipo ficar quieto se o troco veio a mais, e fazer o maior escandalo se o troco veio a menos. Tipo incomodar seus vizinhos com som alto depois da meia noite e ainda achar um absurdo que vieram reclamar. Tipo nao emitir nota fiscal. Tipo falsificar carteirinha de estudante. Tipo jogar os mais variados objetos pela janela do seu apartamento e nao se importar nadinha com quem possa estar ou morar abaixo. Tipo comprar produtos falsificados, DVD ou CD piratas. Tipo usar a maquina de fotocopia da repartição para “xerocar” o trabalho escolar do seu filho. E a criança sabe que o papai pode fazer quantas copias quiser no trabalho. Exemplo não falta.

Gabriel García Márquez declarou uma vez a Gerald Martin: “Todos tenemos tres vidas, una vida pública, una vida privada y una vida secreta.” Não estou a fim de julgar ninguém, nem vasculhar as suas três vidas. Se você ainda acha que essa corrupçãozinha do dia a dia é normal e o problema reside apenas nas instituições e Governo, talvez o caminho seja muito mais longo e demorado do que a gente imagina. E aqui de longe, com o coração bem apertado, vou bater panela pra você.

HBP, March 16, 2015

A Culpa é do Vento

Publicado dezembro 1, 2014 por timilique
Categorias: Ouvindo

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A atriz e poetisa brasileira Elisa Lucinda costumava dizer: Sou super a favor de ouvir a conversa dos outros. Você tem alguém contando uma história bem contada e não vai ouvir? Claro que vai. Além disso, ela aconselhava o ouvinte eventual a se intrometer quando necessário: E se a pessoa vai tomar aquele remédio que sua mãe tomou e quase morreu? Por fim, justifica: Quem traz a palavra é o vento, você só tem que se posicionar para ouvir a conversa.

Não que eu seja ouvinte da conversa dos outros de primeira. Mas amiúde alguém me conta uma conversa inusitada trazida pelo vento. E a conversa fica lá quietinha, guardada no bolso. De repente…emerge do nada, piscando feito continhas de vidro ao sol. Hoje selecionei três destas preciosidades, e prometo me abster de comentários.

Deu-se que duas senhoras conversavam nos arredores de um museu, localizado em uma grande cidade brasileira, em tempos ultra recentes. A primeira, uns 80 anos e cabelos brancos; a segunda senhora com aspecto de 55 e cabelos tingidos.

Senhora de Cabelos Brancos (B): Ah, que saudades de antigamente. Aqui no museu havia desfile de 7 de setembro. As pessoas eram tão patrióticas.

Senhora de Cabelos Tingidos (T): Mãe, desfile militar não é patriotismo, é ostentação de poder militar. Ainda bem que a ditadura acabou.

B: Ah, mas pelo menos a gente tinha no que acreditar.

T: Ainda bem que aquela ilusão acabou e hoje nós temos a democracia.

B: Mas hoje em dia tá essa bagunça. São Paulo deveria se separar do resto do país.

T: É, se isso acontecer, aí eu quero ver onde o governo de SP vai buscar água para você tomar banho.

B: Água a gente compra. 

T: Mãe, faça um favor para você mesma, não diga essas coisas em público.

B: É, seu pai já dizia para eu não ficar falando essas coisas senão ele ia ficar envergonhado diante dos amigos. Hihihi. Mas o problema agora é essa presidente, tá tendo corrupção demais.

T: Mas você acha que o outro candidato seria melhor? Está muito enganada.

B: O tempo vai dizer. 

T: (dando uma cortada) Bom, a gente não dispõe de muito tempo para conviver, então que tal a gente fazer deste um momento agradável?

A segunda conversa chegou ao meu ouvido em um café aqui perto da Universidade. Dois ou três casais da terceira idade estavam em um papo animadissimo sobre Jung, sonhos e a mente subconsciente. Na mesa deles, muitos livros entreabertos, retirados da sessão de psicologia da biblioteca. Imaginei que fossem antigos professores ou um grupo de psicanalistas da região. Só percebi que não era nada disso quando um senhor começou a relatar o sonho que tivera na noite anterior. Contou que “estava em um grande recinto com uma pequena multidão presente, aguardando a chegada do Rei da Inglaterra”. A senhora ao lado (provavelmente a esposa) tentou consertar:

– O Rei? Não seria a Rainha?

– Não, não havia Rainha, só o Rei, insistiu o marido. E prosseguiu: era uma recepção fora da Inglaterra, aqui na ex-colônia, e portanto com muito menos pompa. Na ponta do salão havia um trono relativamente simples, para onde o Rei se dirigiria após o trajeto diante de todos.

– E…?

– Como as pessoas ao meu redor não sabiam como se posicionar ou o que fazer, tomei a iniciativa de sugerir o protocolo. Anunciei a todos que quando o Rei aparecesse, eu me ajoelharia em sinal de respeito.

– E …?

– O Rei surgiu a porta escoltado pela King’s Life Guard. A medida em que o grupo caminhava, os convidados se ajoelhavam. Ele sentou no trono, fez aquele sinalzinho com as mãos para que a multidão se levantasse. Fiquei reparando bem no rosto do rei, muito bem apessoado, roupas elegantes e uma curiosa barba.

– E…?

– Bem, nesse exato momento, acordei com vontade imperativa de ir ao banheiro. E me pergunto, qual a conexão entre o conteúdo do sonho e a súbita interrupção?

Todos se entreolharam, depois desviaram os olhares, mãos no queixo, pensativos. Então o senhor com o aspecto mais idoso (e que parecia estar dormindo o tempo todo)  abriu os olhos e exclamou:

– Simples. A conexão … é o trono!

O terceiro relato  veio de alguém que ouviu o diálogo entre minha irmã e sua filhinha mais velha, anos atrás. Na época a pequena tinha sete anos idade e já era excelente aluna de Português e Matemática. Um dia, trocando idéias com a mãe sobre que frase usar para a abertura da lição de casa, sob o empolgante titulo “Sou Assim”, perguntou:

Filha (F) : Mãe, o que é mesmo algo au-to-bi-o-grá-fi-co?

Mãe (M): É quando você conta o que pensa de você mesma.

F: Conto as coisas boas ou as ruins?

M: O melhor é sempre falar a verdade.

F: Então já sei!

A pequenina foi ao quarto pegar o caderno e lápis. Escreveu, escreveu, depois voltou.

M: Então, o que você escreveu? Quer ler para mim o comecinho?

F: Tá bem: “Sou assim. Alegre, feliz, alfabetizada, numerada, saudaveuiluminada e tem algumas coisas que eu tenho que melhorar mas não irei contar. “

HBP  – Nov 30, 2014

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