De mãos dadas

 

 

 

Nápolis, Italia, 1944 - Image by © CORBIS

Nápolis, Italia, 1944 - Image by © CORBIS

 

O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Carlos Drummond de Andrade

 

Ouvindo uma das obras musicais que mais aprecio, lembrei vagamente da história de amor que aconteceu em seus bastidores.

Johannes era um jovem compositor na Alemanha do século XIX que devotava amizade e admiração profundas  a outro pianista contemporâneo, Robert.  Robert, compositor já consagrado, recebeu-o em sua casa em Düsseldorf como amigo e pupilo genial, recomendando-o a seus editores.

Robert era casado há alguns anos com Clara, também excelente  intérprete e divulgadora das obras do marido.  Já havia nela um quê de Amélia :  muitas vezes abdicou  da própria carreira como compositora para promover a de Robert, cujas crises depressivas e o envolvimento com alcoolismo fizeram com que ela assumisse, gradativamente, as responsabilidades familiares.

Após uma trágica tentativa de suicídio e internação em um manicômio, Robert morre e Johannes descobre-se  dolorosamente apaixonado por Clara.  Não há registro oficial de que ele se declare em algum momento , mas, curiosamente, passa a dedicar-lhe grande parte de suas obras e peças. 

Estes são Brahms, Schumman e Clara  Schumman.  O Concerto é o Concerto para Piano nº 1 em Ré menor , op. 15 de Johannes Brahms (1833-1897). 

Os movimentos refletem a turbulência emocional pela qual o compositor passa: escrito durante o colapso mental de Robert,  é o  jovem desesperado e  dividido entre a fidelidade ao amigo e sua recém descoberta paixão por Clara.

Ele se mostra capaz de alternar a mais profunda escuridão com momentos de luminosidade, grande pesar e suave consolo. O segundo movimento, Adagio, é uma espécie de “retrato musical amoroso de Clara”, e ao mesmo tempo um quase-requiem pela iminente morte de Schumman.  Aí reside toda a beleza: não no amor irrealizado, mas em transformar a tragédia em um registro permanente de lirismo e esperança.

Clara e Brahms continuam amigos por mais 14 anos, mantendo a colaboração mútua na esfera profissional e na defesa da estética musical romântica.  Ela morre viúva, ele, solteiro, poucos meses depois.

Penso nos três, na opção que fizeram, sem julgar se foram as opções mais acertadas ou não.  Penso em algo maior, no amor que devotaram uns aos outros, na amizade genuína entre eles, no tipo de  fidelidade em que criam.

Certamente não é uma história de amor típica da nossa época.  Não é a moda.  Mas esse era o amor romântico irrealizado: o puro “Romantismo Histórico” do século em que viveram.

O que fica é essa capacidade infinita de amar, de se doar, seja à Música, seja à Vida.  De certa forma, os três caminharam de mãos dadas, viveram a plenitude do seu presente, e, por fim, deixaram a nós, homens e mulheres de qualquer tempo , um legado eterno.

 

Ouça e assista o início do Segundo Movimento (Adagio) do Concerto para Piano nº 1 em Ré menor , op. 15 de Johannes Brahms , na interpretação de  Arthur Rubinstein. 

Ouça e baixe a versão integral do Concerto para Piano nº 1 em Ré menor , op. 15 de Johannes Brahms, com Nelson Freire.

 

HBP, primavera 2009

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3 Comentários em “De mãos dadas”

  1. andre Says:

    pois é ….

    eis Nelson + Robert….
    pouca coisa supera isso….

    bjs, e parabéns pela história…

    AM

  2. Debbie Says:

    Muito especial este blog.

    Continue com esta inspiração!
    Linda história , linda música…!

    Um beijo,

    Debbie

  3. Mario Says:

    Que historia linda, parabens!!!! A musica tambem e’ verdadeiramente linda!! Como o verdadeiro amor tem a capacidade de se expressar apesar de qualquer circunstancia, mesmo o amor impossivel, o amor nao realizado, etc. Para o verdadeiro amor a sua existencia e’ a unica coisa que importa e desse amor lindo e infinito so coisas belas nascem. Obrigado por dividir essas historias de amor que tanto me ensina a viver e a amar melhor. Um grande beijo!!


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