Medos e dragões

Para quem não se lembra, dragões ou dragos (do grego drákon, i.e., ‘grande serpente’) são criaturas presentes na mitologia de diversos povos e civilizações, representados como animais de grandes dimensões, semelhantes a imensos lagartos ou serpentes com asas, plumas, poderes mágicos ou hálito de fogo.

A variedade de dragões existentes em histórias é enorme e presente no folclore de povos tão distantes como chineses ou europeus. Assim, em cada cultura os dragões assumem função e simbologia diferentes, podendo ser fontes sobrenaturais de sabedoria e força, ou simplesmente feras destruidoras. ‘

Sofia, ainda muito pequena, talvez em torno de 3 ou 4 anos de idade, adorava desenhar dragões. Eram vermelhos, cinzentos, amarelos ou coloridos. Às vezes sorridentes, às vezes assustadores. Em paisagens com sóis e luas, nuvens e montanhas, ou apenas sobrevoando cidades, ou ainda escondidos atrás dos castelos. Papéis cheios de figuras reptilianas se multiplicavam espalhados pela casa e encaminhados como “presentes” aos tios, avós e amiguinhos.

Vovó não se conformava. Por que a netinha de bochechas rosadas e cabelos encaracolados simplesmente não desenhava princesas e florzinhas como qualquer garota de 4 anos? Teria sofrido alguma espécie de influência subliminar? Deveria ser encaminhada ao psicólogo? Vovó achava tudo isso muito estranho e não resistiu: perguntou  a desenhista o porquê de tantos dragões.

Com o sorriso mais tranquilizador do mundo,Sofia respondeu:

 – Vovó, eu desenho dragões para não sonhar com eles. Assim eles não conseguem entrar nos meus sonhos!  

Pensei e ainda penso naquela resposta. Sofia decidiu enfrentar os dragoes desenhando-os, pintando-os, levando-os para as mais diferentes paisagens e situações. Mudava as expressões dos monstros da forma que quisesse. Colocava e tirava suas asas, soltava-os e também os prendia, aumentava e diminuía seus tamanhos.

Aprendeu a domá-los, monstros e répteis, até transformá-los em figuras inofensivas. Tornou-os tão familiares e caricaturescos que haviam perdido seu poder de amedrontar. Nem podiam entrar em seus sonhos.

Não se trata de receita ou fórmula mágica. Angústias e apreensões fazem parte da nossa existência e humanidade. Assim como  os velhos receios se dissolvem, novos aparecerão na juventude, na maturidade e na velhice.

A questão é o que vamos fazer com esses medos e dragões .Vamos encará-los ou permanecer submersos em pesadelos. Talvez precisemos brincar mais com nossos receios e monstros. Talvez gastemos muito papel, canetas, conversas e tempo para redesenhá-los.Vamos renomeá-los, tirar suas asas e seus hálitos de fogo.

Nem se trata de coragem. Precisamos deixar o orgulho de lado, feito criança pequena, e começar a partilhar alguns segredos e receios aos amigos e pessoas que nos amam de verdade. Porque o amor – o amor genuíno  – embora não seja varinha de condão, tem o poder sobrenatural de dissolver o medo.

Experimente.

 

                              Helena Beatriz Pacitti, 18/11/2009 

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4 Comentários em “Medos e dragões”

  1. Mario Says:

    As vezes nos precisamos reaprender a ver o mundo com a simplicidade das criancas e reaprender com a sabedoria delas. Muitas vezes eu me pergunto como e’ que a vida nos ensina tanto e ao mesmo tempo como nos conseguimos desaprender tanto? Obrigado pela licao sobre o amor:”…o amor genuino- nao e’ uma varinha de condao, mas tem o poder sobrenatural de dissolver o medo.” Acho que de agora em diante eu nao vou mais ter medo de enfrentar meus medos e ansiedades e quando enfrenta-los eu saberei dissolve-los com esse sentimento divino chamado amor! Que Deus continue iluminando a sua alma linda e a alma linda de Sofia tambem! Beijos!

  2. denise Says:

    Helena,

    seu texto é todo encantador!

    Sofia na ingenuidade dos seus 3 ou 4 aninhos descomplicou a vida que nos adultos sabemos tão bem complicar. Somos mestres nisso! Talvez porque (pegando carona no seu pensamento) nossa maior dificuldade reside não na nossa falta de coragem. Mas no excesso de orgulho, e medo, que asfixia a naturalidade de ser e viver.
    Nosso orgulho é como o mau colesterol impedindo o sangue (a vida) de fluir livre e docemente no coração, o dos sentidos. O que nos impele para a vida.

    Penso que devíamos acordar a ‘Sofia’ que mora em nós. Deixar a ingenuidade, a candura da nossa criança dialogar, sem medo, assiduamente com o adulto cético ( e por vezes tão inacessível) que em nós reside.
    Assim ajudando-o no encontro diário com a felidade.

    (Já pensou como nos infelicitamos?)

    Sofia com sua ingenuidade, você como sua sensibilidade e arte, nos presenteia com olhares diferenciados. Novas paisagens! Mais luz e cores para o olhar, da alma.
    Delícia de se ler, numa véspera de feriado com tempo para levar e brincar com a doçura de Sofia.

    “Nem se trata de coragem. Precisamos deixar o orgulho de lado, feito criança pequena, e começar a partilhar alguns segredos e receios aos amigos e pessoas que nos amam de verdade. Porque o amor – o amor genuíno – embora não seja varinha de condão, tem o poder sobrenatural de dissolver o medo.”

    maravilha!

    beijo


  3. Eu devia ter uns 5 ou 6 anos. Eu tinha muito medo do escuro e dos trovões, era algo assustador para mim. Meus pais tinham me dado um livro infantil sobre mitologia grega, algo como uma Paidéia em quadrinhos. Quem lia para mim, mostrando os desenhos era Vilma, que até hoje acompanha minha mãe. E lá aparecia a história de Zeus, quando ficava zangado com os humanos, jogava trovões e raios que eram dispersados pelo martelo de Thor. Aquilo me fascinava, e este foi o meu primeiro medo enfrentado que eu tenho memória. Eu recordo que ficava acordado, e quando ouvia trovões, eu pensava em como Thor devia bater o seu martelo mágico espalhando os raios do famigerado Zeus.

    Aos 9 anos, um novo dragão. Meu avô materno, Antônio, faleceu. Apesar do pouco tempo de convívio, ele foi o mais perto de mim de todos. Eu fui seu primeiro neto, e nós tínhamos uma conexão muito, muito especial. Ele faleceu aos poucos, com Parkinson, e nos últimos meses eu já não o via mais. Foi a primeira vez que eu fui a um velório, após muito insistir com minha mãe, que no começo não queria me levar. Foi impactante, fiquei vários meses sonhando com a imagem de meu avô ali, sozinho, frio, triste. Eu somente compareci a outro velório com 28 anos.

    Com 14 anos, eu era um dos piores jogadores de basquete do Colégio Rio Branco. Eu era bom nos esportes individuais, tênis, judô, natação e até mesmo xadrez. Mas eu amava (e ainda amo) basquete. Eu sentia vergonha de jogar e treinar basquete. Sentia medo. O dragão me enfrentava de frente, pois o Rio Branco sempre teve bons jogadores. E para completar, o velho Miranda, professor de educação física, era 100% fascinado pelo basquete. Não havia nada mais, era ginástica e basquete o ano inteiro. Eu decidi que ia participar dos jogos escolares daquele ano. E comecei a treinar sozinho, depois das aulas, todos os dias. O Miranda olhava para mim e sorria pelo canto da boca. Depois de uma semana, ele olhou, olhou, mas não disse nada. Cerca de 1 mês depois, ele perguntou o que eu pretendia com aquilo. Eu disse: “entrar no time oficial para os Jogos”. Ele sorriu, e nada disse. Eu continuei, agora com um amigo que me ajudava nas cestas, arremessos parados e passes. Quando houve a pré-seleção, eu fui o último aluno escolhido. Mas para mim era uma vitória. Eu entrei na pré, e treinei como um condenado. Eu não era bom tecnicamente como os outros, muitos já federados. Mas eu era um bom armador. Mesmo sem saber, Miranda deixou eu jogar nas preliminares. No primeiro jogo, eu estourei em faltas cometidas em menos de 12 minutos. Ele ficou irritadíssimo. No segundo, estourei em cerca de 20 minutos. No terceiro, cheguei quase no fim. Depois do chuveiro, o velho Miranda me deu um tapa nas costas e disse somente: “bom jogo, garoto”. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Resumindo: joguei quase todos os jogos mais da metade e cerca de 14 minutos na final, e o Rio Branco foi campeão em cima do arqui-rival São José.

    22 anos. Um sonho recorrente desde os 19 anos. Era um sonho que eu me apegava aos meus pais, e não viveria se eles fossem embora. E em uma época onde a minha rebeldia estava no estágio máximo, questionando tudo e todos por fora, mas por dentro com esta sensação de apego. Era um dragão sutil, que não se mostrava claramente. Eu estava insatisfeito, e queria mudanças. Aos 23 anos, resolvi inverter o jogo. Fui embora do Brasil, sozinho, e fiquei 3 anos no exterior. Senti muito medo, mas foi uma das melhores coisas que fiz. Voltei outro, amadurecido e mais consciente.

    Algum tempo atrás, com 30 e poucos anos, conheci o grande amor da minha vida. Foi instantâneo. Foi mágico. A melhor relação que já tive. Mas por dentro, a velha e teimosa idéia do medo de um dia perdê-la.Um dragão teimoso, persistente e recorrente. O medo de ficar sozinho. De andar por si só. Com trinta e um pouco mais que poucos, ela se foi. Por inúmeras razões, ela se foi. Disse adeus, deixando somente a lembrança. E deixou um vazio e um silêncio. A vida, que é sábia, me deixou assim, livre, mas só, por minha própria opção. E eu entendo que é para encarar o que é o maior de todos os dragões que até agora apareceram na minha frente. E com este dragão não há varinha de condão que dê conta. Há de se buscar uma espada, algo que traga Excalibur e Isildur juntas, fortificadas. Encarar as culpas do passado, os erros, as falas e as atitudes. Tempo de amadurecer. De encarar.

    Como diz a velha canção de Tom Petty,
    “it´s wake up time
    time to open up your eyes,
    and raise,
    and shine”

    Vivêssemos na idade média, e alguns se esconderiam nos becos escuros, outros bajulariam os reis e princesas. Uns deixariam de lado a essência do ser humano, enquanto milhares seriam histéricos somente porque a grande maioria assim o é. Só que alguns poucos lutariam, defendendo a honra de suas famílias, suas mulheres e crianças. Por trás da idade média moderna, os dragões se escondem em monitores de LCD, internet banda larga, frases e poesias copiadas do Google e fotos de bits e bytes manipuladas à exaustão. Escondem-se em perfis, em frases e distância. Mas estão cada vez mais no cerne, dentro de nós.

    É preciso coragem para enfrentá-los. E coragem para vencê-los. Com sinceridade e amor.

    O passado não volta, espatifou-se nas esquinas do mundo. O futuro não existe, é incontrolável. Por isso que o hoje se chama presente. É uma dádiva. É o único pedaço de vida que temos nas mãos.

    Que a viagem continue então. Outros medos virão. Outros monstros serão vencidos. Mas com coragem. Com honra. Com verdade.

    Um grande abraço,
    AM

  4. denise Says:

    Helena,
    Não há o que agradecer. Ainda assim, gosto muito desse seu carinho de falar conosco. É muito bom. Por isso gosto de voltar para retribuir o carinho.
    Alegria e comunhão. Muito bem falado.
    Parabéns a todos os comentários aqui postados. Sempre com toque de alma.
    beijo


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