Considerações sobre o amor

Arte por Renato Alarcão

Arte por Renato Alarcão

Deve-se citar uma última vez a perturbadora fórmula de Pavese em seu diário íntimo: “Você será amado no dia em que puder mostrar sua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força.” Esse amor é o mais raro, o mais precioso, o mais milagroso. Se você recua um passo, ele recua dois. Simplesmente para lhe dar mais lugar, para não esbarrar em você, para não o invadir, não o oprimir, para lhe deixar um pouco mais de espaço, de liberdade, de ar, e tanto mais quanto mais fraco o sentir, para não lhe impor sua potência, nem mesmo sua alegria ou seu amor, para não ocupar todo o espaço disponível, todo o ser disponível, todo o poder disponível… É o contrário do que Sartre chamava de “o grandão cheio de ser”, em que via uma definição plausível do canalha. Se aceitamos essa definição, que vale tanto quanto outra qualquer, devemos dizer que a caridade, na medida em que formos capazes dela, seria o contrário dessa canalhice de ser si mesmo. Seria como que uma renúncia à plenitude do ego, à potência, ao poder. Assim como Deus, que “se esvaziou de sua divindade”, escreve Simone Weil, e é o que torna o mundo possível e a fé suportável. “O verdadeiro Deus é o Deus concebido como não comandando em toda parte onde tenha o poder de fazê-lo.” É o amor verdadeiro, ou antes (pois os outros também são verdadeiros), o que há de divino, às vezes, no amor. “O amor consente tudo e só comanda os que consentem em ser comandados. O amor é abdicação. Deus é abdicação.” O amor é fraco: “Deus é fraco”, embora onipotente, pois é amor. É um tema que Simone Weil podia encontrar em Alain, que foi seu mestre: “Cumpre dizer que Deus é fraco e pequeno, e sem cessar moribundo entre dois ladrões pela vontade da mais insignificante polícia. Sempre perseguido, esbofeteado, humilhado; sempre vencido; sempre renascendo no terceiro dia.” Daí o que Alain chamava de jansenismo, o qual, explicava ele, “se refugia num Deus oculto, de puro amor, ou de pura generosidade, como dizia Descartes; num Deus que só tem a dar espírito; num Deus absolutamente fraco e absolutamente proscrito, e que não serve, mas que, ao contrário, deve ser servido, e cujo reinado não chegou…” Ateísmo purificador, dirá Simone Weil, e, de fato, purificado de religião. O amor é o contrário da força, assim é o espírito de Cristo, assim é o espírito do calvário: “Se ainda me falam de Deus onipotente”, insiste Alain, “respondo que é um Deus pagão, um Deus superado. O novo Deus é fraco, crucificado, humilhado… Não digam que o espírito triunfará, que terá potência e vitória, guardas e prisões, enfim a coroa de ouro. Não… É a coroa de espinhos que ele terá.” Essa fraqueza de Deus, ou essa divindade da fraqueza, é uma idéia que Spinoza nunca teria tido, ao que tudo indica, que Aristóteles nunca teria tido, e que, no entanto, fala à nossa fragilidade, ao nosso cansaço, e mesmo a essa força em nós, parece-me, tão leve, tão rara, o pouco de amor verdadeiramente desinteressado de que às vezes somos capazes, ou de que acreditamos ser, ou de que sentimos, pelo menos, a nostalgia ou a exigência. Não mais a falta, a paixão ou a cobiça (erôs), não mais a potência alegre e expansiva, a afirmação comum de uma existência reciprocamente aumentada, o amor a si duplicado pelo amor ao outro (philia), mas a retirada, mas a doçura, mas a delicadeza de existir menos, mas a autolimitação de seu poder, de sua força, de seu ser, mas o esquecimento de si, o sacrifício de seu prazer, de seu bem-estar ou de seus interesses, o amor a que não falta nada mas que, nem por isso, é cheio de si ou de sua força (o amor a que não falta nada porque renunciou a tudo), o amor que não aumenta a potência mas que a limita ou a nega (o amor que é abdicação, como diz Simone Weil, o amor que é o contrário do egoísmo e da violência), o amor que não duplica o amor a si mas que o compensa ou o dissolve, o amor que não conforta o ego mas liberta dele, o amor desinteressado, o amor gratuito, o puro amor, como dizia Fénelon, o amor que dá (o que já era philia), mas que dá em pura perda, e não a seu amigo (dar a um amigo não é perder: é possuir de outro modo, é desfrutar de outro modo), mas ao estranho, mas ao desconhecido, mas ao inimigo…

Anders Nygren mostrou as características distintivas da agapé cristã: é um amor espontâneo e gratuito, sem motivo, sem interesse, até mesmo sem justificação. Isso a distingue, é claro, do erôs, sempre ávido, sempre egoísta, sempre motivado pelo que lhe falta, sempre encontrando seu valor no outro, sua razão no outro, sua esperança no outro. Mas isso a distingue também da philia, que nunca é totalmente desinteressada (já que o interesse de meus amigos é meu interesse), nunca totalmente gratuita (já que me dou prazer dando-lhes prazer, já que eles me amarão mais por isso, já que me amarei mais), nunca totalmente espontânea ou livre (já que sempre determinada pelo encontro feliz de dois egos, pela combinação harmoniosa de dois egoísmos: “porque era ele, porque era eu…”). O amor que Deus tem por nós, segundo o cristianismo, é ao contrário perfeitamente desinteressado, perfeitamente gratuito e livre: Deus nada tem a ganhar com ele, já que nada lhe falta, nem existe mais por causa dele, já que é infinito e perfeito, mas ao contrário se sacrifica por nós, se limita por nós, se crucifica por nós e sem outra razão a não ser um amor sem razão, sem outra razão a não ser o amor, sem outra razão a não ser ele mesmo renunciando a ser tudo. De fato, Deus não nos ama em função do que somos, que justificaria esse amor, porque seríamos amáveis, bons, justos (Deus também ama os pecadores, foi inclusive por eles que deu seu filho), mas porque ele é amor e o amor, em todo caso esse amor, não necessita de justificação. “O amor de Deus é absolutamente espontâneo”, escreve Nygren. “Ele não procura no homem um motivo. Dizer que Deus ama o homem não é enunciar um julgamento sobre o homem, mas sobre Deus.” Não é o homem que é amável; é Deus que é amor. Esse amor é absolutamente primeiro, absolutamente ativo (e não reativo), absolutamente livre: não é determinado pelo valor do que ele ama, que lhe faltaria (erôs) ou o alegraria (philia), mas, ao contrário, ele determina esse valor amando. Ele é a fonte de todo valor, de toda falta, de toda alegria. A agapé, escreve Nygren, é “independente do valor de seu objeto”, pois ela criou esse valor:

A agapé é um amor criador. O amor divino não se dirige ao que já é em si digno de amor; ao contrário, ele toma como objeto o que não tem nenhum valor em si e lhe dá um valor. A agapé nada tem em comum com o amor que se funda na constatação do valor do objeto a que se dirige [como faz erôs, mas como também faz philia, quase sempre]. A agapé não constata valores, cria-os. Ele ama e, com isso, confere valor. O homem amado por Deus não tem nenhum valor em si; o que lhe dá um valor é o fato de Deus amá-lo. A agapé é um princípio criador de valor.

André Comte-Sponville

 

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