Sebastiana

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Rio de Janeiro, outubro de 2011. De volta ao Brasil, me disponho a comprar “uma Sebastiana”  para as demandas da casa. Explico: Sebastiana nº 5 – ou simplesmente Sebastiana – é  nome de vassoura, mais precisamente do modelo 0011 da vassoura piaçava fabricada pela tradicional empresa J. Paineiras, localizada no bairro de Pendotiba, em Niterói.  Após andanças pelas redondezas, finalmente a encontro.

Na volta, passo em frente ao salão de cabeleireiros e resolvo experimentar um novo penteado.  Aguardando na recepção, bastam 20 minutos diante da tela da TV para me atualizar: detalhes sórdidos sobre a captura e execução de um ex ditador; um punhado de acidentes automobilisticos fatais ocorridos hoje em SP e Rio de Janeiro; assaltos e violências variados no Brasil, China, Líbia e Austrália; o adolescente de 13 anos que atirou com revólver em um colega após discussão; a moça que apanhou na boate após recusar o beijo de um desconhecido.

Sinto uma espécie de vergonha pela baixeza da raça humana e meio que aturdida pergunto às paredes, sem qualquer originalidade, o que está acontecendo.

Também não sei qual náusea é pior: a crueza das notícias ou a impressão de que estou me acostumando a elas.  “Sempre foi assim”, afirmam os historiadores e seus livros, “o ser humano sempre matou, discriminou, oprimiu, sofreu e usou da violência. Talvez a diferença esteja nas ferramentas empregadas  para a barbárie.”

Mas será que as coisas realmente pioraram?

Mundo, janeiro de 1900.  Nesse ano, cerca de metade dos habitantes do globo nunca havia conversado com um médico nem entrado em um hospital.  Quem se sentisse doente procurava tratamentos caseiros a base de plantas ou do folclore.  As taxas de mortalidade de crianças e pessoas de meia-idade eram altíssimas. Além de calamidades naturais, a Ásia e África eram assoladas por fome severa e a malária matava 12 000 pessoas anualmente na Italia no início do século.

Mesmo após oficializada a abolição da escravatura em vários países, ela persistia em seus territórios, ainda que posteriormente adquiridos.  Na década de 20 a escravidão era comum na Etiópia; em 1950 havia meio milhão de escravos na Arábia Saudita.  Entre as pessoas livres as condições de vida também ficavam a desejar: no interior da Italia, por exemplo, uma familia típica de agricultores espremia-se na parte superior da casa enquanto os animais ficavam no térreo, compartilhando espaço com palha e esterco.

Europa e Ásia, novembro de 1945.  Somando-se o saldo da 2ª Guerra Ítalo-Etíope, 2ª Guerra Sino-Japonesa e a 2ª Guerra Mundial, foram mortos seis milhões de judeus , 20 milhões de russos, aproximadamente 30 milhões de chineses étnicos e outros milhões de filipinos, malaios, vietnamitas, cambojanos, indonésios e birmaneses, contabilizando mais de 70 milhões de vidas perdidas.

Se o presente parece pior que o passado, ou vice-versa, não me disponho a recomeçar pela milésima vez a disputa do copo que não se sabe se está meio cheio ou meio vazio.  Até porque uma criança consegue perceber o bem e o mal na natureza humana.  Mas concordo com o registro do célebre historiador inglês Lorde Acton – nascido John Emerich Edward Dalberg, em carta endereçada a um amigo:

“E, lembre-se, quando se tem uma concentração de poder em poucas mãos, freqüentemente homens com mentalidade de gangsters detêm o controle. A história provou isso. Todo o poder corrompe: o poder absoluto corrompe absolutamente.” E acrescentou melancolicamente: “Grandes homens quase sempre são homens maus”. 

De volta a Niterói, outubro de 2011.  Carrego a vassoura nova.  Ao invés de me dirigir às paredes e recorrer a vaguidades pseudocietíficas, brinco de imaginar e suspiro: o que o coração humano precisava mesmo … era de uma Sebastiana gigante para faxinar a maldade toda!

HBP, 26/10/2011

Licença Creative Commons
This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License.
Based on a work at tiatiz.wordpress.com.

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