Vou te contar…

 

 

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Vinicius de Moraes

Vou te contar.  No Brasil,  as estatísticas mais suaves apontam que a cada dois dias, morrem no trânsito (em sua rua, seu bairro, sua cidade e seu Estado) o equivalente ao número de vítimas fatais na queda de um Airbus com 200 pessoas a bordo.  Em outras palavras: um Airbus a cada 2 dias,15 aviões por mês cheios de gente .

Talvez a gente não se incomode mais.

Ou se incomoda, mas não queira se envolver.

Há quem se envolva, mas nem saiba por onde começar.

Ainda é preciso espanto, aquele certo mal estar para não se acostumar à tragédia. Ainda dá para aprender , como descrevia o autor desconhecido do livro de Eclesiastes (escrito no século III a.C.), o que é o tempo de chorar, o tempo de prantear.

Após a tromba d’água da Região Serrana do Rio de Janeiro, nesse último  janeiro de 2011, somavam-se diariamente danos e mortes, feridos e desabrigados.

A  gente se incomodou?  Acho até que esqueci.

Tem coisas que não sei contar.  Lembra-se  das três crianças que ganharam um cobertor no inverno passado, e que em sinal de gratidão, o caçulinha havia respondido: ” A gente durmimo no quentinho”?

Sua jovem mãe faleceu há 10 dias.  O pai, sumido por aí.  Os três foram para algum morro, passar uns tempos em um barraco de algum parente distante.

Há quem tenha se incomodado, mas não quis se envolver.   Talvez seja muita tragédia para se abraçar.  Mas a tragédia passou aqui pertinho: ou se vê, ou se finge que não vê.

Vou te contar.  Tem o tempo de morrer  e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de derrubar, de perder e tempo de lançar fora.  A dor chega,ousada,tão perto de nós.

Tem um tempo em que é melhor se espantar e se rasgar do que ficar indiferente ao que acontece, sem esperança, sem desejos e sem indignação. A ficha cai, é como um luto: tempo de estar calado.

Depois, no entanto, é preciso encontrar o caminho de volta da escuridão para a luz.  Não chame quem sofre de pobre, se você está com a alma à míngua.  Não se paralise: aja.  Daqui a pouco acontece uma espécie de milagre, quando pequenas sementes de compaixão e amor começam, ainda que timidamente, a brotar.

Porque assim também devem suceder novos tempos, o de nascer  e o de plantar.  Chega o dia de juntar tudo, ajuntar as pedras e edificar.  Tempo de buscar e tempo de guardar.

Agora eu já sei.  O amor, finalmente, consegue encontrar caminhos acertados.  O dia de amar e o dia de abraçar chegam quando alguém comum, como por exemplo eu ou você, decide estender a mão.  O dia da esperança é quando se abraça cada segundo como uma dádiva de Deus e da vida.

Porque, sinceramente, fundamental é mesmo o amor.  Um dia a gente percebe – e era assim que Jobim cantava em canções de amor, um amor talvez maior que o amor entre um homem e uma mulher – que os olhos já não podem ver coisas que só o coração pode entender. 

Não se iluda. É impossível ser feliz sozinho.

HBP, 12.02.2011

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4 Comentários em “Vou te contar…”


  1. Ficou legal a pagina. Um beijo mms

  2. Mario Says:

    Se todos fossem no mundo iquais a voce, que maravilha viver! Beijos!

  3. Fernanda Says:

    Maravilhoso texto! Parabéns!


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