Conjugo verbos

 

 É urgente elevar a pessoa à posição do espanto. É daí que se abre o mundo. Qualquer coisa possui em si o mistério de tudo e a nossa distância vai daqui para ali, e volta. Há uma frase por escrever da qual esqueci as palavras e a gramática. Uma frase que junte coisas separadas, as nuvens e as suas sombras, animais fabulosos a sensíveis plantas, breves recados a fatais desenlaces. Uma frase é um laço apertado por um verbo. Eu conjugo verbos como quem se encontra diante de um precipício.  

Pedro Paixão, escritor português

Corto maracujás e coloco o conteúdo em uma vasilha funda. O cheiro doce e intenso se espalha no ar. Depois lavo, descasco e pico o legume alaranjado, imaginando as espécies de vitaminas coloridas que dele fluem.

Também fatio pimentões, cebolas e berinjelas. Vao para a assadeira, cobertos de azeite e assados mornamente ao forno. Tudo isso vai virar vida em pouco tempo, alimentando sonhos de uma família inteira. A água das vasilhas que respinga alegremente em meu rosto lembra como é bom estar viva nessa manhã fresca e iluminada. Os sons da vizinhança misturam-se suavemente aos ruídos da casa e da música que vem do radio, compondo uma sinfonia doméstica nada ortodoxa.

Há tanta poesia e graça em meio a esses pequenos afazeres e me pergunto: porque demorei anos a descobrir estas delicadezas?

Hoje penso que cada pequeno gesto se revertera em vida. Por amar a vida é que fazemos o banal transformar-se em dádiva. Por amar a vida geramos filhos, pequenos verbos de Deus. Por amar a vida é que escolhemos coser pacientemente os  fios de rotina e fragilidade, e quando menos esperamos a tessitura multicor torna-se forte e bem trançada.

Por amar a vida, conjugo falar, andar, correr, acordar, cansar, beber e comer. Por amar a vida eu discordo, afago, temo, sorrio e choro. Por amar a vida vou ainda conhecer e desconhecer; errarei, revelarei, perdoarei, reconhecerei e me penitenciarei. Por amar a vida preciso rever todas as coisas, preciso rezar, lembrar e esquecer.

Por amar a vida, eu ‘conjugo verbos como quem se encontra diante do precipício’. Depois, ao avaliar o que há no profundo e no elevado, lembrarei que tenho asas hábeis como as de uma gaivota. O precipício se chamará oportunidade.

Por amar a vida conjugo: a mim, a ti, a ele, a nós, a vós e a eles é hoje concedida a chance de sonhar e inventar receitas, escrever na página do dia que chegar ainda em branco, ir além.

                                                                                                                                   Helena Beatriz Pacitti – April 27, 2010.

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2 Comentários em “Conjugo verbos”

  1. Mario Says:

    Adorei o texto. Como o amor transforma cada instante – por menor que possa parecer – em um momento unico, onde se pode amar e sentir vida em toda a sua plenitude. Tudo o que voce faz se transforma em amor, porque o amor e’ a sua essencia, porque voce nasceu para amar e por isso amar e’ o verbo que voce conjuga melhor. Obrigado por dividir a sua beleza e tambem por me ensinar a conjugar o verbo amar. Beijos.


  2. Muito lindo tudo o que lí Beatriz, em voz alta para ecoar e ir um pouco mais além.
    Lembra? ainda gosto muito de escrever a lápis…adoro lápis…
    Quem sabe ainda fazemos um video poema juntas?

    Beijão FATIMA VARELLA

    te encontro no canal da poesia escorregando pelo arco-íris…estarei na faixa magenta, e você?


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