Para que servem folhas secas

Outono em Lansing - Foto de Mario Fusco

Outono em Lansing – Foto de Mario Fusco

República Centro-Africana, década de 60.

Um jovem casal suiço foi enviado como missionário para uma nação recém independente. Um país sem litoral, rodeado de conflitos, exageradamente quente e apinhado de aldeias com costumes primitivos e ausencia de qualquer modernidade.

La chegando, instalaram-se em uma casa que pertencera a outra familia, agora em viagem pelo mundo. As casas de aldeia sao sempre simples e rústicas, paredes claras e sem acabamento. O chão eventualmente é de terra batida feito argila especial, e alguns cômodos podem ter um pouco mais de refinamento, com o chão de cimento alisado.

Em meio a tanta simplicidade, o casal descobriu um capricho deixado pelo morador anterior.  Notaram que o chão da sala e quarto possuía um desenho especial, que tentaram reproduzir na construção de um próximo cômodo.

A cobertura de cimento, após ser alisada sobre a terra, corria o risco de rachar devido ao forte calor da casa. Os nativos tlhes ensinaram um recurso criativo para aprimorar a secagem do piso e impedir fissuras e outras imperfeicoes: era cobrir tudo com as folhas secas recolhidas nos quintais, centenas delas, caídas das mangueiras. Essas folhas faziam uma especie de capa protetora que retinha parcialmente a umidade, permitindo uma secagem mais vagarosa e eficaz.

A surpresa foi que, ao retirarem as folhas após os dias da secagem, o cimento ficou impregnado com os contornos gerados pelo pigmento, como se fosse tatuagem. E eram centenas delas, feito um carpete amarelo esverdeado, cobrindo o chão com  incomparável e surpreendente beleza.

Ouvi esse relato há anos de Pierre e Lily Waridel, amigos de longa data. Se não me engano, ele chegava a suspirar quando dizia que aquele “piso de folhas” era um dos mais bonitos que possuíra em todas as casas e países nos quais morara ao longo da vida. Era o tipo de beleza que surgia do inesperado. A marca deixada por algo que aparentemente não tem mais valor, utilidade ou sinal de vida: folhas secas.

Infiro e aprendo que nem sempre aquilo que se resolve com muita rapidez é o melhor. Por vezes, é necessário um certo tardar, um certo esperar, um certo aquietar, uma porção de folhas secas sem utilidade. Nada de afobação.

A ansiedade e a pressa racham nossa alma, que precisa ser cicatrizada com tempo e delicadeza. Mais horas de sono, de ócio, de abraços sem utilidade, de risadas, de sonhos. Mais banhos demorados, caminhadas inventadas, menos vidros fechados às pressas nos sinais, menos olhares perdidos, menos empáfia, menos etiqueta nas roupas, menos grife.

Quem tem calma sonha mais, e quem sonha não pode ter pressa, porque, para ‘acordar-se pra dentro’, como dizia Quintana, é preciso usar as muitas folhas secas que esse dia nos deixou.

                             Helena Beatriz Pacitti  – 04/11/2009

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3 Comentários em “Para que servem folhas secas”

  1. Mario Says:

    Parabens por mais um lindo texto! Quantas licoes!! E’ mesmo incrivel como beleza da vida esta tambem nas surpresas boas que ela nos da como o encantamento com as involuntarias tatuagens deixadas pelas folhas secas no piso de cimento ou no descobrimento de um novo amor. Quanta sabedoria e sensibilidade do Sr. Pierre Waridel em reconhecer essa “beleza surgida do inesperado” como um dos mais belos pisos de todas as casas em que morou. Como as folhas secas, as suas palavras deixam para sempre estampada no meu coracao a beleza incomparavel do seu ser e da sua alma! E ao mesmo tempo a sua delicadeza e amor cicatrizam as rachaduras de minha alma. Obrigado!! Beijos.

  2. Eduardo Azevedo Says:

    Inspires and touches deeply. Thank you very much, again. ea

  3. denise Says:

    Helena,

    Tudo lindo, como sempre!

    Aqui, no entanto, vi como num espelho:

    “Por vezes, é necessário um certo tardar, um certo esperar, um certo aquietar, uma porção de folhas secas sem utilidade. Sem desvarios, sem afobação.

    Às vezes a ansiedade e a pressa racham aos poucos a nossa alma, que precisa ser cicatrizada com delicadeza e amor. Mais horas de sono, de ócio, de abraços sem utilidade, de risadas, de sonhos. Mais banhos demorados, caminhadas inventadas, menos vidros fechados às pressas nos sinais, menos olhares perdidos, menos empáfia, menos etiqueta nas roupas, menos grife.

    Quem sonha não pode ter pressa, porque, para ‘acordar-se pra dentro’, como dizia Quintana, é preciso usar as muitas folhas secas que esse dia nos deixou.”

    Minha visita, aqui e hoje, esta sendo muitíssimo acalentora!

    “Menos olhares perdidos”

    Sua alma é um mar de doçura e encantamento!
    E minha alma nesse mar se esbanja!!!

    beijos


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