Quando surgem novas palavras

New York buildings - Crédito: Reto Fetz

New York buildings – Crédito: Reto Fetz

 Para situações novas, palavras novas.  

Elas são os signos, as defesas, os projetos.

(Jean-Paul Betbèze)

Valéria, 4 anos e vaidosa desde sempre, foi dormir com a vovó porque adora os cafunés que ela faz. Aí falou baixinho: “Vovó, você é tão carinhosa…”  Vovó se derreteu e replicou: “E você, minha netinha, o que você é?”

“Ah…” (Valéria muda o tom de voz)   “…eu sou batonzeira, esmalteira e maquiadeira!”

Não só as crianças inventam palavras, embora elas sejam as campeãs na modalidade. Todos inventam. Às vezes por capricho, necessidade literária, simplificação, criatividade ou desconhecimento. Uns são mesmo geniais, outros infelizes. Uns inventam mais e outros menos.

Inventamos palavras quando as que existem já não bastam. Talvez sintamos necessidade de escolher os termos que julgamos mais adequados para expressar determinado pensamento, ainda que isso inclua evocar gírias, vocábulos estrangeiros, expressões regionais e até mesmo formas condenadas pela língua culta padrão.  Ainda que as palavras dos homens nos separem desde a Torre de Babel, volta e meia procuram harmonizar-se, preferindo a convergência  à colisão.

As palavras são encantamento. Haja vista a quantidade de textos a elas dedicados.  Só aqui me lembro de crônicas de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Luis Fernando Verissimo e Rubem Braga. Outros preferem neologismos, como fizeram Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Oliver Wendell Holmes, Santos Dumont, Sir Francis Galton , Goethe,Thomas Huxley, John W. Campbell, William Gibson, Montaigne, Gelett Burgess e Mia Couto (parte desta lista me foi lembrada pelo jornalista Braulio Tavares).

Às vezes surgem diante de nós palavras novas mas que já são velhas, velhas.  É que antes faziam parte da nossa coleção de ignorâncias.  Como por exemplo, a palavra xibolete. (Calma, também pensei que fosse palavrão). Felizmente, segundo o professor Claudio Moreno, significa apenas “um tipo de senha lingüística que identifica os componentes de uma comunidade, assim como a impressão digital identifica o indivíduo… (segue exemplo) …Ora, talvez o xibolete mais evidente do Português seja exatamente o ditongo ão, como já tinha notado Monteiro Lobato no seu Emília no País da Gramática (aliás, não por acaso, foi exatamente esse o ditonguinho que o Visconde de Sabugosa seqüestrou e que acabou sendo salvo por artes  da astuciosa boneca).”  Xibolete, pois.

Há palavras velhas que chamo de “velhas-novas”. São usadas com tanta frequência que se esquece o sentido original, cujo significado é resgatado pela Etimologia.

Uma vez me apaixonei pela palavra amador. Designava uma “pessoa que faz determinada atividade não por oficio, técnica ou conhecimento, mas por amor’. Foi uma revelação. Ou seja, já não bastava ser profissional – tinha que ser amadora! Não bastava praticar uma arte ou ciência com destreza – tinha que ser agradável, demonstrar delicadeza e simpatia em falas, gestos e comportamentos. Tinha de estar enamorada. Tinha que amar.  Foi uma grande motivação e inspiração para a vida.

Quando novas palavras surgem, a mente começa a caminhar rapidamente por ruas de alguma cidade imaginária. Embora os jardins, as grades das janelas e casas pareçam familiares, sabemos que nunca estivemos lá antes.  A surpresa nos obrigará a reaprender caminhos. Palavras novas desafiam e levam a uma deliciosa tensão, a mesma quando visitamos pontos turísticos e observamos simultaneamente os velhos cartões postais do lugar.  A pracinha é a mesma, mas na foto antiga há o chafariz no lugar da rampa de skate. O toldo da mercearia no lugar do arranha-céu. Crianças brincando na rua ao invés da passarela de vidro. As palavras são para ser assim, velhas e novas: conforto passageiro, mas sem acomodação.

HBP, 16/10/2011

Licença Creative Commons
This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License.
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2 Comentários em “Quando surgem novas palavras”

  1. denise Says:

    “Uma vez, recém formada no curso de Medicina, me apaixonei pela palavra amador. Não simplesmente o que eu conhecia como o antônimo de profissional, mas a que designava a “ pessoa que faz determinada atividade não por oficio, técnica ou conhecimento, mas por amor’. Foi uma revelação. Ou seja, já não bastava ser profissional – tinha que ser amadora! Não bastava praticar uma arte ou ciência com destreza – tinha que ser agradável, demonstrar delicadeza e simpatia em falas, gestos e comportamentos. Tinha de estar enamorada. Tinha que amar. Foi uma grande motivação e inspiração para vida toda.”

    Sou uma amadora da sua arte de transformar acontecimentos a princípio simples, em sensíveis, criativas, belas e prazerosas composições literárias, que tanto fala ao coração como ao intelecto.

    Adoráveis:

    “…eu sou batonzeira, esmalteira e maquiadeira!”

    Dedicar um pouco mais de tempo para estar com as criancinhas e ser acarinhada com essa deslumbrante, inspiradora e deliciosa inocência, é o que vou fazer com mais frequência depois de passar por aqui. Pois as vezes dedicamos tanto tempo aos chamados grandes, sejam pessoas, livros e acontecimentos ( e outros mais) e relegamos a um tempo fugidio e inexpressivo essa pura Graça de estar entre os pequeninos, como Jesus nos ensinou!🙂

    Te ler é sempre ser visitada por um esclarecedor e agradável contentamento!
    beijo
    denise

  2. Zé Wilson Says:

    Helena, a Denise tem razão…sabe aquelas saídas furtivas para um cafezinho…uma rajada de ar fresco…uma arranjada nas idéias; com as quais nos presenteamos vez em quando em meio às exaustivas reuniões que parecem eternas ? Pois é, o TIMILIQUE passou a ser o meu cantinho para essas confidências pessoais. Passou a ser o meu ‘gengibre’ japones que renova o meu paladar ‘mental’ entre um suchi ‘mental’ e outro.
    Obrigado pelas tantas informações gostosas que às vezes me buscam lá na infância e me trazem à realidade e outras vezes me tiram da realidade e me voltam pra lá . rsrss
    bjo gde no coração ‘doceis’.


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