Descobrir

cavalo - mulher

Não te encontro, não te alcanço…
Só – no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só – na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecilia Meireles

Ainda me encanta a capacidade do ser humano de descobrir o mundo, descobrir a si mesmo e descobrir o outro.

Na infância, o conhecimento se dá por descobertas que a própria criança faz. Educar parece ser agora visto  como “provocar a atividade”.

Quem convive com uma criança de 2 anos repara como o bebê desenvolve a percepção de si mesmo e dos objetos a sua volta.  É capaz de passar longos períodos descobrindo as próprias mãos, mexendo os dedinhos e se encantando com seus próprios movimentos. Será também preciso caminhar de mãos dadas com esta criança, tempos depois, para descobrir como é demorado conseguir chegar simplesmente ao final da quadra, ja que a caminhada será fatalmente interrompida um sem número de vezes por um cachorro, uma pequena planta ou uma formiga carregando uma folha maior que ela mesma.

O que mais me intriga e encanta é poder “descobrir pessoas”, principalmente que nunca cheguei a conhecer pessoalmente. Como isso se dá? Quando leio uma biografia, quando admiro uma obra ou um legado, quando conheço alguém pelo outro. Porque uma pessoa nunca é só ela mesma, mas o somatório de aquelas que a acompanharam ao longo da vida.

Outro dia “descobri” Mimi, que foi ao mesmo tempo amiga, filha, mãe, esposa e alguém que amou profundamente a vida. Tinha a marca da alegria de viver. Tenho ouvido algumas histórias sobre ela, seu jeito carinhoso com os amigos, suas frases, suas promessas, seus pedidos a quem amava. Fez suas escolhas, enfrentou algumas incompreensões temporárias, estudou, mudou-se, conquistou seu grande amor e deixou um legado permanente de companheirismo.

Mimi me fez entender melhor o significado de companheiro (do latim companionem: com – “com” e panis – “pão”), etimologicamente, aquele com quem se divide o pão.

Quem muito amou Mimi sabe que foi necessária lomga convivencia, o dividir o pão com ela para captar a beleza da sua pessoa. Ali não pude estar. Mas quem esteve me partilha, e assim passo a admira-la.  Admiro-a pelo que dela brilha nas pessoas, o cheiro da sua doçura, a força de sua alegria. E isso me encoraja hoje, em novos tempos, lugares e descobertas.

Eh preciso descobrir o perdão: perdoar e ser perdoado. Descobrir a leveza. Descobrir que depois da tristeza vem a alegria. Que mesmo após doloroso luto, nasce vida nova. Descobrir que a vida , segundo Cecilia,  só é possível reinventada.

HBP, 03/10/2009

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3 Comentários em “Descobrir”

  1. Mario Says:

    Obrigado por essa homenagem tão linda!! A parte de Mimi que vive dentro do meu ser se sente honrada com suas palavras lindas e generosas que enchem os meus olhos com lagrimas de emoção.
    Nos só reconhecemos ou descobrimos nos outros os sentimentos e a beleza que ja existe dentro de nossos coracoes…elas estão latentes dentro de nossos coracoes como sementes esperando com que gotas de amor as façam germinar…tudo acontece ao seu tempo, as frutas de uma mesma arvore nao amadurecem todas ao mesmo tempo, nem todas as flores desabrocham ao mesmo tempo…as vezes as frutas e as flores temporãs sao as frutas mais doces, as flores mais perfumadas!!
    Todos aqueles que optaram por simplemente amar e a perdoar sem esperar ou pedir algo em troca trazem um pouco de Mimi dentro de seus coracoes. Esteja onde ela estiver agora, eu sei que ela tambem esta se sentindo honrada, agradecida e muito muito feliz com o seu descobrimento!
    Um grande beijo em sua alma, serei sempre grato por este gesto de amor, beleza e generosidade! Que Deus continue abencoando a sua vida!!


  2. perdoar e ser perdoado…. a vida é reinventada todos os dias… fora das palavras, a gente se redescobre. pueril, mas necessário. as muitas Mimis que passam por nossa vida nos dão a luz necessária….. para seguir, pois há um momento que a gente deve encarar de frente. o que tem que ser feito, seja como for… talvez eu nunca vivenciei tantas mudanças ao mesmo tempo. juntas. aqui. agora.

    e o engraçado é o reflexo que se dá ao olhar para elas e perceber que você vai continuar vivo. que vai seguir…

    depois da tristeza vem a alegria? sim, e outras descobertas virão, e outras tristezas chegarão, outras lágrimas, outros sorrisos…

    na mente, virão mil novas imagens. na memória recente, mil histórias. no coração, as magníficas impressões de se descobrir alguém que parece ter vivido conosco a vida inteira, desde o primeiro sempre.

    as bases preciosas de respeito, admiração, maturidade e vontade de querer um bem maior ao outro nos acompanha.

    “Amar é mudar a alma de casa”,
    é ter no outro, nosso pensamento.
    Amar é ter coração que abrasa,
    amar, é ter na vida um acalento.

    Amar é ter alegria que extravasa,
    amar é sentir-se no firmamento.
    “Amar é mudar a alma de casa”,
    é ter no outro, nosso pensamento.

    Amar, é aquilo que embasa,
    é ter comprometimento.
    Amar é, voar sem asa,
    e porque amar é acolhimento,
    * “amar é mudar a alma de casa”

    quem mais se não o velho Quintana ?!??

    Um beijo,

    AM

  3. silvia Says:

    Veja: sim..Mimi é nos dada a conhecer pelos olhos encantados do companheiro,mas quanta sensibilidade não é necessária para descobrir o outro!
    Parabéns ..continuo admirando seu estilo.
    Abraços e desculpe-me a invasão
    silvia


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