Passarim (baseado em fatos verídicos)

Bem-Te-Vi

Passava o dia no quintal, esvoaçando e cantando entre as mangueiras. Bem- te-vi que se preza canta o tempo inteiro. Tinha uma coloração parda no dorso e amarela viva na barriga. No alto da cabecinha passava uma listra branca ,assim como na garganta; a cauda era toda preta.

Estava bem na mira do menino, a uns 60 graus do estilingue novo, recém feito com tiras de borracha e a forquilha amarrada ainda verde.

O menino vivia de ouvido no ar, imaginando ser um soldado a procura do inimigo, ou, vai saber, o próprio Sargento Vic Morrow da série da TV, pronto para abater seu primeiro troféu.

Aí o bem-te-vi cantou. Aquilo encheu o coração do menino, que sentia a batedeira na boca enquanto encaixava a pedrinha no couro do estilingue. A pedra saiu voando em direção ao alvo. O tiro foi certeiro… a pedra atingiu em cheio o peitinho amarelo do bicho! Mas, para surpresa do menino, o pássaro permaneceu imóvel, olhando fixamente para o caçador. A pedrinha simplesmente havia quicado nas penas e caído direto no chão, sem mesmo abalar o passarinho.

O menino, assombrado, percebeu que não havia medo no olhar do bem-te-vi. A principio teve até um pouquinho de culpa, mas aos poucos aquilo se transformou em um misto de alívio e gratidão.  Em seus 12 anos de idade, sentiu pela primeira vez uma reverência a vida e a celebração da liberdade. Descobriu que a face de Deus costuma aparecer nas pequenas coisas.  Aprendeu a cultivar esse sentimento.

Adulto, lembra da história e procura entender o que realmente aconteceu. O engenheiro agora pensa em explicações lógicas: haveria um galho à frente que não percebera? O projétil perdera a força vibrando no ar? Sua ansiedade de caçador foi que imaginou tudo isso?

Não. Tudo aconteceu exatamente assim: a pedra que nao feriu, o passarim olhando o menino espantado. O homem conclui que não tentará achar mais nenhuma explicação, so a certeza de que, naquele dia, um menino cresceu rápido para se tornar homem de bem.

Helena Beatriz Pacitti, primavera de 2009

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8 Comentários em “Passarim (baseado em fatos verídicos)”


  1. .

    Linda Naná Beatriz. Lindo conto. Prosa poética? Não sei. A impressão foi bonita, simples. Reverência à vida. Que eu ataque menos pedras no meu pobre cotidiano.

    Saudades e minhas pobres preces,

    B.

    .

  2. mecenas salles Says:

    Helena, lindo texto. As crianças realmente nem imaginam que nos pequeninos passaros existe vida, sentimento e a presença de Deus.
    Eu quando era menino, certa vez na fazenda de um colega, dei um tiro com uma espingarda de cartucho e matei 4 anuns brancos de uma só vez. No momento nada sentí, mas o fato de me lembrar sempre disto, mostra que um complexo de culpa ficou marcado em mim. Nunca mais matei ou deixei matar nenhum passarinho na vida.
    Lindo texto. Parabens.

  3. Mario Says:

    Voce consegue transformar uma historia, quase um conto, em uma licao de vida e de amor! Parabens pela sua sensibilidade e beleza!!
    Deus se expressa para nos a cada momento e nao so em coisas pequenas e inexplicaveis como a que aconteceu com o menino da historia. Ele se expressa na esperanca do nascer de um novo dia, no sorriso dos pais diante do nascimento de um filho lindo e sadio, na caridade com aqueles que menos tem, etc. E nao e’ a vida em si mesmo um grande milagre, a maior expressao de Deus?
    Talvez esses pequenos acontecimentos inexplicaveis sejam mais um presente de Deus para aqueles que ja acreditam nele. Eu tenho a certeza que hoje Deus continua a presentear esse homem-menino com presentes ainda mais lindos, simplesmente por ele acreditar. Beijos.


  4. “Fui ver o mar. Gosto do mar quando a praia está vazia da perturbação humana, Nas tardes, de manhã cedo. A areia lisa, as ondas que quebram sem parar, a espuma, o horizonte sem fim. Que grande mistério é o mar!… Prefiro o mistério do mar…”

    Um menino-homem, sempre!

    Bonita história, bonita.

  5. denise Says:

    Seu blog é lindo, suave, doce, amoroso e ecalentador. Fala de Deus da forma que mais acalenta minha alma. Envolvido nas pequeninas coisas da vida. O verdadeiro milagre, a meu ver.
    Não preciso dizer que no teu blog vejo você!

    Por isso te deixo os versos de umas das minhas poetisas queridas.

    Poema de Emily Dickinson

    “Alguns guardam o Domingo indo à Igreja

    Eu o guardo ficando em casa

    Tendo um Sabiá como cantor

    E um Pomar por Santuário.

    Alguns guardam o Domingo em vestes brancas

    Mas eu só uso minhas Asas

    E ao invés do repicar dos sinos na Igreja

    Nosso pássaro canta na palmeira.

    É Deus que está pregando, pregador admirável

    E o seu sermão é sempre curto.

    Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final

    Eu o encontro o tempo todo no quintal.“

    ****************


  6. Denise, muito bonito o poema de Emily…..
    a partezinha final, que bonita!!!!

    Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final

    Eu o encontro o tempo todo no quintal.“

    me fez lembrar uma antiga frase…. “I AM BUILDING HEAVEN AND WILL CALL IT HOME”…

    Bj,

    Andre

  7. denise Says:

    Andre,
    Grata pela gentileza do comentário!
    E pelas considerações.
    Sim, todo gracioso o poema mas o finalzinho é
    por demais considerável!
    abração.
    denise

  8. andremartins Says:

    Denise, obrigado você por ter postado tão belo poema e por ter respondido o comentário!

    Grande abraço para ti,

    Andre


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