O chuchu e o cérebro

 

Beauty in things exists in the mind which contemplates them.  

David Hume

Desejo abraçar a beleza que nunca apareceu para o mundo.

J. Joyce

 

Passeando entre bancas de hortifruti em uma destas manhãs de sabado, fiquei admirando uma bem disposta pilha de chuchus. Chuchus grandes, de casca lisa, sem espinhos e com profundos sulcos.

Lembrei de um quintal visitado há décadas, e tambem do meu infantil espanto ao descobrir que chuchus ‘gordinhos’ pendiam de uma trepadeira cheia de volteios, enganchada firmemente entre o caramanchão e a parede próxima. Segundo a minha teoria metafísica da epoca (4 anos de idade e  irmãos ainda mais novos) sobre a suposta criação de frutas e legumes por anjinhos quitandeiros designados pelo Senhor: “um anjo desajeitado teria bolado essa engenhoca de hastes finas sustentando frutos grandes, sem deixar que se soltassem”. Se  alguns chuchus vinham com espinhos e outros não, provavelmente era o caso dos segundos constituirem a cota permitida para consumo dos viventes ( enquanto os outros deveriam manter afastados outros predadores).

Voltando à pilha de chuchus. Levei alguns para casa e ao descascá-los não pude deixar de notar semelhanças curiosas com a anatomia externa do cérebro humano. Sei que soa meio  herético, mas comece pensando no formato: arredondado e um pouco alongado no chuchu, assim como o aspecto arredondado do cérebro e suas duas esferas ovóides ou hemisférios, percorridos em sua superfície por sulcos que delimitam lobos e giros.

Na dissecção do legume, a gente nota mais semelhanças entre as cascas: a do chuchu é fina; a do cérebro, um pouco mais grossa, obviamente chamada córtex.  Depois passa-se por delicadas circunvoluções e giros até chegar ao cerne – cuja cor esbranquiçada lembra a fissura mais profunda do cérebro, conhecida cientificamente por corpo caloso.  

Não é difícil constatar – mesmo abandonadas minhas teorias de anjos criadores – como a natureza é pródiga na harmonia de seu design e na repetitividade intencional de formas.  Não é mero acaso a economia inteligente proporcionada por padrões geométricos precisos.

Outras similaridades: cristais de neve vistos ao microscópio,em padrões rigidamente hexagonais e ainda assim completamente diferentes uns dos outros. A imagem invertida da  árvore brônquica humana, muito similar a uma árvore frondosa. E mais: árvores que se assemelham a corpos humanos, como os Ents de  J. R.R. Tolkien.

Entre o chuchu e o cérebro, a Matemática e a geometria fractal talvez ajudassem a elucidar o meu espanto. Para muitos (e segundo o meu filho mais velho também), o edifício matemático é tanto Ciência quanto Arte, e como tal, ousa explicar o extraordinário e o Belo.

Algumas leituras recentes* têm feito com que eu viaje para labirintos e terras incógnitas da Criação, mas sei que também é muito  fácil viajar na contemplação de coisas simples em um passeio matinal ou afazeres diários.  

Seja por conta de  anjinhos travessos ou dos fractais, permacene redivivo meu encantamento diante das pequenezas da vida comum.  O que não quero é a sensação fácil de que ‘cheguei lá’.  Ao descobrir mais, quero saber menos, mantendo o eterno espanto da infância.

HBP, maio 2010

* as quais recomendo vivamente:

Viagem Extraordinária ao Centro do Cérebro. Vincent, Jean Didier /Ed. ROCCO.

O iconoclasta. Bearns, Gregory /Editora: Best Business

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One Comment em “O chuchu e o cérebro”

  1. Mario Says:

    Adorei e saboreei o seu texto. Estava mais gostoso do que um sufle de chuchu!!: ) E’ incrivel como a natureza e’ sabia, fica repetindo os designs mais eficientes e tudo com uma beleza e harmonia incomparavel. Como alguns podem pensar que tudo e’ obra do acaso? Se vivemos num universo entropico, que forca grandiosa e maravilhosa cria e mantem toda essa harmonia? Que forca e’ essa que faz com que pequenas celulas se diferenciem e se agrupem formando nossos tecidos, sistemas e o nosso cerebro. E essa forca ainda nos presenteia com a inteligencia para que um dia possamos descobri-la e entende-la. No entanto as maiores verdades sao entendidas primeiro pelo coracao e depois pelo cerebro, e so’ o verdadeiro amor desperta a “inteligencia” de nossos coracoes. Essa forca maravilhosa so’ pode emanar de uma fonte de sabedoria e de amor infinito, ou seja de Deus.
    Obrigado pelo lindo e divertido texto, nos contando sobre como voce quando crianca via o mundo e para tudo encontrava uma explicacao pela teoria dos anjinhos. Ri muito quando descobri da existencia dos “anjinhos quitandeiros”..:) e obrigado acima de tudo por me ajudar a descobrir a “inteligencia” do meu coracao. Beijos.


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