Quando o que deve libertar nos aprisiona

 

Quem vive no medo precisa um mundo pequeno , um mundo que pode controlar.
Kindzu, personagem de Mia Couto

 

Existe um fenômeno religioso, chamado pelos antropólogos de “Culto a Carga”, que surgiu em  sociedades primitivas quando estas entravam em contato repentino com uma civilização avançada e industrializada.

Nestas sociedades tribais os nativos observavam os grupos industrializados guardando material de encomendas ou cargas (como por exemplo grupos militares recebendo suprimentos por barcos e aviões) e, não compreendendo sua origem, atribuiam-nas a causas sobrenaturais. Daí o “Culto a Carga”.

É curiosíssimo que alguns grupos chegavam a imitar, ritualisticamente, a forma de andar e vestir dos grupos industrializados, na esperança de receber também a “carga” destas entidades sobrenaturais.

Há registros de tribos que abriram clareiras na selva imitando aeroportos e construindo rádios, fones de ouvido e inclusive falsos aviões de madeira que serviriam como isca para chamar supostas entidades sobrenaturais. Outras fabricavam uma espécie de talismã imitando rifles, feitos na realidade de madeira, com o requinte da inscrição “USA”.

Esse fenômeno já foi observado diversas vezes isoladamente. O primeiro caso que se tem registro foi o movimento “Tuka” nas ilhas Fiji em 1885, mas outros casos ocorreram periodicamente nas ilhas da Oceania.

No contato de índios norte americanos e a população americana de origem européia há o registro de um profeta paiute chamado Wovoka, que pregava que os ancestrais voltariam como ferrovias e uma nova terra cobriria os homens brancos. Índios amazonenses esculpiram fitas- cassete em madeira, com as quais fariam contato com espíritos.

Durante a Segunda Guerra, vários casos ocorreram quando nativos tiveram contato com os exércitos dos dois lados, ao encontrarem equipamentos jogados de pára-quedas para equipes no solo. O Culto a John Frum ainda existe até hoje na ilha Tanna, Vanuatu.

Esse tipo de crendice pode soar um tanto risível, mas não é incomum que pessoas e grupos passem em determinado momento a cultivar alguma espécie de pensamento mágico.

Na psicologia e ciência cognitiva, o pensamento mágico é um raciocínio causal não-científico, como por exemplo as superstições. James Frazer e Malinowski disseram que as sociedades com crenças mágicas freqüentemente têm crenças e práticas religiosas em separado, e que, paradoxalmente, a magia assemelha-se eventualmente mais à ciência do que à religião. A magia preocupa-se com relações causais da mesma forma que a ciência, mas não distingue a correlação da causalidade. Por exemplo, alguém pode acreditar que uma camisa dá sorte se ganhou um torneio esportivo quando a vestiu. A pessoa continuará usando a mesma camisa e, embora ganhe algumas e perca outras competições, continuará a creditar suas vitórias à “camisa da sorte”.

Então me pergunto: em que momento a religião, o misticismo e mesmo a ciência começam a aprisionar ao invés de libertar? Em que momento as idéias que elegemos como crenças e convicções criam grades e nos encerram em gaiolas de medo, ao invés de nos fazerem voar?

Tenho para mim que quando a religião aprisiona, não tenho religião. Também não acredito piamente na ‘ciência pura’ , mesmo após 20 anos praticando a Medicina, ciência aplicada. Não acredito em fadas e duendes, não acredito em Darwin ou no moderníssimo  Richard Dawnkins como ditadores de verdades absolutas. FreudLacan, KantCioran me encantam, mas não me convencem.

Tampouco prego o humanismo secular, o racionalismo ou naturalismo. Não tenho a intenção de fazer apologética de crenças – ou da falta delas – para aliviar tensões mentais.

Acredito em questionamentos honestos e saudáveis. Acredito em proposições que nos tirem do comodismo e das respostas prontas e enlatadas. Respeito com sinceridade a consciência da individualidade de cada pessoa. Simpatizo profundamente com quem me diz: “Não sei, ainda não sei.”

Minha intenção talvez seja uma leve provocação, um grãozinho de areia na sola do sapato das nossas ‘profissões de fé’. Como dizia, muito marotamente, aquele chatíssimo e esperto professor de Fisiologia dos tempos da Faculdade: “O que você acha mesmo?”

HBP, 31/01/2010

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4 Comentários em “Quando o que deve libertar nos aprisiona”

  1. mecenas Says:

    Tiz, muito interessante o texto. Ví um filme, faz tempo de um culto a uma garrafa de coca-cola, que cai de um avião e um nativo da Australia leva até o fim do mundo.
    Ví também fotos de tribos que adoram o avião.
    Muito legal seu post.
    bjos

  2. denise Says:

    Helena,
    vc está espetacular!
    Esse texto é tudo de bom. Nem posso considerar nada mais pois sua composição está clara, precisa, sensível e doce como sempre.
    Amei tudo mas esse finalzinho está exuberante demais!

    “Tenho para mim que quando a religião aprisiona, não tenho religião. Também não acredito piamente na ‘ciência pura’ , mesmo após 20 anos praticando a Medicina, ciência aplicada. Não acredito em fadas e duendes, não acredito em Darwin ou no moderníssimo Richard Dawnkins como ditadores de verdades absolutas. Freud, Lacan, Kant e Cioran me encantam, mas não me convencem.

    Tampouco prego o humanismo secular, o racionalismo ou naturalismo. Não tenho a intenção de fazer apologética de crenças – ou da falta delas – para aliviar tensões mentais.

    Acredito em questionamentos honestos e saudáveis. Acredito em proposições que nos tirem do comodismo e das respostas prontas e enlatadas. Respeito com sinceridade a consciência da individualidade de cada pessoa. Simpatizo profundamente com quem me diz: “Não sei, ainda não sei.”

    Aqui vc é quem me encantou!
    beijão

  3. camilo Says:

    Caramba! que texto gostoso de ler…Parabéns!

    Então, esse tipo de fé produzido em larga escala nas catedrais macedina e afiliados não passa do tempo da infancia da consciencia!

    Abrço


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