Naufrágio

 Sentia, primeiramente em meus ossos, que este mundo não se explicava(…)

Em segundo lugar, passei a sentir como se a mágica precisasse ter um significado, e o significado precisasse de alguém para expressá-lo. Havia algo de pessoal no mundo, como numa obra de arte (…)

Terceiro, considerava este propósito maravilhoso em sua forma original, a despeito de seus defeitos, como os dragões.

…E, por último, e mais estranho, tive em minha mente uma vaga e vasta impressão de que, de algum modo, todo o Bem era uma sobra a ser guardada e preservada, como sacra, de alguma ruína elementar.

O homem salvara seus bens como Robinson Crusoé salvou seus pertences: ele os recuperou de um naufrágio. 

G.K. Chesterton

Outro dia, retornando do exterior, presenciei  situações constrangedoras no avião.

Primeiro uma mulher veio sentar-se próxima a amiga, após solicitar a comissária de bordo se podia ocupar o assento livre na fileira ao lado, onde sobraram dois lugares vagos dos três originais.

O homem ao lado, talvez desejando ter todos os assentos somente para si, não só ficou contrariado, mas começou a agir  deliberadamente de forma inapropriada e desagradável durante a longa viagem noturna.

Primeiramente tomou para si todos os travesseiros dos lugares ao lado, abriu braços e pernas ocupando os espaços além do seu banco e apoios de braços, por várias vezes empurrava com as costas ou travesseiros a indesejada vizinha.  Balançava e sacudia os assentos, pedia que ela apagasse a luz de leitura, pigarreava, esbarrava ombro e braço. Fez tanto estardalhaço que chegou a ser notado pelos passageiros ao lado. Assim foi durante toda a viagem.

À saída do avião, precisamente no corredor que dá acesso ao gate, as amigas caminhavam, comentando entre si  o desagradavel ocorrido.  Uma delas  não queria acreditar que aquilo fora proposital, somente falta de educação.  Não notaram que o homem as seguia e escutava. Ao passar por elas, covardemente virou-se e disse que queriam dar uma de ‘espertas’, lançando vários impropérios e palavrões. Obviamente desconhecia as normas de conduta dentro de um vôo, onde, após todos estarem assentados, é facultada a livre mudança de lugar aos vagos.

Então o homem, já descontrolado, chegou a seu ponto mais baixo quando murmurou algo como: se vocês ainda fossem bonitas, gostosinhas, ainda vai…

Senti vergonha alheia ao presenciar aquilo. Vergonha por ver um homem, adulto, brasileiro, voltando do exterior ao seu país de origem, portando uma aliança de casamento, costas arqueadas  e cabelos grisalhos, se descompor daquela maneira. Vergonha ao vê-lo agir como criança contrariada durante a viagem, vergonha por vê-lo mostrar a face mais hedionda do machismo. Vergonha porque ele agia de forma irracional. E só teve coragem de dizer o que disse quando a maioria dos passageiros se afastava.

Um homem como esse, que sequer tem pudor em exibir sua canalhice me faz pensar como a violência, seja  física, verbal, individual ou coletiva – tem se banalizado no meio a um mar de impunidade e omissão.

Pode parecer algo minúsculo diante das desgraças e tragédias desse mundo, mas não é que  tudo o que é grande, um dia começou pequeno?

Embora não seja difícil imaginar, a mim não cabe saber que tipo de marido, ou pai, irmão ou filho esse homem deva ser.

A mim cabe o espanto. Cabem o espanto e a denúncia para que essa coisa ainda pequena, essa violência baixa e viscosa não torne os homens – homens e mulheres-cada vez mais desumanos, mais des-divinos, mais grotescos, como náufragos desfigurados. A mim cabe a vergonha e a esperança de que ainda se salve, em meio a tanto egoismo, uma pequena sobra daquela ruína elementar chamada Bem. Para que o pequeno Bem nos recupere do naufrágio.

HBP, 18/07/2010

Explore posts in the same categories: Uncategorized

One Comment em “Naufrágio”

  1. denise Says:

    Helena querida,

    Bem eloquente isso aqui:

    “Pode parecer algo minúsculo diante das desgraças e tragédias desse mundo, mas não é que tudo o que é grande, um dia começou pequeno?”

    – Táo básico isso, mas a gente não perde tempo com coisas básicas. Elas não geram notariedade.

    e mais isso:
    “A mim cabe o espanto.”

    Exatamento isso.
    Falta-nos espanto, falta-nos emoção, falta-nos sensibilidade, falta-nos vontade de olharmos para além de nós mesmos. Nossos interesses.

    Muito bom a partilha do seu ‘espanto’.
    Que venham outros mais.
    um beijo
    denise


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: