Porque mães ganham rosas

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Saber lidar com o inesperado é uma arte que nao dominei.  Não devia ser assim. Pois se trabalho com gente, doença e relatos de frustração há mais de 20 anos, já ouvi pessoalmente centenas de histórias reais sobre revezes e superações, incentivo todo dia as pessoas a atingirem seus potenciais e não se deixarem paralisar pelas dificuldades; como eu ainda me sinto aturdida diante do não planejado? Leio biografias, ensaios.  Os conhecidos a mim me referem como uma pessoa corajosa e motivadora, “de bem com a vida” e normalmente com um bom astral.

Tudo bem. Mas não aprendi de verdade a suportar uma contrariedade sem que meu inconsciente denuncie isso.  Planejei uma ida a São Paulo para comemorar o Dia das Mães em grande estilo, con tutta la famiglia (saindo do Rio) mais o knowhow de ter viajado pela Dutra pelo menos 2 vezes ao mês durante 20 anos. Tranquilo para quem, na conta, já percorreu 960 viagens entre  idas e voltas.

Então tá. Tudo certo. Um dos filhos não quis ir de última hora. Tirei uma soneca que era para ser mais curta do que foi. Saí de casa na hora errada, ou seja, na hora do rush da segunda maior cidade do Brasil. Uma sequência de erros, pois. Aí ficamos 3 horas na velocidade entre 20 e  zero km/hora em um trecho de mais ou menos 12 quilômetros. O filho presente reclamando do trânsito, da minha maneira de dirigir, da quase batida que dei na traseira do carro a nossa frente. Eu reclamando do trânsito, das vans, do transporte ilegal da cidade, da filha que não quis vir conosco, do ar condicionado, da alergia.

A paisagem? Traseira de caminhão, carros e miríades de vendedores ambulantes de biscoito Globo. De pitoresco vimos, sentado no guard-rail, um homem sério apoiado em uma caixa de isopor fazendo pose de “O pensador”. Cheguei a sorrir ao perceber, pelo retrovisor, um rapaz que costurava o congestionamento com espantosa velocidade para aquelas condições –  estaria ele de moto ou bicicleta? – entre a massa de ônibus e caminhões. Quando se aproximou é que vi: ele usava patins. Prudentemente estava de capacete.  Devia ter filmado isso. Mas a camera ficou sem bateria. Enfim.

A solução foi dar meia volta e retornar. Mas cadê o retorno? Para achar algum, lá se foram mais 2 horas a 20 km/ hora. Conseguimos achar o retorno depois de 40 minutos e umas bimbocas escuras. Final da novela: voltamos a casa lá pela meia noite. Meio tanque de gasolina, seis horas, fome e sede em um grande passeio a lugar nenhum, na antevéspera do dia com maior apelo emocional do mercado. Mas a alma não perdoa: sonhei a noite toda com transito, atrasos, carros velhos.

Manhã seguinte, acordo calminha, a alma lavada. Até rio de mim.  Quer saber? Vou me ajeitar por aqui mesmo, colocar os pés para cima e descansar. Nesse final de semana, nada de horas no fogão e comidinha caseira, só restaurante. Não arrumarei as camas nem tirarei as roupas do varal. Acordarei mais um dia sem relógio. Afinal, também sou mãe, como todas as demais: linda e vocacionada, perfeita e imperfeita, oscilando entre a abnegação absoluta e a irritação suprema, um poço de contradições e fonte inesgotável de amor incondicional.

Talvez exista um motivo para eu não saber lidar com as frustrações, ser tão limitada, eternamente uma mãe-aprendiz. Pétala macia e cheirosa, afagos e cafunés, e, claro, um pouco de espinhos, chatices, broncas, essa coisa de pegar no pé. Talvez seja esse o motivo das rosas.

HBP, 07/05/2011

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One Comment em “Porque mães ganham rosas”

  1. Mario Says:

    Os budistas dizem, e o John Lennon parafreaseou em uma de suas músicas:”…vida é o que acontece conosco quando estamos fazendo outros planos.” Acho que pela primeira vez vou ter que discordar de voce. Eu acho que voce soube lidar com a frustracao de não poder realizar o que tinha planejado. Logico que nao foi de imediado (aí nao seria frustração) mas voce nao deixou que esse sentimento (mesmo que com a ajuda do seu inconsciente) nao durasse mais do que uma noite!:)
    Parece que a vida quer constantemente nos colocar a prova, ensinando-nos a ser mais tolerantes conosco para sermos mais tolerantes com os outros. E apesar de tudo o que queremos ser, ainda somos humanos e limitados, mesmo ja’ sendo a pessoa mais linda, a mae mais abnegada e maravilhosa, uma petala macia e cheirosa, afagos e cafunes, como voce ja’ e’! Feliz Dias Das Maes!! Voce nao so’ merece rosas hojes, ou todos os dias, voce e’ simplesmente a rosa mais linda do mundo! Beijos!:)


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