O que aprendi sobre os pássaros

Copyright 2009 XoKArt - Adesivos

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Gosto de passarinhos.  Minha infância, no entanto, vivida integralmente na cidade grande, só me permitia distinguir duas ‘espécies’ de pássaros: os de dentro e os de fora da gaiola.

Décadas depois, continuo sabendo pouco.  Descobri, no entanto, que a contemplação sossegada desses bichinhos me trouxe um conhecimento empírico e uma suave intimidade com eles, como se me fosse permitido partilhar da sua rotina com minha infinita ignorância humana.

Acho que finalmente aprendi algo sobre passarinhos.  Outro dia um deles, com um piado meio desafinado, meio sofrido, estava do lado de fora do consultório e fui ver o que acontecia.  Era uma andorinha – filhote, não queria de jeito nenhum voar do telhado para o lado oposto.  Aí a mãe (ou pai, ou um adulto-andorinha) ficava piando pro filhote lá da cerca, voava um pouco com os outros e voltava, insistindo:  “- Vem, vem!” e o filhote nada, só piu-piu esganiçado, morrendo de medo de voar.  Ficaram assim a tarde inteira.

Também nos dias muito quentes, que chegam a 42º C na refinaria, um ou outro fica brincando debaixo dos pingos d’água que caem do ar condicionado, fazendo uma pocinha.  Os passarinhos, principalmente andorinhas e pardais juntos, são muito escandalosos e desinibidos no mato,  fora do ambiente urbano.  São os senhores.  Medi com um decibelímetro e a barulhada ultrapassou 8o decibéis em uma tarde quente, antes da chuva pesada.  Ficaram, uns 30 deles – debaixo de uma telha  do estacionamento; parecia uma feira internacional de quem piupiuzava mais.

De vez em quando surgem garças solitárias, com aquele ar de empáfia tipo ‘ – tudo bem, pode admirar o meu pescoção’.  Voam baixo, atentas e próximas a algum córrego, e conseguem se manter praticamente imóveis por longos períodos.  Vi também quero-queros em pequenos lamaçais, convivendo com familias inteiras de capivaras.  Dá até a impressão de que protegem as capivarinhas, emitindo um grito estridente a aproximação de um intruso.

Ninhos de pássaros também me fascinam. Além de tamanhos e formatos variados, já vi ninhos feitos com pedrinhas, gravetos, fios de lã e até improváveis canudinhos de plástico (como naquele ninho balançando em um arbusto, atrás de uma Rest Area na Pennsylvania).  Mas de ninhos falarei em outra ocasião.

Pássaros agora são meus animais preferidos. Bom, depois de cachorros, antigo caso de amor.  Mas cachorro não voa, e não nego que sonhei muitas e muitas vezes estar voando, sem pressa ou tempo marcado, como as gaivotas que planam nas térmicas da Baía da Guanabara.  Indiferentes ao Corcovado, ao trânsito pesado da Ponte e à correria vã da Humanidade.

HBP, 05/12/2010

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8 Comentários em “O que aprendi sobre os pássaros”

  1. Mario Says:

    Adorei o texto! Adoro a sua sensibilidade, discernimento e encantamento com que voce ve a vida! Eu vejo a vida lendo os seus textos, atravez dos seus olhos e ela fica ainda mais bonita! Obrigado! Fique com Deus!! Beijos!


  2. Tiz, você tem uma sensibilidade impar para tratar de assuntos do cotidiano. Parabens pelo texto. bj mms

  3. denise Says:

    Adorável e fascinante texto!
    bjs

    • denise Says:

      Ainda mais …

      … vivo num lugar onde beija-flores bailam e bebericam uma aguinha doce em minha varanda.
      Nascida e criada em ambiente rural, ainda vivo (para o bem de minha alma) entre animais: cavalos, bois, porcos, galinhas, cachorros e outros mais (talvez menos poéticos) e pássaros engaiolados (infelizmente) e livres. Onde as cigarras cantam exuberantemente e onde a chuva faz música sobre a natureza verde. Soneto para a alma.
      Só carrego uma frustração: a de nunca ter convivido com um gatinho sequer. Ainda há tempo, todavia.
      Seu texto dialogou com minha alma, assim como as ondas dialogam com o mar.

      Cada dia mais exuberante com sua poética escritora nata!
      bjs

  4. denise Says:

    A alma gosta desse recanto. Por isso sempre retorno.
    Um beijo, Helena querida.


  5. […] Indiferentes ao Corcovado, ao trânsito pesado da Ponte e à correria vã da Humanidade. . fonte: Timilique! imagem: XoKArt – […]


  6. Andando por esses lugares do FB te encontrei no Beto Ruschel … Amo animais. E me interessei em vir visita-la. Simplicidade é tudo que quero nesse mundo dos blogs. Senti isso forte por aqui!
    Um abraço da + nova leitora e seguidora!
    PS. deixo meu blog: http://irineamribeiro.blogspot.com/

  7. Miguel Angelo Says:

    Tiz,

    Em seu texto, acerca dos pássaros, e na manifestação da Denise sobre ele encontro como que um eco deste desejo universal, que tem algo de ancestralidade – quase atávica – pela simplicidade.

    Talvez por identificação isso ocorra; pois com os pássaros, rios, árvores, borboletas, bosques e montanhas compartilhamos aquele desejo secreto, o gemido quieto, aquele o clamor silencioso pelo dia da redenção, da libertação e da convergência final de todas as coisas no Criador.

    Talvez, neste “intermezzo”, enquanto esperamos a concretização deste sonho, valha praticar o conselho de Jesus de aprender com os passarinhos. Presos ou soltos eles sempre terão o que nos ensinar.

    A propósito, lembro-me do “Bisqui” um passarinho que veio parar em minha casa na adolescência. O peculiar nele era que ele adorava música clássica. Mas nada se comparava a Johann Sebastian Bach. Quamdo Bisqui ouvia, por exemplo a execução de um Concerto de Brandemburgo ou quando eu assobiava uma fuga de Bach ele praticava uma espécie de imersão em sua natureza livre de pássaro, mergulhava com expressivos olhinhos o presente da música e disparava a cantar lindamente. Nunca vou equecer dele: Bisqui me ensinou que mesmo num nundo de grades há coisas belas e outras mais belas ainda. Também, com ele aprendi que as limitações não precisam constituir necessariamente uma impossibilidade de constatação do belo e à participação na alegria de estar vivo.

    Lições que talvez eu esteja precisando recordar para mim mesmo hoje, quando me sinto engaiolado e sem acordes transcendentes ou contrapontos alegres que me façam ver – com os olhos da esperança – além das grades.

    Naquela época eu achava tudo isso curioso e divertido. Continuo achando que deveria ter gravado a participação do pequenino nestas “masterpieces”. Hoje acho também solene.

    Beijos a todos.


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