O grão da voz

photo by Dave Martin

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Na época da pediatria, a gente brincava que a culpa tinha surgido assim: a primeira mãe não teve leite para amamentar o bebê, e ele chorou a noite inteira.

Não, não. A culpa surgiu no mundo quando a primeira mãe deu uma bronca no menino, ele ficou com os olhinhos molhados e o nariz vermelho.  Aí o coração da mãe se apertou.

Fantasias maternais à parte, acho o tema da culpa fascinante.  Porque, de alguma forma ou intensidade, todo mundo já experimentou.  As mães, como citei, são campeãs.

Uma das melhores análises sobre o sentimento de culpa é a do psiquiatra suíço Paul Tornier.  Ele diferencia, por exemplo, “culpa falsa e culpa real”, o que foi uma grande sacada na avaliação do fenômeno, colocando como antídoto à corrosão deste sentimento a libertação de tabus através da Graça.  É o choque entre   “a mentalidade infantil, moralista, formalista, a dos tabus, e a chamada mentalidade profética…aquela que simplesmente sopra um vento forte de liberdade sobre os medos humanos.”

Por que as pessoas se acusam mútua e constantemente?  Por que o ser humano precisa sempre se comparar a outro?  Por que a angústia diante da dificuldade na administração do tempo, na negligência com minhas amizades,  ou diante da correspondência, ou da poeira que se acumula pela casa?

Livre de julgamentos humanos é possível para alguém começar a descobrir suas convicções reais, sua individualidade, a harmonia consigo mesmo e sua vocação interior. A verdadeira culpa, segundo Tournier, é você não ousar ser você mesmo.

Simples, não simplista.

Mudanças genuínas na vida interna deviam começar pequenas, muito pequenas. Será que deviam ser como um ato mágico, fantástico?  Mudanças para valer são como um pequeno grão.  Semente boa tem jeito de auto-aceitação e conhecimento profundo dos próprios limites, sem fantasias ou projeções.

Esse grãozinho, quando germinar, vai ser a voz da sua alma, sua árvore, raiz e copa.  O que se pensa e se pratica em nome da crença pessoal é a marca da personalidade, do jeito, do fruto, do cheiro, da flor, da sombra. Herança e marca? Graça, não culpa, é assim que quero ser reconhecida: pelo grão da voz.

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