(In)verso

'Chinese Offspring', escultura-instalação de Zhang Dali, artista chinês
‘Chinese Offspring’, escultura contemporânea de Zhang Dali, artista chinês

 

‘Existem milhões de pessoas com pensamentos de mudar o mundo… Mas poucas arrumam a sua própria casa. Observando as coisas (sem precisar ficar muito atento) percebo que num lugar onde falar de amor é ser brega, religião virou guerra de gangues e o certo é ser errado… O que posso fazer é apenas observar como o ser humano consegue ser, de fato, humano!”

 

(Dirceu Siqueira)

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5 Comentários em “(In)verso”

  1. andre martins Says:

    Eu sei, mas não devia…

    Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
    A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
    E porque não tem a vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
    E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
    E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o Sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
    A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
    A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
    A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no metro porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
    A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir…
    A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
    A ser ignorado quando precisa ser só visto.
    A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e de que necessita.
    E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
    E a pagar mais do que as coisas valem.
    E a saber que cada vez pagará mais.
    E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
    A gente se acostuma com a poluição. Às salas fechadas de ar-condicionado e o cheiro do cigarro.
    À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. E às bactérias de água potável.
    A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
    Se a praia está poluída, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
    Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
    Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre o sono atrasado.
    A gente se acostuma a não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma a evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
    A gente se acostuma a guardar a vida.
    Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.

  2. Mario Says:

    Esse texto do Dirceu me fez lembrar uma conversacao que eu tive no escritorio outro dia quando um amigo me falava sobre a realidade, eu disse para ele: “A realidade nao existe o que existe e’ a nossa percepcao da realidade, e a de cada um e’ diferente.” Ele riu, e me perguntou se eu tinha assistido um filme chamado Sneakers. Eu respondi que nao. Ele entao me explica que no comeco do filme o personagem vivido por Robert Redford fala para o personagem vivido por Ben Kingsley a mesma coisa. A minha percepcao da realidade e’ diferente da do Dirceu, eu vivo e convivo com pessoas que arrumam as suas casas e tambem querem arrumar o mundo, que nao so’ falam de amor mas tambem o praticam e nao se sentem bregas, pessoas que tem os maiores ideais, e o sonho de viver num mundo sem guerras, onde ser certo e’ que e’ certo, onde “ser humano” se refere aos nossos mais nobres sentimentos, a nossa capacidade de amar, de perdoar, de consolar, de se preocupar, de sonhar, etc., os sentimentos e atributos divinos que nos separam dos outros animais e nao usar a expressao “ser humano” como uma desculpa para errar , aceitar o seu erro e continuar errando, nunca aprendendo de seus erros. A minha percepcao da realidade e’ diferente da do Dirceu, epero que ele se junte a nos, os que ainda acreditam na beleza do espirito humano. Eu gosto de falar do amor, eu preciso falar de amor, porque eu amo!! E sinceramente nunca vou me incomodar e nunca vou me envergonhar de um dia ser chamado de brega por isso. Tiz, o texto do Dirceu valeu, me fez refletir, mas eu prefiro ler um texto seu!!😉


  3. […] fonte: Timilique! […]

  4. Tamara Says:

    Imagem Incrível,
    Texto fantástico!
    Que Maravilha, dá gosto de ler seu site!
    Beijos!

  5. Dirceu Siqueira Says:

    Fiquei muito contente em ler o que escrevi aqui e, principalmente ler comentários e textos à respeito. É bom poder trocar pensamentos. Isso faz a gente crescer e amadurecer. Concordar e discordar também faz parte desse contexto. Por isso deixo uma humilde opinião: Percepção é aquilo que a nossa mente alcança e a realidade é como um centro de qualquer grande cidade na madrugada. A gente escolhe ou alcança o que quer ou o que pode ver.


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