Palavras, borboletas, lápis de cor

“Perhaps love is like a resting place.”

John Denver

O problema de ficar muito tempo sem escrever é esse: as palavras, antes fugidias como borboletas no jardim – acabam por desaparecer de vez.

Teimosa, tentei recuperá-las na beleza de um texto de Oscar Wilde. Li The Happy Prince  (O Príncipe Feliz) e chorei ao final, agradecendo a força desse conto notável escrito em 1888. Comovida com a história, porém, não encontrei as palavras, ainda “borboleteantes“.

Então recebo um e-mail onde me perguntam sobre a experiência de sofrimento pessoal relacionada a um divórcio inevitável, já concretizado. Indagam se quero dizer algo a respeito. Não sei se me pedem um conselho. Seria uma pergunta retórica?

As palavras surgem, talvez pela premência da solicitação, talvez porque eu esteja longe de quem me escreve. Farejo por trás do e-mail uma dúvida existencial, quase religiosa.

Falar e escrever sobre dores de alma se parece muito quando explico determinada doença a um paciente. Seria muito mais fácil discorrer a respeito de um eletrodoméstico recém adquirido, com instruções precisas de funcionamento e modo de usar.

Não existe o tal pacote de respostas prontas. Também não é como escrever ficção. É falar de vida, gente de carne e osso, de valores, dores, de projetos e sonhos desfeitos, de fatos dentro e fora do nosso controle. Há pessoas diferentes  envolvidas, com as mais variadas intenções. Talvez haja filhos. Se sim, amados intensamente. Há pessoas que passam a ser odiadas, e que mais tarde precisarão (precisarão?) ser perdoadas.

Embora soe um tanto clichê, junto-me aos que não acreditam em “vilões” e “mocinhos” nas histórias reais  de separações e desentendimentos. Para a coisa chegar no ponto em que chegou, não foi de um um dia para outro, de repente; nem foi obra de uma pessoa só. Seria simplista demais, fácil demais culpar apenas uma pessoa. Já no gancho da religião, seria mais fácil então culpar… o Diabo e… pronto!

Aliás, se você – e  agora me dirijo a você, amigo-leitor – acredita no Diabo, saiba que “ele” provavelmente não tem trabalho algum em situações conflituosas. No máximo se diverte, assistindo de camarote a atuação dos verdadeiros protagonistas: a vaidade, o orgulho, a autopiedade, a mentira, as ilusões, o auto-vitimismo, a ganância,a preocupacão com a aparência, com o que os outros pensam, a competição, a comparação, a inveja… produtos genuinamente humanos!

Comuns e humanos são também são alguns sentimentos decorrentes da vivência de sofrimentos e pesares, assim como uma espécie de vergonha ou percepção de fracasso perante outros e perante si mesmo. Pode haver desesperança com o que o cerca e com a eventual chance de voltar a ser minimamente feliz no futuro.

Quanto aos filhos:
Eles sofrem sim, talvez mais do que desejariamos, talvez bem menos do que imaginamos. Podem acontecer algumas mudancas de comportamento (rendimento escolar, alimentação, agressividade, depressão, etc), que de certa forma atuam como válvulas de escape. Sinto-me inclinada a recomendar apoio profissional básico para eles, como um psicólogo compassivo e experiente que possa simplesmente ouvi-los. Ou seja, é preciso que as crianças  sintam-se minimamente ouvidas e, mais importante, por alguém que saibam ser imparcial no conflito familiar. Não se preocupe – não virarão bandidos ou traficantes!

Mais uma coisa. Talvez a experiência humana que mais se assemelhe ao divórcio em termos emocionais seja o luto. Tem uma hora em que você, que me escreveu tão desesperadamente, vai precisar parar de negar ou barganhar com os fatos. Vai acontecer de acordar muitas vezes com a sensação de que o verdadeiro pesadelo é quando está acordado. Pode ser que você queira dormir muito, mais do que realmente tem necessidade.  Talvez você reveja imagens e closes involuntários em sua mente, e remoa situações e diálogos ad nauseum. Aí vai aprender a jogar coisas fora, a chorar fora de hora, a falar sozinho e a reclamar dessa confusão toda com … Deus (se você acredita em Deus, claro)!

Pois não é com Ele que a gente vai ter que acertar as coisas no finalzinho de tudo? E quando eu digo : “acertar as coisas” não digo “acertar contas”. Quitar tal dívida seria completamente impossível.

Mas acertar como descobrir (Deus), achar ao certo (Deus), pôr certo (em Deus), harmonizar (com Deus); dar no alvo, atingir, coincidir com Deus.

Até aqui, só divagações. Vai então meu único conselho. Descanse a mente, descanse o corpo, descanse das dores. Se eu fosse você, ouviria mais Música. Dançaria sozinho. Releria coisas boas. Arriscaria alguma poesia. Compraria uma caixa de lápis de cor e pintaria, feito criança, um desenho qualquer. Às vezes Deus reorganiza e re-harmoniza a nossa vida “pelas beiradas”.

Se é que você acredita em Deus.

Licença Creative Commons
This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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2 Comentários em “Palavras, borboletas, lápis de cor”


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  2. denise Says:

    Estava longe das palavras há tempos e fico feliz que elas tenham lhe visitado porque fui agraciada com um estonteante e ao mesmo tempo sincero e norteador texto que me mais uma vez contentou-me a alma.

    Oh, não fique tanto tempo longe das palavras. Elas precisam da sua singela, generosa e sábia alma para encantar de novo o que outrora achava-se desencantado, como talvez o coração de quem buscou em ti uma palavra.

    Os jardins agradecem pelas borboletas que voltam.

    beijos
    denise


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