Áster

Crédito da foto: Rainbow Eleven

Crédito da foto: Rainbow Eleven

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

…Tu sabes como é grande o mundo…

CDA

Luiz Fernando Verissimo, em uma crônica muito bonitinha, levantou a questão sobre o que teria a ver a teoria revisitada dos buracos negros do Stephen Hawking com o nosso café com leite de todas as manhãs. Em outras palavras, explica como histórias que nos soam incrivelmente longínquas acabam por impactar a nossa rotina e, por tabela, nossa existência.

Também admiro Lya Luft, que fez considerações no delicado texto “A Dor do Mundo”. E me comoveu às lágrimas por conseguir traduzir,com perfeição, o espanto que me assola em tantos dias.

Cá eu, que não sou nem uma nem outro, e muitíssimo menos influente e competente que ambos juntos e divididos por cem, uno-me humilde a sua voz de inconformismo. Não passo de anônima observadora da vida (talvez figurante em pequenas cenas; eventual protagonista nos núcleos secundários) e demasiadamente humana, mas como me orgulho deles: Fernando e Lya.  Simples: nós três pertencemos a mesma sublime e desgraçada espécie; talvez a única que administre simultaneamente suas contradições e o saldo final: a dor das misérias e grandezas. Mas, voltando ao mundo…

…O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar…. (Drummond)

Então por que estou falando sobre a Lya Luft, o Luis Fernando e ainda citando o Drummond? O que eles têm a ver comigo? Estaria me apropriando da fama deles para marketing pessoal?

Nada disso. Falei dessa turma para lembrar de um sentimento antigo, quase primitivo e pouco expresso. Da mesma forma que a gente sente “vergonha alheia” por testemunhar um constrangimento, existe um tipo de “orgulho alheio” por pertencer a mesma espécie desses maravilhosos aí.

É como se isso redimisse da tristeza , da perplexidade sobre essa fase tão ruim da Humanidade.  Eles: a Lya, o Luis, o Drummond  são o contraponto, uma esperança, âncora, um rasgo de generosidade de Deus mostrando aos outros homens: nem tudo está perdido.

Minha lista de orgulho alheio é grande. Quando ouvi Pat Metheny na guitarra pela primeira vez, senti isso, o tal orgulho por ser da espécie dele. Ele alcançou tal liberdade na expressão musical, e eu, anos-luz (aquém) de sua capacidade, podia usufruir integralmente da sua realização.

O mesmo quando vejo uma criança vibrando com a formiguinha na calçada carregando a folha gigante. Vejo e me identifico: sinto o mesmíssimo entusiasmo da descoberta.

Sinto orgulho alheio quando leio Oscar Wilde descrevendo o processo de transformação psicológica de suas personagens. Se ele fosse somente genial com as palavras, respeitosamente eu me afastaria. Mas ouso e chego mais perto – é a nossa “familiaridade de espécie” : “Ahá! E não é que conseguiu dizer o que eu mesma diria, só que bem melhor?Esse é o meu irmão na terra dos homens!”. 

Orgulho alheio e cheio de serenidade, desprendido, libertador. Quando vejo meus filhos fazendo coisas que jamais conseguirei fazer. Quando, embasbacada, admirei cada gesto e modo de uma professora ou professor (não porque despejasse informações corretas – isso era o mínimo. Mas aquele que, de acordo com a etimologia,  era um verdadeiro techen, do inglês medieval: demonstrar, apontar a direção, indicar como se faz ). Orgulho de ‘mosquitinho’ (Gypsophila paniculata)  ou de uma Áster – aquela florzinha boba, pequena, sempre coadjuvante nos buquês de rosas.

É isso. Pensar grande na vida tem o lado bom, mas não se pode brilhar  o tempo todo, ou imaginar-se eternamente sob holofotes e atenções. Para nosso próprio bem estar e sanidade, convém lembrar que, diante da imensidão do Universo, somos apenas poeira cósmica, da bem diminuta. Ou uma Áster.

HBP, 04/08/2011

Licença Creative Commons

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4 Comentários em “Áster”

  1. Sean McGown Says:

    Muito bem Helena.É tão importante não perder esperanza. Hoje em dia é tão facil olhar ao redor e ficar com desesperança. Há coisinhas que passam perto de nós todos os dias, com nenhum reparação.


  2. cumé qui eu aponho seu blógui lá no nosso?

    é tiatiz.wordpress.com ?

    bejuca


  3. […] fonte: Timilique! […]


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