Jogos, matemática e a cultura do risco

 

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” … Deparamos hoje com novas modalidades de aventura, seja na vertente dos esportes radicais, seja na busca da emoção exacerbada pelas drogas lícitas e ilícitas. Alguns autores vêm procurando entendê-las à luz das características da sociedade de risco, situando-as como formas de anteparo aos processos de destradicionalização que acompanham a globalização. Temos assumido a posição de que, para entendê-las, é preciso antes de tudo situá-las no contexto dos jogos. Optamos, para isso, pelas teorizações de Roger Caillois.

Jogos

Caillois baseia seu modelo de jogos na interseção de duas dimensões: as diferentes modalidades de jogos e o grau de disciplinarização dos jogos. Propõe quatro modalidades básicas de jogos: agôn, jogos de competição; alea, jogos de chance; mimicry, jogos de simulacro e ilinx, jogos de vertigem. As quatro modalidades aparecem em duas formas: uma mais espontânea (ou primitiva) – a paidia e a outra mais regrada – o ludus. Podemos pensá-las na perspectiva da sociogênese, ou seja, a paidia como uma forma menos socializada dos jogos, típica, por exemplo, da infância e o ludus como a forma disciplinada, socializada e presa a regras de comportamento.

Um dos fenômenos mais surpreendentes da época atual é o crescimento vertiginoso, quase desenfreado, dos jogos de vertigem (ilinx) e é nesse contexto que situamos o risco-aventura. Faz parte desse movimento de expansão, a emergência das diversas novas formas de esportes de aventura, tendo como precursora a Whitbread Ocean Race, com início em 1973. Herdeira das disputas informais entre os tea clippers que faziam a rota entre Europa e Ásia no século passado, a Whitbread mobiliza hoje alta tecnologia e recursos sofisticados, sem deixar de apelar para a emoção dos riscos inerentes ao enfrentamento dos oceanos.

A década de setenta introduz modalidades de risco-aventura que utilizam veículos motorizados, especialmente as disputas de veículos off-the-road, sendo as mais conhecidas o Rali Paris-Dakar, iniciado em 1979, e o Camel Trophy, realizado em lugares inóspitos em diferentes países a partir de 1980.

O final dos anos 80 vê emergir novas modalidades de risco-aventura: os ralis humanos. A primeira competição nessa nova modalidade teria sido o Raid Gauloise, concebido por um jornalista francês, Gérard Fusil e realizado pela primeira vez na Nova Zelândia em 1989. Já o Eco-Challenge Lifestyles Inc., fundado por Mark Burnett em 1992, como sugere o nome, inova por associar aventura com ecologia. Trata-se, como seu antecessor, de uma competição de resistência que envolve múltiplas modalidades de esporte: montaria a cavalo, canoagem, escalada, rapel, mountain bike e longas caminhadas. Tem como ingredientes principais o trabalho em equipe, a resistência, o espírito de aventura e a compaixão, mesclados com a consciência ecológica manifesta não só no respeito absoluto à natureza (“pack it in, pack it out, no camp fires, camp and travel only where permitted” é o lema dos aventureiros ecologistas), como também na ação ambiental efetiva apoiando iniciativas locais.

Também nós, no Brasil, aderimos aos ralis humanos, inicialmente com a Expedição Mata Atlântica, organizada pela Sociedade Brasileira Multisport Adventure Racing a partir de 1998, e mais recentemente com os programas populares de sobrevivência, como o recente No Limite.

Entretanto, o ilinx não se manifesta apenas nessas formas disciplinadas de jogos de vertigem características do ludus.

As formas culturais englobam todas as modalidades de esportes que exaltam a velocidade, a adrenalina, a obliteração da razão pela concentração total na ação. Por exemplo, o esqui, o alpinismo, o surfe e as diversas modalidades de esportes que envolvem desafio, sobrevivência e vertigem.”

Leia o artigo completo nos Cadernos de Saúde Pública, publicação da Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz.

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