Me diz: como ser feliz em outro lugar?

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Me diz, me diz, como ser feliz em outro lugar?

Ivan Lins

Aqui é o meu país, minha terra, meu pedacinho de céu emoldurado por paisagens de terra vermelha, praias cintilantes e folhas tenras durante todo o ano.

Aqui é o país de origens que às vezes preciso esquecer. Das histórias de náufragos, traficantes e degregados. Das expedições de exploração. Das primeiras décadas obscuras, das últimas décadas obscuras. Dos primeiros contrabandos de 1531. Toneladas de pau-brasil, peles de onça, papagaios, algodão, pimenta.

“Nesta terra…” – plagiando a Nélida – “ … onde plantando-se nascem: a traição, a sordidez, a banalidade. Mas onde afloram a alegria, a esperança, a ingenuidade.”

 Aqui é o país onde meus antepassados resolveram recomeçar. O país onde realizaram o sonho da fábrica de macarrão, da primeira máquina de gelato, do encantamento com o cheiro do maracujá e do café. Aqui é o país da borracha, do enciclopedismo, da preguiça,da hospitalidade.

Se sou palestina, judia, chinesa, italiana, portuguesa, inglesa, australiana, francesa; se sou josé, joão, severino; se sou um mosaico de tudo isso é então que sou verdadeiramente brasileira. Brasileira que carrega em si a permanente sensação de ser estrangeira na própria terra. Porque aqui é o país que agrega as graças e maldições dos que chegaram de toda  latitude e altitude.

Aqui é o país dos castelos, da impunidade, dos gestos falsos dos palanques, das batidinhas nas costas, do descompromisso com o coletivo, da imunidade parlamentar.

O país Macunaíma, da Negra Fulô, de Jubiabá, da galinha de Domingo. O país de Grande Sertão, da prosa emaranhada dos Riobaldos que transitam todos os dias nas ruas, construções civis, plantações de açúcar e minas de ferro.

Aqui é o país de tudo o que é crendice, herói, santo, apóstolo e bispa. Aqui é o país de folclore, palco, fofoca. Aqui é o país dos desaforos sociais, das milícias e bondes, dos seqüestros-relâmpago, dos trotes telefônicos, de bárbaros, pitorescos e crédulos. Pau-brasil. A floresta e a escola. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação*, Pasquins, Caras, garotas de ipanema, garotas de programa, garotos de rua. País que muda sua ortografia como quem muda de roupa. País que tem o despudor de manter em seu comando, há décadas, os mesmos rostos, as mesmas famílias corruptas, o coronelismo, o “sabe com quem está falando?”.

Aqui é o pais das tragédias sociais. Das enchentes, desabrigados, secas, dos fugitivos internos, dos migrantes, ilusões, favelas, novelas, miríades de aparelhos de TV, big- brothers, “fazendas”, câmeras escondidas, moscas , maquiagem e cheiro ruim. Aqui é país da malária, tuberculose, diarréias, de hospitais públicos com gente amassada no corredor. País de emílias, pó de pirimpimpim, pré-sal, sindicatos espúrios, indenizações trabalhistas, espertezas, exceções jurídicas, jeitinhos.

Aqui é o país onde minha alma por tudo isso se comove. É o país onde está chovendo na roseira, onde a mesma alma canta junto com o sabiá, bem-te-vi, juriti e aquela passarada toda. Do trem que chega e que vai. Do lindo pendão da esperança. Do amigo no lado esquerdo do peito.

Aqui é o meu país, onde nasceu minha mãe, onde enterrei meu pai, onde lutam os meus filhos, onde cultivo meus sonhos. De onde fujo às vezes, e sei que sempre vou voltar.

Aqui é o país onde quero fazer diferença, lançar uma gota que seja, mudar rumos. Aqui existem as águas infindas. País gracioso, de bons ares.

Me diz, então, como ser feliz em outro lugar?

HBP, quase primavera de 2009

 

* homenagem a Oswald de Andrade. E também a Ivan Lins, Pero Vaz de Caminha,Nélida Piñon e Tom Jobim.

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2 Comentários em “Me diz: como ser feliz em outro lugar?”


  1. como Oswald disse…..

    “Canto de regresso à pátria”

    Minha terra tem palmares
    Onde gorjeia o mar
    Os passarinhos daqui
    Não cantam como os de lá
    Minha terra tem mais rosas
    E quase que mais amores
    Minha terra tem mais ouro
    Minha terra tem mais terra
    Ouro terra amor e rosas
    Eu quero tudo de lá
    Não permita Deus que eu morra
    Sem que volte para lá
    Não permita Deus que eu morra
    Sem que volte pra São Paulo
    Sem que veja a Rua 15
    E o progresso de São Paulo…

    bonito o parágrafo teu “Aqui é o meu país, onde nasceu minha mãe, onde enterrei meu pai, onde lutam os meus filhos, onde cultivo meus sonhos. De onde fujo às vezes, e sei que sempre vou voltar…”

    bj,

    AM

  2. Mario Says:

    Muito bonito o que voce escreveu, voce parece se superar a cada texto!! Como voce retrata bem esse nosso pais de tantas contradicoes, alegrias e tristezas, belezas e tragedias, e tambem de tantos absurdos!
    Tudo com uma sensibilidade, claresa, coerencia e …poesia que so voce tem. Muito bonito and touching o que voce escreveu sobre a sua familia. Estou em pleno acordo com o comentaria do leitor e admirador que escreveu o primeiro comentario.
    Nao podemos mudar o passado mas podemos todos juntos fazer o presente, a diferenca para um futuro melhor, para que a luta de nossos filhos nao seja tao ardua quanto a nossa, e que um dia todos nos, mesmos os que vivem em auto exilio como eu, possamos dizer realmente orgulhosos mundo afora que nao existe pais melhor para ser feliz do que esse nosso pais chamado Brasil! Obrigado mais uma vez!!! Deus te abencoe!! Beijos no seu coracao e nessa alma tao linda!!;)


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