E por acaso chovia.

'Our boy watching the rain outside', por Andres L.

‘Our boy watching the rain outside’, por Andres L.

“Quem é o maior? Chamando uma criança, colocou-a no meio deles,e disse: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus.”

(Evangelho de Mateus)


Tenho uma teoria de que o ser humano nasce sábio e envelhece emburrecendo, emburrecendo até morrer sem certeza de coisa alguma. A prova disso, em nossa família, residia nas crianças – especialmente as meninas, notórias pela precoce auto-estima – que costumavam proclamar frases de efeito tais como:“Eu não sei tudo, mas sei quase tudo ! ou: “Mas você já se esqueceu que tenho qua-tro anos, passei pelo Berçário, pelo Jardim 1, pelo Jardim 2 e aprendi isso faz tempo?”

No lado oposto, o vovô, já a caminho dos 100 anos e sentado em meio aos velhos livros, dizia: Pode perguntar sobre qualquer assunto: Medicina, Psicologia, História, Teologia. Talvez eu saiba onde encontrar as respostas.” Sorria, apontando seus companheiros de tinta e papel.

Imagino que não seja fácil viver como andarilho em um lugar onde a chuva e a vida apareçam somente alguns dias por ano. A literatura universal recorre frequentemente a situações limítrofes onde um Fabiano e uma Sinhá Vitóriagracilianamentre o sol e o pó, um Michael K. perambula em um país africano arruinado ou o pequeno Muidinga com o velho Tuahir caminham, sedentos e famintos, entre as ruínas de uma guerra civil.

O ponto comum dessas narrativas é o momento em que o protagonista, exaurido de forças e idéias, acaba se rendendo ao cansaço e admite, pela primeira vez, que não há mais o que fazer. Tudo o que acumulou de experiência e sabedorias até aquele instante, de nada lhe servirá. Sim, em certo momento ele fora sábio, mas o tempo o tornou mais ignorante, temente, pequeno. A chuva não virá, a despeito dos seus esforços. Então ele se deita em algum esconderijo e dorme. Lá fora, sem ainda que o saiba, pingos caem das nuvens. Ele não sabe – mas saberá – que por acaso chovia.

Também não é fácil peregrinar, dia a dia, entre pessoas cuja memória afetiva é um deserto, tão ressecado quanto a sua capacidade de empatia e compaixão. Às vezes, o refúgio para tamanha aridez é se destituir dos elementos que o conectem a esse mundo, trocando-o por outro – miúdo, raso e imaginário, como o que habita o interior de uma novela televisiva, ou aquele que prefere viver a vida alheia a sua própria. Às vezes o refúgio pode ser o resgate de antigos ideais aplicados a novos projetos de vida.

Um dia pode acontecer que a fé suma, sem aviso, de repente. Sequer há garantia de que ideais enraizados e antigos nos sustentem nesse surpreendente vácuo. Nem tudo será óbvio, nem sempre seremos senhores absolutos de si e daquilo que supúnhamos juntar feito economias, nomeando-as de conhecimento, experiência ou unção.

Ao pensarmos que a solução sairia rapidamente do arquivo das respostas prontas, ela simplesmente desaparece. A facilidade com que opinamos sobre outros inexiste para nós mesmos. Nem mesmo a fé, nem a esperança, nem a consciência parecem ser guias confiáveis. É hora de admitir: “não sei o que fazer, não sei o que pensar. Não sei.”

Nesse exato ponto, quando a confissão “vivi tanto para não saber mais nada” coroa nossa impotência, é melhor deitar em algum esconderijo e dormir, em falso ócio, como fazíamos sabiamente e sem escolha – apenas por necessidade – em nossa infância, em nossos primeiros dias de vida.  

Lá fora, sem que ainda percebamos, pingos começam a cair das nuvens. Ainda não sabemos – mas saberemos – que por acaso já chovia.      

HBP, 13/07/2011 

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2 Comentários em “E por acaso chovia.”


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