Convite a alma

leveza

Pois que cada homem é filósofo do seu tempo.
Nélida Piñon

Eu digo: calma, alma minha, calminha, você tem muito que aprender.
Zeca Baleiro

Hoje quero fazer um convite a minha alma. Convido-a a ser minha parceira no ofício da leveza.

Alma, você parece estar sempre indócil pensando no “se”, nas preocupações que talvez jamais aconteçam, no amanhã que ainda não chegou, em um passado permeado de mágoas.

Quero convidá-la a ser minha parceira em viver o presente de forma plena, minuto a minuto. Porque só cada dia vencido nos habilita a viver o próximo.

Alma minha, o que você tem na sua bagagem que se tornou tão grande e pesada? Vamos fazer um balanço sincero do que existe nas malas e bolsas dessa viagem que juntas fazemos há tanto tempo. Por que não se desfazer de papéis velhos e notinhas acumuladas sem importância, já desbotados e ilegíveis, listas de dívidas a cobrar de gente que já ficou para atrás? Perdoe. Perdoe com bom humor, com desapego, com o que necessário for. O peso excessivo da mochila pode fazer com que você, minha pequena alma, ande encurvada e envelhecida. É hora de tornar-se mais leve e flexivel.

Vamos combinar assim. Que tal viver a plenitude do presente, com recato, amor, coragem, ternura e compaixão? Quando ouvir, ouça – não pense nas respostas a serem entregues. Sem ter vergonha de dizer “não sei”. Não saber é próprio da nossa humanidade.
Quanto perder verdadeiramente alguém, sinta a dor. Quando chorar, chore – não diga a si mesma para parar enquanto as lágrimas não secarem de vez. Alguém disse que é mister chorar quando os fatos exigem lágrimas. Mesmo os nossos lutos precisam se esgotar, precisam encerrar o ciclo das fases da dor até a mais perfeita aquietação, como aquele constructo da psicologia: choque, negação, raiva, barganha, depressão, aceitação e esperança. Pular fases é mera ilusão: elas voltam, cedo ou tarde, para reclamarem seu espaço.

Convido-a a deixar o medo. Não me constranja a renunciar ao privilégio da aventura de estar viva. A despeito dos perigos que nos ameaçam, o simples ato de beliscar-se, ou sentir o vento no rosto e constatar como todo o corpo reage representa uma espécie de graça renovada para o dia. Talvez seja por isso que um sentimento de surpresa sobrevenha ao constatarmos que as pessoas desprovidas daquilo que julgamos essencial consigam viver em plenitude. Você não precisa arranjar desculpas para explicar o sorriso que permanece no rosto dos desprovidos. De alguma forma, eles aprenderam, bem antes de nós, que o sonhar é uma graça de proporções tão exageradas que é necessário atribuí-lo a Deus, empenhado em pessoa em amparar o homem, criatura e obra sua.

A partir de agora prometo não me descuidar de você. Sejamos leves, alma, e na leveza estará a nossa força. Eu a convido.

Helena Beatriz Pacitti, inverno de 2009

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7 Comentários em “Convite a alma”

  1. Mario Says:

    Congratulations!! This is the most beautiful thing I have ever read! You have so many gifts. You have the capacity to express yourself with absolute clarity, you can express in words what most of us are only capable of feeling. You are more than intelligent, you are wise. Most of all, you are not selfish! You share with us all the beauty of your soul. You call it “my little soul” but in reality your soul is the size of the infinite love that lives in your heart! Thank you for teaching us so many things and in such a beautiful way. God Bless you little angel!!

  2. Lisete Says:

    Adorei amiga! Lindo…


  3. Belo. Muito muito bonito. Parabéns. As palavras nos seus devidos lugares… Beijo pra ti,

    AM


  4. “Já aprendi a contentar-me com as circunstâncias em que me encontre.” Filipenses 4:11

    Gracias pelas palavas de sabedoria, reflexão e exortação.

    Beijo, paz!

    Fabio Pereira

  5. Eduardo Azevedo Says:

    Esse texto é pra ler e reler. Adorei.

  6. creuza Says:

    lindo; tudo no seu devido lugar, adorei parabens

  7. Ivanilde Roque Says:

    Um suspiro!!! Assim me senti ao ler esse magnifíco texto. Obrigada por esse momento. Acabo de descobri-lá e confesso não coseguirei te largar. Parabéns!


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