Três Causos

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Se potete curare, curate; se non potete curare, calmate; se non potete calmare, consolate. (Se você puder curar, cure; se você não puder curar, alivie;se você não puder aliviar, console). 

(Frase atribuída ao médico italiano Augusto Murri, no Registro no Hospital San Giacomo em Roma)

“Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade. Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação. Respeitarei os segredos a mim confiados. Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão médica. Meus colegas serão meus irmãos. Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes. Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza. Faço estas promessas, solene e livremente, pela minha própria honra”.

( Da Declaração de Genebra da Associação Médica Mundial)   


Caso Um

Lá pelo ano de 2000 atendi no consultório uma garotinha bem magrinha, uns 4 anos de idade, cuja mãe se queixava que a pequena só tomava ‘mamadeira de nescau e Fandangos ‘ (= milho + sal + gordura invertida que o fabricante jura que não é trans, mas é inocentemente “vegetal”).

Com autorização da mãe solicitei exames de sangue para dosar os níveis de colesterol total e suas frações (limites em crianças: LDL <100 mg/dl e Colesterol total < 150mg/dl).  Os resultados da minha paciente eram espantosamente alarmantes: LDL em 220 mg/dl , estourando o Colesterol Total  em 280mg/ dl, confirmados após repetição do exame.

Como tratamento, propus: abstinência total do salgadinho por 90 dias, diminuição das mamadeiras, introdução urgente de “comida normal”, comprar um cachorrinho, passeios no parquinho/pracinha/play 45 min ao dia e diminuição do tempo de TV.  Foi uma longa negociação, pois a mãe (nivel universitário) só tinha vindo mesmo ao consultorio para a gente prescrever uma “vitamina para dar fome” e a garotinha ainda resistia em largar mao do tal salgadinho.  Mas a idéia de comprar o cachorrinho deu certo e elas toparam o tratamento.

Após 120 dias repetimos os exames que evidenciaram normalização das taxas bioquímicas + correção da anemia ferropriva + ganho de altura e de peso muscular + bochechas rosadas + melhor aproveitamento escolar + melhora do humor da familia. Não cheguei a instituir o controle de colesterol de rotina na prática pediátrica, mas a história me chamou a atenção sobre os novos rumos alimentares de nossas crianças e adolescentes.

Fico imaginando em que pé isso está agora, 12 anos depois.

Caso Dois

A história é triste mesmo.  Um colega acaba de me contar que recentemente atendeu um rapaz de pouco mais de 30 anos que só se alimentava de hamburguer e se hidratava com Coca-Cola.  Além de estar com síndrome metabólica, a homocisteína estava em incríveis 54! Também atendeu no ano passado uma menina de 8 anos com sinais de puberdade precoce, revertidos com correção alimentar. Esse colega esteve nos EUA ano passado e sentiu que a situação lá é para lá de crítica, mas por aqui estamos seguindo o mesmo caminho.

Caso Três

Então deixa eu aqui arrasar com a sua sexta-feira. Há uns bons anos eu estava em um encontro médico sobre obesidade e Síndrome Metabólica (no estilo “como eu  trato”) com um famoso endocrinologista do RJ.

O palestrante falou por quase duas horas somente sobre os critérios de definição de Síndrome Metabólica no consultório e as vantagens da indicação da cirurgia bariátrica, ate que o interrompi e pedi o microfone: “Alguém gostaria de falar um pouco sobre sua experiência clínica com relação ao incentivo de mudanças comportamentais dos seus pacientes? Vocês têm um critério mais rígido sobre o uso prolongado e indefinido de estatinas, bloqueadores, antagonistas, antidepressivos, antihipertensivos, hipoglicemiantes, fibratos e outros mais?”

Além das risadinhas da platéia, ainda ouvi (do palestrante): “Sinceramente, doutora, a gente não pode crer no pressuposto que o paciente vai  conseguir realmente mudar o estilo de vida. Na prática isso não acontece. Nós, médicos, temos que investir nos protocolos de medicação”. 

(Claro que a palestra era patrocinada pelo laboratório X, fabricante da estatina Y… )

E doutor encerrou: “Se a senhora acredita mesmo em mudança de comportamentos e hábitos, deveria ter feito Nutrição ou Psicologia, não Medicina.  Nós, médicos, tratamos os pacientes com ciência (sic), não com especulações.”

E eu, só no espanto.

Quem, de três milênios,
Não é capaz de se dar conta
Vive na ignorância, na sombra,
À mercê dos dias, do tempo.    
(Johann Wolfgang von Goethe)

HBP, 04/05/2012 

Licença Creative Commons

This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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2 Comentários em “Três Causos”

  1. debora egri Says:

    Adorei os “causos”. Ainda bem que contamos
    com pessoas seria na área de saúde.

  2. Virgínia de Paula Morandi Says:

    Gostei muito também dos “causos”. Que não deixemos de nos indignar com certas coisas absurdas. Sou assídua aqui no seu Blog; gosto das coisas que escreve, das suas postagens!


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