Lugares

“Não tendo os homens podido curar a morte, a miséria, a ignorância, resolveram, para ficar felizes, não mais pensar nisso.”

Blaise Pascal

Existem lugares curiosos e bizarros pelo planeta. Contam de um estranho lugar – um país – cujo povo assume comportamentos tão espantosos sobre os quais observadores e jornalistas de outras partes do mundo têm feito invariavelmente as mesmas perguntas:  “Será que os cidadãos não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de seus políticos? Será que não se importam com os ladrões e sabotadores que estão nas três esferas de governo? Será mesmo esse povo naturalmente pacífico, contentando-se com o pouco que tem? Por que seus estudantes e trabalhadores não vão às ruas contra a corrupção? Que lugar é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção? *

Não ouso responder estas questões complexas, mas desconfio que um lugar onde as pessoas achem normal que automóveis estacionem livremente sobre as calçadas e os pedestres caminhem na rua, possua tampouco o tipo de cidadão pequeno e consciente que se indigne pela corrupção institucional, municipal, estadual ou federal. Leis existem, mas podem ser adaptadas informalmente, segundo a conveniência de cada um.

Há uma espécie de epidemia moral corroendo, lenta e insidiosamente, os valores das pessoas, infiltrando-se  em segmentos sociais, empresas, corporações.  Por exemplo, se um motorista conseguir estacionar em lugar público e permitido é extorquido a pagar uma taxa para não ter seu carro danificado, como pintura riscada ou pneus furados.  O espaço é público, mas pode ser ‘apropriado’ para negócios de proteção particulares.  Isso não se questiona: é  padrão.

Dizem que condutores de motocicletas transitam como bem entendem, avançando sinais vermelhos, na contra mão e fazendo atalho pelas calçadas, expulsando os transeuntes com a buzina. Também há rumores que existam pontos de “mototáxi” ilegais em determinados territórios, digo, bairros. Quem os utiliza paga uma tarifa igual ao transporte público, com a diferença que não são fornecidos capacete, seguro ou proteção.

Guardas de trânsito jamais interferem na circulação desse transporte (mesmo a pedido da população) alegando que a maioria das motos é de procedência duvidosa ( i.e., roubadas, ou confiscadas, ou sabe-se lá) e que pertencem a “cooperativas informais de policiais civis ou militares”. Curioso.

Aplicaram nessas estranhas cidades, como em outros lugares do mundo, a Lei Seca. Mas lá ela é invariavelmente desrespeitada, mas democraticamente: seja  ex- governador, um político, jogador de futebol e até um cidadão chinfrim. Há opção: a pessoa pode recusar a se sujeitar ao teste do bafômetro. É muito comum ouvir-se de pais de família (da classe média deles) à saída de restaurantes  gabarem-se diante dos filhos: “Lei Seca – nada que não se ajeite.” Ou seja, é um lugar onde qualquer um – especialmente se puder bancar um advogado – faz o que bem entender, exista ou não Lei para isso.

Ofendeu alguém? Dá-se um jeito.  Acidentou e prejudicou um terceiro? Matou? Dá-se um jeito também. Nada que uma boa fiança e alguns contatos pessoais não contornem.

Triste lugar, imagino, onde corre a cantilena:  “- Se o Governo ( e instituições) transgride, também eu, cidadão comum, tenho o “direito” de transgredir!”

Não sei.  Acho que esse lugar deva ser o Chade, ou Mianmar, ou o Burundi, ou uma pobre neo república russa. Coitados deles.  Quanto a você,  não se preocupe. Estão bem longe daqui.

(*perguntas elaboradas pelo jornalista Juan Arias, correspondente  internacional do El País)

HBP, 20/07/2011

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6 Comentários em “Lugares”

  1. Sean Says:

    Deve ter enfrentado alguma coisa, né? Esta cansada da bagunça? Faz parte Helena. Nada no Brasil é facil. Tudo é dificil.

  2. Marcia Says:

    Tudo isso é tão verdadeiro e tão triste!
    Bj grande para vc.

  3. denise Says:

    Helena querida,
    um texto corajoso, admirável! E essa questionamente é o meu também e escandaliza-me demais:

    “Será que os cidadãos não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de seus políticos? Será que não se importam com os ladrões e sabotadores que estão nas três esferas de governo? Será mesmo esse povo naturalmente pacífico, contentando-se com o pouco que tem? Por que seus estudantes e trabalhadores não vão às ruas contra a corrupção? Que lugar é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção? *

    Não há marcha contra a corrupção porque ela está inserida na vida diária de cada um de nós, em pequenas ou grandes doses, muitas das vezes dissimuladas, envolvidas em boas aparências ou justificativas. Como nas pequenas mentiras, pequenos agrados (subornos), nos jeitinhos aqui e acolá, nas omissões, nas vistas grossas que fazemos diante da maldade ou do problema do outro que é não da nossa conta (já temos os nossos que nos tomam), no medo que nos assola diante de uma impunidade que nos apavora e naquele de perder ou dividir o que já conquistamos.E até mesmo diante da perplexidade, e repúdio, dos que nos rodeia quando nos posicionamos contra o que nos agride e fere o simples pensamento. Há tantos outros mais.
    E aqui me insiro nesse contexto contra o qual tento lutar todos os dias quando vou a luta minha de cada dia.

    Como nos ilumina o doce Apóstolo João
    “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e não há verdade em nós.”

    Há gente demais filosofando e muito pouco nos iluminando, verdadeiramente.

    O homem já não se reconhece e absorve e se envolve com tudo que lhe oferecem com medo de ficar a sós consigo mesmo e perceber que há dentro de si um buraco que nao sabe como cuidar, sozinho.

    E quando te leio sinto alegria. Um feixe de luz.

    Bela reflexão!

    (Pela terceira vez essa semana me encontro dialogando com pessoas sobre a corrupção. Uma advogada, minha terapeuta da mão e tu. Mulheres.
    Bons sinais!)
    Ah, eu também amo meu Brasil. E sinto uma dor quando ouço alguem dizer: não sou eu que vou consertar o Brasil, para justificar sua omissão.
    bjs

    • denise Says:

      “Depois renovar a mente e o coração todos os dias, buscando as referências somente no que é Absoluto, creio.
      Não é fácil, mas também não é impossível. Por isso é que nos encontramos, discutimos, comungamos na vontade de fazer diferença no mundo.”

      Lindo demais (tudo) isso!

      Obrigada, querida, pelo carinho da atenção e um beijo!


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