O grão do imprevisto

 

Existem coisas para as quais não existe jeito. Aquela tristeza dos domingos de tarde, a saudade fininha de quem não está, aquele vazio de alma que a gente nem sabe direito de onde vem.

Tem cura? Acho que não. Até o fim da vida vai ser assim: um pouco de pesar, um pouco de nostalgia, e domingo de tarde sempre vai ser o domingo de tarde, misto de ansiedade, cansaço, desarrumação e ruídos voltando a sua rotina.

‘Daqui a pouco vamos embora’, ‘já é hora de partir’, ‘me dá o último abraço’. Amanhã não se usa pijama, amanhã não se anda descalço. Amanhã é dia de vestir a camisa passada às pressas, da sensação de ter esquecido algo ao sair.

Outro dia li algo sobre  ‘a odiosa fatalidade dos seres humanos (inventados ou não) caminhando para o bem e para o mal.’  Deve ter sido a Lygia que escreveu, se não foi ela foi outra das minhas preferidas. O caso é que a segunda-feira sempre parece guardar a fatalidade de uma surpresa ruim, pequena que seja. Mesmo se não acontecer nada, a gente vai achar chato. Segunda é dia com gosto de promessa não cumprida, de se comentar o futebol de final de semana, dia de começar dieta, academia, dentista.

Talvez não tenha jeito, mas acho que a gente não devia se sentir prisioneiro de uma tarde de domingo. Devia recriar as últimas horas, comemorar o restinho do ócio.

E como tudo parece depender do tempo e do acaso, e também do grão do imprevisto, a gente devia acreditar que domingo de tarde ainda é meia página em branco.

HBP, 15/08/2010

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4 Comentários em “O grão do imprevisto”

  1. Mario Says:

    Adorei o texto! Mas nos nao precisamos ser conformistas. Hoje eu aprendi que para tudo se tem um jeito. Vamos escrever coisas lindas nas paginas em branco de cada novo dia que comeca, nao deixar em branco nem meia pagina sequer, nem mesmo as de domingo a tarde!🙂
    Cada momento passado em branco e’ uma oportunidade perdida de se fazer o bem. Vamos deixar nossas camisas passadas com antecendencia, nao vamos deixar de falar a alguem como ela e’ importante para nos. A vida e’ muito curta para deixarmos para o acaso, ao grao do imprevisto para que nao deixem as nossas meia paginas em branco. O grao do imprevisto maior nao nos dara tempo para fazermos as nossas malas. Vamos deixa-las prontas, vamos esvazia-las de nossas angustias, odio e rancores e enche-las com amor, com os nossos atos de bondade de cada dia. Dessa maneira ela ficara bem mais leve e voce podera voar ainda mais alto.


  2. Certo dia uma pessoa me disse ” você é assim melancólico… isso é um problema de personalidade”

    Eu fiquei mudo por um instante e depois disse a ele que às vezes a melancolia me traz uma suave alegria e me aguça os sentidos me fazendo perceber uma realidade do mundo, diferente daquela das vitrínes, das alegrias construídas, feitas de isopor, sem sabor…

    Alguns segundos de imprevisão não irão me fazer mal


  3. Mais sábio que outro sábio é transformar melancolia em palavras bonitas. Não precisa escrever melancolia com melancolia. Esse sentimento abre nossa percepção à outros caminhos, com isso, sábio é usar esses caminhos para expressar melancolia com palavras e atitudes inspiradoras. Os textos mais lindos e instrutivos que já li, nasceram da melancolia. O entendimento do amor não existe sem as perdas anteriores. Covardia é ficar entre amor e tristeza: é a tristeza documentada racionalmente, é o ufanismo do martírio. Fundo do poço, paradoxalmente, é ter fé no imprevisto. Talvez a sagacidade esteja em argumentar o acaso. É como conjugar um verbo que não existe.


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