Telefone celular: use com moderação

Angkor, Cambodja

Angkor, Cambodja

“Os aparelhos celulares passaram de 150 milhões no Brasil em dezembro. Antes era só a voz. Com texto e e-mail, nossa cara se enfia na tela. O vício de estar plugado se alastra. Quantos de nós já perderam os limites da educação e do pudor no uso do celular e se tornaram reféns da comunicação em tempo real? Levamos o aparelho para o banheiro, a cama, a mesa, o museu, o batizado, o casamento e o funeral. Quantos de nós ainda têm tempo para a reflexão?

As ligações telefônicas invadem atos que costumavam ser praticados do início ao fim, com uma dedicação de corpo e espírito que dava sentido ao presente. Os celulares alheios, “dos outros”, esses são os piores. De repente, num almoço, numa troca de beijos ou até numa conversa de telefone fixo, você é “desligado” por seu interlocutor, que precisa atender o celular. Já fiz isso. É falta de educação. Caso a ligação invasiva dure alguns minutos, quando vocês se entreolham novamente, já esqueceram o que diziam ou faziam. Não é exagero. O mundo externo suga. As conversas, mesmo as mais delicadas, se fragmentam. O preço pode ser alto demais.

No romance Fantasma Sai de Cena (Exit Ghost), do americano Philip Roth, um escritor, depois de viver isolado nas montanhas por dez anos, chega a Nova York: “O que mais me surpreendeu foi a coisa mais óbvia – os telefones celulares. Na Manhattan de que eu me lembrava, as únicas pessoas que andavam pela Broadway aparentemente falando sozinhas eram os loucos. O que acontecera que agora havia tanto a dizer e com tanta urgência que não dava para esperar? (…) Alguma coisa que antes inibia as pessoas agora havia desaparecido, e por isso falar sem parar ao telefone se tornara preferível a caminhar pelas ruas sem estar sendo controlado por ninguém. (…) Para mim, isso tinha o efeito de fazer com que as ruas se tornassem cômicas, e as pessoas, ridículas. Havia também um lado trágico nisso. A anulação da experiência da separação. (…) Você sabe que pode ter acesso à outra pessoa a qualquer momento, e, se isso se torna impossível, você fica impaciente e zangado, como um deusinho idiota. (…) Tendo vivido parte da minha vida na era da cabine telefônica, cujas portas dobradiças podiam ser hermeticamente fechadas, impressionava-me aquela falta de privacidade. (…) Eu não conseguia compreender como alguém podia imaginar que levava uma vida humana falando ao telefone metade do tempo em que estava acordado”.
Na Espanha, no ano passado, dois adolescentes de 12 e 13 anos foram internados três meses por vício em celulares. Passavam seis horas por dia “interagindo com o aparelho, mandando mensagens e jogando”. Especialistas orientam os pais a só dar celular aos filhos após os 13 anos de idade. São ignorados. Crianças de 6 anos já têm celulares próprios.

Quatro em cada dez japoneses levam o celular ao banho para telefonar, mandar e-mails, ouvir músicas ou jogar. O tratamento para o viciado em celular segue o modelo das drogas comuns. Tira-se o aparelho. E só é restituído quando o paciente percebe que é possível viver sem o celular.

(…)

Imaginamos ouvir o celular tocando, mas não está. Os viciados em mensagens entram em depressão quando elas rareiam. Os chatos falam tão alto sobre suas vidas que constrangem o mundo à sua volta. Quase ninguém sai de casa hoje sem celular. E, se esquece, volta, por se sentir perdido. Nos cinemas e teatros, é comum ver na plateia pontos de luzes. São as telas ativadas para trocar mensagens.

O BlackBerry é apelidado de crackberry. O dicionário Webster elegeu “crackberry”, em 2006, como “a nova palavra do ano”. É uma referência ao crack, a pasta de cocaína com enorme potencial de vício. Um celular hoje pode ter inúmeras funções. Despertador, mensagens, fotos, vídeos, MP3, rádio, internet, jogos, calculadora, agenda, calendário. E até fazer ligações. Use com moderação.

(…)”

Ruth de Aquino, revista Época,23/02/2009

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