Meu pé de manjericão

A música perdeu seus elementos espirituais. O poder da música deixou de ser o espírito para ser o entretenimento. A música conduz a outros planos e os músicos de hoje não percebem o esse poder. Isso tem a ver com o coração das pessoas. Estão cada dia mais duras, ligadas ao dinheiro. A tecnologia também atrapalha. A maneira como ouvimos música hoje, no MP3, no iPod, nos torna impacientes, incapazes de apreciar. Não compramos um álbum e, com reverência, nos dedicamos a escutá-lo. A música hoje serve apenas como trilha sonora de fundo. E nada mais.

Bobby McFerrin

Enquanto o tempo/Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora/Vou na valsa
A vida é tão rara…
Lenine

Nos fundos do jardim do luxuoso Grand Hotel de Macnak Island, ao norte de Michigan, há uma pequena horta de temperos. Fileiras de manjericão, sálvia, hortelã, salsinha e pimentas se alinham em paralelas na terra escura da ilha, exalando um aroma delicioso. Longe de fazer parte das atrações turísticas locais,  a horta serve para abastecer de condimentos a cozinha do famoso Main Dining Room.

Ao voltarmos do passeio, compramos no supermercado perto de casa um vasinho de manjericão. O vaso vinha com instruções na etiqueta: ‘molhar uma vez ao dia e deixar em local iluminado’. Facílimo.

Por 2 dias o manjericão continuou viçoso e feliz.   Então esquecemos de colocá-lo sob a luz, ele encurvou.  Depois molhamos demais e depois, de menos. Tiramos umas folhas com tesoura para temperarmos o spaghetti. Ele murchou e algumas folhas amarelaram. Na pressa, esquecemos de pesquisar como se lidava de verdade com a plantinha.  Falta de paciência.

Concluí que não era tão simples como parecia.  O manjericão gosta de pelo menos quatro horas diárias de sol, assim como deve ser molhado somente para manter o solo úmido, sem exageros. Com clima frio ou chuvoso deve ser diminuida a quantidade de água. Para adubar, duas colheres de sopa bem cheias de húmus de minhoca a cada 40 dias. Finalmente, o modo certo de colher é como se desse um beliscão nas folhas, retirando as ponteiras dos galhos. Isso estimula a saída de galhos laterais e o manjericão fica mais cheinho e sempre com novas brotações.

Não adianta impacientar-se: é necessário que a planta se desenvolva bem antes de iniciar a colheita das folhas. Além disso, as flores sempre devem ser cortadas para manter a planta jovem por mais tempo e preservar o sabor das folhas mais acentuado.  A explicação é que as flores funcionam como um dreno nas plantas, ou seja, consomem muita energia.

Já vi que a pressa e excessos não combinam com o meu manjericão. Da mesma forma que ele, há também outras coisas, pessoas e  situações que diariamente me relembram as virtudes da paciência e de esperar. Em tempos de caixa eletrônico, café e leite instantâneos, compras online, cesarianas pré-agendadas, microondas, conexões super velozes, relacionamentos descartáveis e comida fast food, agradeço ao meu mixuruco  pé de manjericão.  Lá da cozinha chega o lembrete: a paciência, o cuidado, a delicadeza e calma são ainda são essenciais quando se trata de Vida.

HBP, 07/10/2011

Licença Creative Commons
This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License.
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4 Comentários em “Meu pé de manjericão”

  1. Beto Says:

    Pra num achar culpas, afinal, somos todos um só, assim como regar o manjericão, bom também é sentar numa pedra isolada em meio a algum nada encontrado, e olhar pro infinito tentando entender o que ela, na sua imobilidade que já foi jorro de lava, movimento e explosão, está nos dizendo. Pedras também cantam e quem as ouve encontra sua história, né?

    Bejuca.


  2. O tempo… sempre o tempo. Como andamos com pressa ultimamente, não? É uma luta diária. Ou fazemos as pazes com Cronos ou vamos perdendo de vista as paisagens pelo caminho como diria Rubem Alves. Lindo texto. Bjs


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