Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica…

Favela do Arará/RJ - foto de Ratão Diniz

Favela do Arará/RJ – foto de Ratão Diniz

Toda criança esperta, em algum momento da vida escolar, costuma ter um insight justo na época das provas e pergunta aos pais:  ‘Mas por que tenho que estudar gramática se vou ser engenheiro/músico/médico/matemático/artista/bailarina/astronauta/bombeiro?’

As respostas variam, desde o “Porque sim, fica quieto e vai logo estudar, menino!”  até tentativas pouco pragmáticas de convencer o pequeno, já traumatizado com sintaxes, morfologias e tempos verbais.

Em casa a gente perguntava e minha mãe usualmente não respondia. Apenas sorria e continuava lendo seus muitos livros. A sofreguidão, a pressa, a alegria genuína com que ela lia qual-quer coisa fazia desvanecer nossa apreensão.

Minha vez também chegou. Um dia fui confrontada com a filha caçula batendo o pezinho por achar tudo aquilo – tempos verbais, análise sintática, interpretação de texto – uma bobagem. Minha resposta foi mais ou menos parecida com este conselho do escritor Stephen Koch:

“Essa (a leitura) é a sua única esperança  de desenvolver um estilo pessoal decente.  Para começar, só a leitura nos treina a usar corretamente as palavras.  Isso não é uma coisa qualquer: a falta de correção implica falta de comunicação.  Se você empregar mal a língua, as pessoas não o entenderão. É preciso saber exatamente o que as palavras significam e como empregá-las…”

Não sou expert no assunto. Tenho, porém, vivido o suficiente para constatar que nenhuma imagem pronta trazida pela midia tem o poder de uma boa história escrita ou narrada. Normalmente, imagens são colocadas fora de contexto, seja na TV, na internet, no cinema e nos outdoors, a fim de vender algo. Não passam uma mensagem, não transmitem um sentido, não contam uma história. A poesia inexiste: tornou-se tão frágil e delicada que não cabe em uma manchete de telejornal. E, sinceramente, ‘poesia não vende.’

Imagens fortes e carregadas, efeitos cada vez mais espetaculares, trilhas sonoras indutivas e enredos mais e mais complexos chegam e se vão rapidamente, como flashes.  Nossa capacidade de nos impressionarmos com coisas simples está desaparecendo. Com o exagero de estímulos, paradoxalmente somos levados a nada. Ter excessos é o mesmo que não ter nada.

Dizem que nossa geração tem se tornado mais e mais parecida com os homens do Mito da Caverna, de Platão. Vemos sombras o tempo todo, mas, acorrentados ao éter virtual, julgamos erronamente que elas constituem o mundo real e a verdade.

Os sábios antigos sentiam grande desconforto ao se darem conta de que toda ilusão é perigosamente sedutora.  Mas sai caro, caríssimo. Ela compromete nossa existência e nossas crenças, e nos esvazia de valores e referenciais.

“Por isso” , como ensina Antonio Cicero, “guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la…guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, admirá-la…iluminá-la e ser por ela iluminado…Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e se declama um poema: Para guardá-lo…”

Guarde o que você tem: as memórias genuínas, seus princípios de vida, coisas que você aprendeu com alguém que admirou. Prefira o vento no rosto ao confinamento do falso conforto.  Resgate o encantamento pelo simples, declame suas crenças, leia mais, muito mais, expresse e divida suas idéias.

HBP, 06/11/2010

Explore posts in the same categories: Lendo

3 Comentários em “Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica…”

  1. Mario Says:

    Quanto ensinamento em apenas um texto!! Da necessidade da leitura para o uso correto da palavra, empregar corretamente a linguagem para transmitir nossas ideias para podermos nos comunicar melhor, ate’ a guardar um tesouro dividindo-o passando pela a realizacao de que mais e mais somos bombardeados pela midia convencional com imagens cada vez mais chocantes acompanhadas de historias cada vez menos elaboradas. Somente com a leitura reflexiva, a que temos lendo bons livros, nos poderemos nos manter livres e nao acorrentados ao mencionado eter virtual. Adoro o estilo e o conteudo dos seus textos, por favor continue dividindo as suas ideias e me iluminando com a luz de sua alma!

    • timilique Says:

      PSM,adorei seu ensaio sobre a essência do amor. Com sua licença:
      “Maybe love is when I, the mind, loose control of my feelings and my feelings take control over my mind. Maybe love is just a little piece of God pulsating alive inside my heart. It is formless but it can take a thousand forms! It is my best friend when I do not know what do to, so I just listen to it and it will take me to fulfill my destiny…”

  2. Ivanilde Says:

    Que maravilha!! Sou professora, então imagine quantas vezes não me questionaram o porque de se estudar isso ou aquilo. Que argumentações precisas e sábias. Adorei!!!


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: