Vilões, vilanias, teorias

Quem nunca apanhou do cara grandão na saída da escola?  Um amigo me contou que durante um bom tempo sofreu estas surras, quando criança.

Que rapazinho não foi discriminado por preferir jogar xadrez a futebol?  Que garota pré adolescente não ficou mal vista por evitar rodinhas onde a conversa se restringia a Barbies ou fofoquinhas?  Outro amigo conta que lembra de ser ridicularizado, quando criança, por uma professora pelo simples fato de usar palavras em “frantuguês”, ou seja, mistura de francês e português.  Diariamente.  E confessa: a simples menção do nome do colégio na vida adulta, ainda lhe traz ‘dor de barriga, ânsia e pânico à memória.’

Mais cedo ou mais tarde , exceto se você for o valentão da história, vai esbarrar em um vilão, seja o invejoso, o cruel, o mal-amado, o ambicioso ou simplesmente o chato que insiste em deixar uma marca desagradável na vida alheia.

Eu sei que a gente cresce, meio que esquece, tenta superar.  Um dia se dá conta, com pesar, que o vilão ‘reaparece’ na vida dos filhos, das  sobrinhas. Que vontade de poupá-los da dor, mas cada um, por si mesmo, terá de dar conta dessa descoberta.  E dá.

Havia, por exemplo,uma garotinha na minha turma de primário que constantemente soltava os meus longos e pesados cabelos da presilha, em um gesto desafiador, e saía correndo, feliz por me tirar do sossego.  Não consigo sequer lembrar de sua silhueta. Virou uma sombra para mim.  Vilões e vilãs da vida, com o passar do tempo, vão ficando assim: sem rosto, sem nome.  Viram personagens, estereótipos.

Há também os vilões coletivos, aqueles que de uma só vez conseguem se tornar pesadelo de um grupo, como aquela professora super rigorosa que não admitia que os alunos mascassem chicletes durante suas aulas.  Se flagrasse alguém transgredindo a regra, simplesmente ordenava que o coitado retirasse o chiclete da boca e o colocasse imediatamente sobre o couro cabeludo.  Mas grudasse bem grudado mesmo!  Imagine o estrago.  Isso custou a muitos alunos cortes de cabelo esquisitíssimos e indesejados, além de traumas que talvez só tenham sido tratados em divãs.  A mim, apavorada com os métodos terroristas da dita professora – e ao mesmo tempo intocável por ser aluna exemplar – a vergonha alheia trazia um misto de mudez e covardia.  Como me envergonhei por ter permanecido calada, sem defender meus colegas!  Era covardia sim, e muito medo.  Por outro lado, em um mea culpa bem posterior, jurei a mim mesma que a dor alheia causada pela injustiça seria, a partir de então, a minha dor também. Quem sabe foi uma das minhas motivações para fazer Medicina?

Todo mundo tem uma história assim, ou várias: o irmão mais velho que intimidava o pequeno pela força, o chefe que oprimia o subalterno, a prima que inventava fofocas e dividia a família, o vizinho barulhento, o empregado ganancioso, o líder do time que sempre excluía alguém por falta de habilidades.

Quando a memória subitamente se torna pródiga em recordar dos vilões e vilãs do passado, sugiro a mim mesma um exercício de contemplação feito os estóicos da Antiguidade.  Sugiro contemplar a vida, com suas dores e vilanias, ainda assim como quem procura algo de bom, algo que se ajuste. Contemplar de frente o passado e dele extrair, sem os medos juvenis, algumas lições.  Ou melhor, extrair teorias.  Pois “teoria” – theion (=deus) e orao (=contemplar) não vem exatamente disso?

O que quero dizer, afinal, é que às vezes a gente devia contemplar mais a vida como quem procura o divino.  Olhando pra trás, chego a exclamar ao imaginário segundo minha própria teoria: ” _ Vilões e vilãs, estão perdoados,  estão libertos, até os agradeço. Por causa da sua vilania depurei meus valores, aprendi o tamanho da minha fraqueza, adquiri novas forças, melhorei meus argumentos, refiz minhas estratégias.  Por causa da sua vilania amei mais quem mereceu, perdoei quem não mereceu, inclusive a mim mesma!  Sem nenhum tipo de vergonha, hoje sou fã de finais felizes, com direito a alegria, risos e afetos verdadeiros.”

Quanto a história do garotinho que apanhava do fortão, prefiro transcrever o que ele mesmo contou, após narrar as surras as quais era submetido:

” _ Mas sabe de uma coisa? Certa vez, meti um soco bem no meio da cara dele e sai correndo! Nunca mais tive problemas.”

Viu só? Final feliz.

(HBP, 19/03/2011)


Explore posts in the same categories: Lendo

One Comment em “Vilões, vilanias, teorias”


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: