Como nossos pais

Nunca sabemos exatamente do que estamos sendo cúmplices.

Luis Fernando Veríssimo, in A Compensação

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A gente ainda é criança e imagina que ao virar adulto vai ter resposta para tudo.  O adulto, em termos morais, é uma espécie de deus:  diz sim ou diz não ( embora pareça que muitas vezes diga mais  “nãos” do que “sins”).  Jamais parece ter dúvidas.

Tem adulto que, além dos nãos e dos sins,  didaticamente tenta explicar seus motivos, sempre bem fundamentados.  Tipo: não vou dar esmolas para esse aí porque ele vai usar o dinheiro para beber ou não vou comprar esse picolé porque você vai perder a fome para o almoço, ô peste.  Da mesma forma como pode ser: deixa eu achar um trocado para o coitado desse mendigo poder comer; ou tá, toma o picolé, meu amor, mas promete que vai almoçar tudinho. Com a cara mais impassível do mundo, o adulto tem todas as certezas.

Aí a criança fica com aquela ilusão, quando eu crescer vou saber como  fazer qualquer coisa, o que responder, quando dar esmolas, decidir isso ou aquilo.

Gente grande deveria ter cuidado na hora de dizer as coisas na frente de uma criança.  Até aproveitar a chance, repensar o que anda decidindo a esmo.  Criança é uma esponjinha, retém o que ouve e depois repete tudo o que aprende por aí, na escola, para as mães dos amiguinhos, até na igreja!

Essa coisa de exemplo merece atenção. Depois tem muito pai que fica bronqueado porque a criança não cumprimenta os outros, fala palavrão na frente da vovó, mostra a língua para o motorista do carro ao lado, chuta e morde os primos nos aniversários. Qual a surpresa, se depois que saem da festa de Natal da família, papai e mamãe reclamam dos presentes, da comida, e ainda falam mal da parentada toda?

Sei que não estou dizendo nenhuma novidade.  Até porque rapidamente a criança cresce, vira pré-adolescente, depois adolescente, e se dá conta de que o adulto não era aquilo que imaginava. Dezenas de defeitos são descobertos diariamente,  o adulto se metamorfoseia – sob o novo olhar – de ídolo a monstro, um verdadeiro incompetente diante da vida. Para piorar, adulto é muito chato quando está sem paciência, a criança pede para que ele repetir alguma coisa e ele responde: Ah, deixa pra lá!, assim, meio nervosinho.

Mas  há um ponto de exceção na despedida das ilusões infantis.  A referência moral continua. Adultos podem  ser desatualizados,  não entenderem nadica de computador, das novas tendências musicais, da moda, das novas gírias, o que é in ou out.  Ainda assim continuam como padrão ético para a geração seguinte, principalmente no que diz respeito a valores e limites.

Talvez seja esse o motivo porque cedo ou tarde nos flagramos reproduzindo gestos, hábitos e manias dos nossos antepassados. Quero acreditar que ainda é possível a gente quebrar aquele orgulho besta de adulto, ainda pedir perdão,  ainda reconsiderar quando necessário. Não que seja fácil. Acho que a gente pode acertar e errar, acertar e errar, repetidamente. Mas não se conformar. Senão corre o risco de ficar intolerante, rabugento de verdade. Conheço marmanjo que negaria isso com todas as forças, ao qual eu cantarolaria: “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.” 

Se você já ouviu essa música, sabe do que estou falando.  Mas se você pertence a segunda geração humana que nem imagina quem compôs  isso, informo que foi Belchior.

Quem?  Deixa pra lá.

HBP, 21/01/2012

Licença Creative Commons
This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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