O humor que cura

 

Apenas três coisas podem realmente fortalecer o homem contra as tribulações da vida:a esperança, o sono e o riso.”
Emmanuel Kant

O humor tem sido utilizado atualmente nos cuidados com pessoas idosas e doentes incuráveis. Em um trabalho publicado em 2008, que traz a visão geral de 88 estudos sobre o uso do humor em enfermarias nos últimos 30 anos, as pesquisadoras escocesas May McCreaddie e Sally Wiggins citam ao mesmo tempo a falta de “estudos baseados em evidências” e a constatação de que o antigo ceticismo em relação a abordagens com base no humor parece ter cedido lugar a um forte interesse.

Sem dúvida o trabalho do psiquiatra Patch Adams, que influenciou a criação de grupos como os Doutores da Alegria, no Brasil, ajudou nesse percurso – e fez muitos doentes sorrirem.Mas nem só os doentes se beneficiam de uma postura mais leve e alegre. As pessoas saudáveis, com senso de humor, costumam ser mais flexíveis, menos dogmáticas e conseguem tolerar melhor contrariedades – uma capacidade extremamente útil em um mundo cada vez mais complicado.

Michael Titze, fundador do Humor Care – outra instituição de apoio ao humor terapêutico – considera que essa visão diferente do humor ajuda a criar um distanciamento cognitivo de si mesmo e da situação.Voltar-se para o lado cômico quebra padrões fixos, relativiza a própria visão e elimina o caráter ameaçador de várias situações.Em resumo: aquilo de que rimos não nos causa nó no estômago.

Sigmund Freud escreveu em um ensaio de 1928:” Sem dúvida a essência do humor consiste em que alguém se livre dos efeitos que a situação teria provocado normalmente, considerando por meio de um chiste a possibilidade de semelhante desenlace emocional.” O criador na psicanálise via o humor como uma válvula de escape da psique, um recurso que, de certa forma, se aproximava do delírio.Ele demonstra sua tese recorrendo ao exemplo de um condenado à morte que é levado para o cadafalso em um segunda-feira e, a caminho, comenta: “Esta semana está começando bem!” Para Freud, quem consegue fazer piadas sobre a própria sorte “está acima do seu destino.”

HBP, inverno de 2009

 (Texto que publiquei hoje no Pavablog)

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