Dois pingos sobre o olhar: O miniconto do cego e outra cena urbana

Um homem gritava no ponto de ônibus.  As pupilas opacas e a bengala bem apoiada na palma da mão revelavam: era um cego.

  –  Oi, ooooooi!, oi, ooooooi…

Ele gritava para a rua, para os passantes e vez ou outra virava o rosto para o mar. Gritava algo que não tinha sentido.  Não queria ajuda, nem dinheiro, nem nada. Só gritava.

Alguns cachorros vira-latas latiam em sua direção, se aproximavam, recebiam um afago e depois se afastavam, quietos.  A arrancada dos carros na pista fazia doer os ouvidos. Mal se escutavam as conversas dos pedestres, a chamada do vendedor de coco verde e o apito da pelada de futebol na areia.

Mesmo quando o trânsito diminuía, o som abafado do mar continuava engolindo a tarde, prenunciando a  escuridão.

As pessoas que aguardavam os ônibus na parada acompanhavam ansiosas somente seus relógios e celulares.  Os caminhantes desviavam o olhar, evitando o desconforto de não saber o que fazer.

Então o  cego  – aquele que sempre tinha vivido no escuro, aquele que não via ninguém – também se tornara  invisível.

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Ao meu lado estaciona um carro com as janelas abertas.

Na visão periférica ele chama a atenção.  É um carro completamente vermelho, do tipo ‘vermelho-cheguei- ferrari-sangue-arterial’.

A motorista, uma loira meio triste, tem as unhas também pintadas desse vermelho quase indescritível, e não é que os lábios ostentam exatamente essa cor?

A cena quase pulsa por si. A loira checa impaciente  o semáforo, obviamente vermelho como o restante da cena.

Então o garotinho magro e pálido [que fica toda tarde naquela esquina vendendo pacotinhos de balas escuras de tamarindo, pacotinhos grampeados em um pedacinho de papel fotocopiado com algo que soa como um :  ‘por favor, compre essas balas e me ajude a não virar um pequeno desgraçado’ ] olha com imensa curiosidade a dona nervosa, o carro vermelho, as unhas e o batom. Chega a ofuscar.

O garoto-cinza, que até então via tudo cinza, contempla tudo por infinitos segundos, até a vista doer.

O sinal finalmente muda e o carro sai, rápido.  Mas, ao piscar os olhos, o garoto descobre que em sua retina resta, ainda latejante, aquela mancha de vida.

HBP, 23 e 26/10/2010

 

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One Comment em “Dois pingos sobre o olhar: O miniconto do cego e outra cena urbana”

  1. Eunice Says:

    Qerida Helena Beatriz,
    Achei ótima sua idéia de escrever contos!
    Nos dois contos, embora com personagens e situações bem diferentes, percebi que ambos viveram emoções que são reais no cotidiano de tantas pessoas. A necessidade de ser ajudado e como vítima (o cego) torna-se invisivel; ninguém se importa – perde-se a esperança. O garoto cinza quase sem esperança, consegue ainda de modo ilusório, descobrir que ainda há uma esperança em colorir sua vida.
    Nos dois casos vemos a indiferença do ser humano em VER o OUTRO como gostaríamos de sermos vistos!
    Beijos, Parabéns!
    Tia eunice


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