Vem da fonte

 

Menino africano bebendo água

Menino africano bebendo água

Tanto que choveu
Tanto que molhou
Coração se encheu de amor e transbordou
Água que correu ribeirão levou
Foi pro oceano e lá se evaporou…

Almir Sater

Conta-se que os antigos egípcios tinham a seguinte crença sobre a morte: quando suas almas chegassem ao céu, os deuses lhes fariam duas perguntas. A primeira pergunta era: “Você foi feliz nesta vida?” E a segunda: “Sua vida fez outras pessoas felizes?”

Ao longo da vida somos privados, querendo ou não, de pessoas e de afetos que nos vinculam mutuamente. Ao nos lembrarmos de algumas delas,  um sentimento instantâneo acompanha essa lembrança, seja agradável ou não. Por vezes é ternura, por vezes pesar.

E o que fazemos com isso?  Como se lida com lembranças, com gente que provavelmente jamais se verá de novo, com supostas dívidas emocionais?  Você evoca o encontro de muita gente em um evento familiar, vizinhos da rua onde morou,  um grupo da escola, gente com quem trabalhou por um tempo, um ex sócio ou ex qualquer coisa.  Se você não for generoso com o passado e acertar as contas com a sua memória,  começa aos poucos a trair a si próprio e  suas crenças, confundindo-se  em dolorosa contradição.

Sobre a contradição, aliás, a melhor metáfora que conheço sobre o assunto é um intrigante conto de Ernest Hemingway intitulado “Cinquenta Mil”.  Ele descreve os dias que antecedem uma importante luta da carreira de Jack, um pugilista profissional em final de carreira, fora de forma, cansado e deprimido.  Na véspera, Jack cai na bebedeira e confessa ao melhor amigo que havia apostado 50 mil dólares em Walcott, seu jovem oponente. Daí para a frente segue minucioso todo o seu conflito mental entre lutar, ganhar o título e perder a aposta, perder a luta e ganhar dinheiro, aposentar-se na marra, recuperar a familia ou mandar tudo às favas.  

Talvez não sejamos coerentes o tempo todo ou o quanto desejaríamos, mas o caminho do amor me parece ainda o mais acertado quando tratamos de decisões futuras ou resgates do passado.  Em outras palavras, “ser feliz” e “tornar alguma outra pessoa feliz” ainda autenticam nossa existência. 

Não se trata de hedonismo disfarçado, tampouco da mera realização dos desejos alheios. Seria impossível agradar a todo mundo, e insano querer agradar.  A questão envolve ética, perdão, empatia e compaixão, e saber-se capaz de impactar com alguma expressão de amor, fazendo a diferença em alguém, em algum lugar, em algum tempo.

Amor é mesmo como água: vem da fonte, chove, transborda, faz nascer, corre, escoa e evapora.  Limpa o passado, clareia o futuro.  Aí começa de novo. 

HBP,26/11/2010

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5 Comentários em “Vem da fonte”

  1. IVANILDE Says:

    Muito obrigada!!! Você realmente é iluminada, quando vejo que houve uma nova postagem sua na minha caixa de entrada me encho de empolgação e assim que leio me transbordo de satisfação. Muito obrigada.

  2. denise Says:

    Helena querida,

    estava lendo agorinha no meu google reader e lá não havia sinalização de comentários e pensei: não posso deixar de me manifestar ainda que não saiba exatamente o que dizer.
    E vim apenas dizer que li e amei! E para minha alegria já havia um carinho aqui para ti. Verdade explícita.

    Sobre o agradar, digo que não dá para deixar passar a oportunidade de dizer ao Outro que ele nos fez ou faz bem, e por vezes a alma precisa, também e, mais de atitude, do que apenas sinais ou leituras tímidas.

    “Se a fé sem obras é morta”; e se
    “não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”, significa dizer que glória do amor reside no movimento, e não apenas no (mais cômodo) sentimento.

    (Nando Reis diz “Tornar o amor real é expulsá-lo de você, Prá que ele possa ser de alguém.)

    Ou seja: não basta amar, precisamos demonstrar. E de maneira que o Outro alcance e não apenas como gostaríamos que fosse ou como supomos ser o amor.

    Amar deve ser também, além de tantas outras considerações (cada um tem seu entendimento e não devemos menosprezar) também vislumbrar o que o Outro enxerga como manifestação de amor e respeitar isso. E conciliar com o constelado, porém jamais cristalizado, em nós. Pois se tratando de amor, palavras (ou concepções) não podem mensurá-lo ou limita-lo.

    Suas palavras abaixo ilustram tudo que eu quiz dizer e talvez não tenha dito:

    <>

    Perfeito!
    Todo texto um primor de sentimento!

    beijos

  3. denise Says:

    Repetindo o que não ficou visível no finalzinho do meu comentário:

    Suas palavras abaixo ilustram o que quiz dizer e talvez não tenha dito:

    “Em outras palavras, “ser feliz” e “tornar alguma outra pessoa feliz” ainda autenticam nossa existência.”

    Perfeito!
    Todo o texto um primor de sentimento!
    bjs


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