Obsolescências e milagres

'Trash People' -  Esculturas conceituais do artista plástico HA Schult

Trash People –  Esculturas de HA Schult

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‘Existem dois modos de viver a vida: um é como se nada fosse milagre; o outro é como se tudo fosse um milagre.’     Albert Einstein

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Faz uns dias li um artigo sobre obsolescência programada.  Isso mesmo, você não leu ‘obscenidade’. Você não leu ‘adolescência’. E antes que alguém confunda as palavras, obsolescência é tornar algo obsoleto, ultrapassado. Ampliando o conceito, obsolescência programada é tornar algo intencionalmente inapropriado depois de certo tempo.

Aí fui pesquisar. Essa palavra esconde certas vilanias ao longo da história contemporânea.  Há muito eu desconfiava que meu aparelho de rádio de apenas 3 anos de idade havia sido “programado para morrer” desde a sua fabricação. Assim como o aspirador, que pifou aos 7 meses de uso, o compressor da geladeira derretido apó 6 anos, a luminária com o fio solto após 1 ano, a trava elétrica do carro que quebrou com 3 anos de idade. Da mesma forma abriu-se o solado fininho da sapatilha (2 meses de uso), acabou a carga do aparelho de ar condicionado (10 meses) e queimou-se a resistência do chuveiro elétrico, aos 6 meses.

Claro, isso não vem de hoje.  Na década de 20, um cartel que reunia fabricantes de todo o mundo decidiu que as lâmpadas teriam uma validade: 1.000 horas, embora a tecnologia da época já pudesse produzir lâmpadas mais duráveis. Assim, as empresas conseguiriam garantir que sempre haveria consumidores para seus produtos.  Na crise de 1929 o consumo caiu. E a obsolescência programada se consolidou como uma estratégia da indústria para retomar o crescimento.

A teoria sobre essa prática vem do economista Bernard London, que em 1932 publicou o livro The New Prosperity.  O primeiro capítulo deixa claro: “Acabando com a depressão através da obsolescência programada”. Ele sugere que, se as pessoas continuassem comprando, a indústria continuaria crescendo e todos teriam emprego. Só que com o passar do tempo, a indústria, particularmente a da tecnologia, começou a recorrer a práticas escusas para determinar a validade dos seus produtos. Além do mais, existe hoje a também chamada obsolescência por necessidade psicológica. Não é mais a substituição do produto pela a falta de atualização das suas funções, mas simplesmente por ter “passado da moda”.

De mera estratégia capitalista de mercado, a obsolescência programada torna a vida útil dos produtos cada vez mais curta.  Sem a possibilidade de atualizar o mesmo produto, a solução é jogá-lo no lixo. Montanhas de lixo que se acumulam em todas as cidades do planeta – incluindo os lixões ilegais onde pessoas também são exploradas procurando metais valiosos (ouro, prata, platina, paládio, cobre) ou perigosos (índio, cobalto,bismuto, selênio) em resíduos tecnológicos.

Onde quero chegar? Vez ou outra ressurgem, escondidas sob verniz pseudo científico, algumas dessas teorias sobre uma suposta obsolescência humana.  Insidiosamente tem se criado um senso comum que tenta racionalizar assim: as pessoas, as gestações,os fetos, os idosos, os relacionamentos pessoais também podem ser descartados quando apresentam defeitos ou se tornam inconvenientes. Com pessoas também começou-se a aplicar o “comprar, jogar fora, comprar”.

Conhece alguém que se sentiu ‘descartável’ após uma demissão?  O mundo corporativo já funciona assim. Conhece programas de midia e TV que ‘eliminam’ candidatos, mandando-os para o paredão, jogando-os no lixo?  A racionalidade econômica desconhece qualquer alternativa possível, e a racionalidade tecnocientífica tende a converter tudo em informação, inclusive os seres humanos, a natureza e a vida.

Particularmente, não acredito que haja nada de inevitável ou irreversível nesse processo. Acredito que somos mais que somente um punhado de moléculas biologicamente organizadas. Também somos seres espirituais. Seres éticos. Seres filosóficos. Seres religiosos.  Somos seres que amam a Arte e o transcendente.  Se a Humanidade acumulou tudo isso – espiritualidade, a Ética, a Filosofia, as religiões, a criatividade e as Artes – cabe a nós a tarefa de reafirmar o que somos, o que estamos nos tornando e o que queremos nos tornar.  Eis aí o milagre.

HBP, 28/01/2012

Licença Creative Commons
This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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One Comment em “Obsolescências e milagres”


  1. Excelente texto, parabéns!


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