Prodígios do tempo

As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras
nem delas careço.
Tenho todos os elementos
ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos

Carlos Drummond de Andrade

Você já se sentiu inadequado diante do mundo? É como dançar fora do ritmo, desengonçado. Não que eu tenha a pretensão de consertar o mundo e mudar o comportamento das pessoas, mas sinto que preciso manter a sensibilidade e a lucidez sobre o certo e o errado, sobre os sentimentos e os afetos simples, sobre o que acontece ao redor: sejam pequenas benesses, sejam as injustiças. O tempo todo. A alma não pode calejar.

Há alguns dias fiz uma visita a uma grande corporação a fim de rever conhecidos. Pouco antes eu havia saído de uma entrevista no consulado americano. Depois de horas confinada e faminta, fui a uma cafeteria comer um pedaço de bolo de chocolate e um espresso. Revi conhecidos e respondi, claro, que “a vida andava bem”. Justifiquei: estou às vesperas de aguardadas férias, de uma viagem tão desejada. Meus filhos adolescentes estão de bem com a vida. Estava feliz porque estava comendo bolo com café. Porque minhas pernas me permitiram ir e vir para onde quis. Houve uma decepcao no ar, acho que infringi alguma regra de etiqueta moderna. Talvez devesse ter sido mais conveniente nao expor tanta alegria, mas um certo fastio, stress, uma pitada de complexo de pobreza, uma falsa modéstia de felicidade. Senti a inadequação dessa alegria quase pueril diante do ambiente corporativo.

Até que é bom ser inadequado assim.   Minha ética pessoal hoje permite que eu abrace meus pacientes e chore com eles, ao invés de mostrar distanciamento profissional. Minha inadequação também me permite estar em paz com Deus mesmo sem praticar religião ou frequentar uma igreja. Prefiro ser lembrada mais pelo meu sorriso do que pelas coisas que disse ou fiz. O tempo me ensinou que ele é mesmo prodigioso para os que têm o coração leve: apaga as memórias desnecessárias e realça as preciosidades.

O tempo faz prodígios. No vai e vem das memórias, lembrei de ter conhecido uma pessoa que se relacionava com uma colega de trabalho setor de forma dubia, ora amiga, ora inimiga.  Nesse relacionamento havia um desequilíbrio de poder e status acadêmico entre as partes envolvidas. Regular e persistententemente, a primeira começou a solapar a integridade e confiança da vítima. Gestos, condutas abusivas e constrangedoras, humilhações repetidas, inferiorizar, amedrontar, menosprezar ou desprezar eram atitudes frequentemente aceitas ou mesmo encorajadas como parte da cultura da organização. No final acabou-se a amizade.

Mais recentemente, acompanhei outro grupo onde, durante alguns meses, havia se instalado a seguinte dinâmica de bullying: uma funcionária, embora hieraquicarmente igual aos demais, escolhia sua vítima, primeiramente isolando-a do grupo durante dias, semanas ou meses. Nesse período não cumprimentava e impedia os colegas de almoçarem, cumprimentarem ou conversarem com a vítima, e, caso conversassem, queria saber o que estavam conversando, além de monitorar horários e atividades de todos, direcionando brincadeiras cheias de sarcasmo com objetivo de forçar a vítima a pedir demissão.

Desta vez um final feliz: quem praticou o abuso foi demitido. Alguém  próximo ouviu sua ultima frase: ” Vou destruir a vida da pessoa que fez com que eu saísse daqui”.

Pois eu lhe diria: olhe o tempo e seus prodígios. A lei da semeadura’, cedo ou tarde, acontece. O tempo mostra que o fruto não nega sua semente. Ainda que não estejamos aqui para testemunhar que cada um colhe o fruto de seus atos e escolhas.

Descubro que minha inadequação é saudável porque a inconformidade me aproxima do Divino, para Quem o tempo – finito e fugaz – nem existe. Mas para mim -uma poeirinha cósmica nesse Universo – o tempo faz prodígios.

HBP, 13/06/2010,o dia em que a Julia nasceu.

 

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2 Comentários em “Prodígios do tempo”

  1. Silvana Féres Says:

    A leitura dos seus textos funciona como a expressão escrita do que vai na alma!!!! Quero dizer exatamente o que leio! Desconforto com a minha vida simples!

    Passei com meus filhos por uma grande perda. Deus, Quem sabe de tudo, me mostrou a trilha, colocou pistas nas bifurcações, deixou guloseimas para os acertos e bálsamos para as injustiças.

    Durante minha caminhada, como apenas uma poeirinha no universo, encontrei “vampiros emocionais”! No meu entendimento, nutrem-se de desgraça, tristeza, maledicências, infelicidade!

    Após a fase mais aguda da perda, senti imensa necessidade de recomeçar. Meu bálsamo, que chamo de ” O Bálsamo” (pois não existe a palavra bálsama), me ajudou com várias perspectivas!!! Seguimos em frente! Bom né! Que legal!!! Só que não!

    Passados 9 meses do falecimento do meu marido vejo pouquíssimas pessoas comemorando comigo a passagem pelo pior, a maneira como as crianças estão lidando com a perda, o “seguir em frente”! A grande maioria quer ouvir desgraça! Instigar infelicidade! Não querem acreditar em uma mãe franzina e resiliente dando conta do recado, transmitindo coragem aos pequenos, lidando com situações abomináveis sem perder o rumo. Não querem escutar coisas boas, simples, não querem saber do prazer do banho de mangueira num dia que a sensação térmica chega aos 50 graus, das brincadeiras com bexigas d’Água, do piquenique no parquinho, da experiência com argila, de riscar amarelinha com giz, aquele giz do quadro negro (hoje só vemos quadros brancos), de colocar as esteirinhas na varanda no final da tarde e ficarmos ouvindo música! Quanta simplicidade!

    Sou grata a Deus em cada fração incontável do tempo! Consigo viver com simplicidade! Consigo não desejar mal, consigo não sentir raiva crônica (ainda preciso evoluir a aguda). Talvez seja o caminho! Deus permite que possamos recomeçar! Precisamos mostrar que somos dignos desta confiança!

    Enviado do meu iPhone

    >

  2. timilique Says:

    Obrigada pelo testemunho pessoal, lindo e verdadeiro. Voce eh uma amiga que verdadeiramente me inspira, Silvana.


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