A viagem da flor

Toda semana ela passava na floricultura e pedia para levar uma rosa. Preferia de cor champanhe ou vermelha. Ou cor de rosa. Ou a que tivesse as pétalas mais perfeitas, a do botão mais fechado, ou a mais cheirosa.

Dali em diante a flor viajaria algumas dezenas de quilômetros. O destino era um daqueles esguios vasos solitários e enfeitar a mesa do consultório. O local era distante, árido, e a clientela pouco usual.

Era um centro de emergências médicas dentro de uma área de risco, longe da região urbana, longe de tudo, à beira da rodovia. Um local propositadamente isolado e sem atrativos. Um local onde se trabalhava arduamente. Onde centenas  – às vezes milhares –  de homens  laboravam como montadores de andaimes, soldadores, pedreiros, ajudantes, eletricistas, motoristas, encanadores. Homens que involuntariamente se tornavam brutos pelo excesso de sol, de chuva, das roupas pesadas, pelo excesso de equipamentos de segurança, pela distância das famílias. Mas precisavam estar lá.

Por isso, só uma flor era necessária. Renovada de dois em dois dias, a flor era um dos poucos elementos coloridos naquele mundo de terra e poeira. Era para ser um alento.

Um  homem vinha machucado da área, tinha batido com a marreta nas mãos, por exemplo. Enquanto era atendido pela equipe médica, observava encantado aquela flor tão delicada, mas tão delicada, que achava que fosse de seda, tão perfeita e macia que era.Disfarçadamente, aproximava-se e tentava cheirar. Descobria – ‘ e não é que é mesmo?’ –  que era flor de verdade. Enquanto isso  a lesão era limpa, o corte suturado, o curativo feito.

Outros eram trazidos pela ambulância com alguma espécie de mal súbito: ‘dor no peito’, ‘pedra nos rins’, ‘pressão alta’.  Enquanto esperavam o efeito da medicação  ou a prescrição médica, olhavam o teto, as janelas, as paredes brancas. Até que descobriam a flor. Alguns comentavam, lembrando do jardim que deixaram em Minas, das famílias, esposas, namoradas, até de gente que já tinha partido. Os mais poéticos ensaiavam versos, contavam que sabiam os mistérios da jardinagem, confessavam que homem também gosta de flor.

Por alguns instantes se esqueciam de onde estavam, do capacete, do sol e dos calos das mãos.  Eram somente homens saudosos ou subitamente apaixonados por quem tinham deixado lá fora. Aprendizes da delicadeza e da contemplação, homens finos e sensíveis. Pelo menos por alguns instantes.

Então dois dias se passavam e uma nova flor precisava ser trazida. Lá de novo na floricultura, o mesmo zelo e rigor em escolher a mais bela do dia. A flor que iria fazer a viagem.

Desta vez o vendedor não resistiu e perguntou porque somente uma flor era escolhida e levada. Não mais que uma. Às vezes duas. Porque ‘ a cliente vinha de dois em dois dias, e não levava logo um buquê? ‘  Ela explicou sobre o esguio vaso solitário, a mesa, o consultório, os capacetes, o sol, a saudade dos homens brutos. Ela contou como a flor possuía a mágica de trazer à tona o melhor de cada um. A flor se tornara tão necessária naquele lugar, e por isso precisava ser a mais linda, a mais perfeita e a mais cheirosa.

O vendedor se comoveu. Contou que por muitos anos havia sido pedreiro, operário, homem invisível, daqueles que ninguém repara nem cumprimenta na rua. Que nunca ninguém tinha trazido uma flor para ele. Uma lagrima apareceu em seus olhos. Voltou e fez novo embrulho, desta vez com muitas flores, todas bonitas, perfeitas e cheirosas; estendendo o buquê, disse que ‘era um presente dele’ para a cliente.

O que ele não disse –  mas quis dizer – é que as flores não eram só para a cliente, mas também para os homens. Quem sabe para si mesmo?  Ele entendeu que a  flor era mais que enfeite, era missão; mais que perfume, era memória, analgésico e cura.

Ele entendeu tudo e se sentiu cheio de dignidade e honra. Despediu-se da cliente e das flores, agora prontas para a viagem.

Helena Beatriz Pacitti, 10/11/2009

 

Explore posts in the same categories: Uncategorized

11 Comentários em “A viagem da flor”

  1. Mario Says:

    Que historia linda, uma licao de vida!! Quanta sensibilidade, amor e preocupacao nao so’ com o bem estar fisico de seus pacientes mas tambem com o estado de suas almas. Essas pessoas que as vezes tao enganosamente nos pensamos que foram endurecidas pela vida ardua, pelo trabalho pesado tambem guardam o amor dentro de seus coracoes. Talvez essas pessoas apenas se escondam atraz da pele curtida pelo o sol e vento e de todas essas roupas pesadas e desses equipamentos de seguranca, talvez como uma especie de defesa pela maneira que sao tratados, ou mesmo pela maneira que nao sao tratados pois afinal eles pertencem a grande legiao dos invisiveis. Mas basta um ato de carinho, de amor e humanidade para que a casca que envolve os seus coracoes se quebre para que um lindo sentimento se aflore! Atraves do gesto humano dessa medica esse vendedor de flores se sentiu abencoado e de alguma forma mistica ele resgatou a dignidade de seu passado. Que Deus abencoe essa medica por tratar todas as pessoas com a mesma dignidade nao se importando de que raca els sao ou de qual classe social elas pertencam . Obrigado por ser essa luz maravilhosa na minha vida! Beijos!

  2. Eduardo Azevedo Says:

    Fato ou ficção, o texto é muito bonito. O fato de ser verídico faz voce querer conhecer essas duas almas abençoadas.


  3. Helena,
    Bonita e cativante crônica.
    Impossível não lembrar de uma passagem do eterno aviador francês:

    “Os homens cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa.”

    Antoine de Saint-Exupéry

    Parabéns!

  4. denise Says:

    Helena,

    Sua dulcíssima médica honra Madre Tereza de Calcutá e sua tão doce e virtuosa
    existência, aqui fragmentada em suas palavras:

    “Não devemos permitir que alguém saia de nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz. ”

    Fiz dessa citação um estilo de ser. E tento vivê-la todos dias.

    Seu texto está adorável!!! Sempre nos conduzindo a um reflexão.
    Parabéns!
    Fico comovida com sua suavidade. E tento retê-la o mais que posso em mim.
    beijo


  5. Fiquei com a idéia da única flor e me inspirei a comprar hoje uma simples rosa para minha nova sala.

    Resultado? todos que ali adentraram notaram e comentaram, algo que confesso, me surpreendeu.

    O mais interessante foi ter uma borboleta rodopiando a rosa no meio da tarde. Ao ver a tão apressada borboleta zanzando por lá, recordei de um velho ditado budista que gosto muito:

    “o siléncio é uma prece”.

    Poucas coisas são tão singelas como uma flor solitária. E uma flor solitária não deixa de ser uma prece em silêncio.

    E o melhor, para quem vê a flor e medita, algo sempre diferente se remonta na mente. Sejam cristãos, mulçumanos, hindus ou ateus. Para cada um, a imagem da flor acaba sendo inspiradora na sua própria natureza.

    Tal situação me faz pensar que tanta efusividade e eloqüência muitas vezes não dizem nem uma infinita parte de algo simples e singelo como o pequenininho vaso e uma flor.

    Uma bela lição aprendida.

    Um abraço.


  6. De nada. Navegar é preciso. E compartilhar faz mais que um bem danado.

    Bj

  7. Renata Says:

    Que coisa bonita… Rara.
    Tocante mesmo!
    A delicadeza da rosa misturada à sensibilidade da médica e me remeteu às palavras do apóstolo Paulo na carta aos Romanos quando ele diz que “Deus chama à existência coisas que não existem, como se existissem.”.
    Fabuloso!

  8. denise Says:

    Helena,

    muito grata por suas palavras, que são como gravetinhos mantendo minha chama acessa.
    Sabe o que acho lindo aqui também?
    A riqueza dos comentários.
    Amo ler comentários. Como os daqui, é claro.
    E gosto de gente que gosta de ‘agasalhar’ , ‘cuidar’ da alma.
    ‘Alma’ pra mim é tudo!
    Esse emaranhado de sentimentos, emoções e sentidos, aqui dentro pulsando.
    Gosto disso. Dessa intensidade!

    Aqui, o que não falta é alma!
    um beijo

  9. denise Says:

    André,

    amei seu comentário!
    Bacana isso de você ter sido tão tocado pelo texto que decidiu embarcar nele, fazendo essa viagem tão linda! Levando outros a fazerem, talvez, suas próprias viagens e descobertas.

    Parabéns pelo despreendimento de alma.
    um abração!

  10. denise Says:

    Helena querida,

    hoje quando se comemora o “dia do médico” lembrei-me do seu texto belo, sensível e suave, assim como vc, e resolvi vir aqui te deixar um beijo carinhoso por esse também seu dia!
    Paracelso diz, entre tantas, que “a compaixão é o mestre-escola do médico” e “onde não existe amor não haverá arte”, e seu doce texto traduz com tamanha intensidade essas palavras aqui contidas.
    Parabéns!
    bjs
    denise


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: