Minha borboleta

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Antes que eu completasse um ano de vida … ela chegou!  Foi meu primeiro presente de Páscoa, já que nasceu exatamente no domingo da ressurreição, e meu primeiro presente de aniversário – comemorado uma semana depois.

Não houve crises nem reino a dividir: na prática, éramos dois bebês para serem cuidados, alimentados e criados.

Sabe-se lá em que dia, num lampejo de consciência, percebi que era mais velha e ela passou a ser o meu bebê, minha princesinha, minha boneca, a minha rainha.  Logo eu a chamei de Bel – apelido que seria pra sempre.

Nunca conseguimos contabilizar o número de aventuras e travessuras em que nos metemos.  Duas irmãs com diferença de idade tão pequena praticamente aprendem tudo juntas. Às vezes nos chamavam de gêmeas. Outras vezes, por pura conveniência, preferíamos ser  a mais velha e a mais nova.

Na escola a defendi muitas vezes.  Eu era da turma seguinte, mas no recreio ficava de olho. Com quem ela andava, se algum coleguinha lhe tomava o lanche, ela sempre boazinha demais. Eu partia para cima sem nenhuma cerimônia: com licença, ela lhe deu mesmo o lanche? Acho que foi engano.

É verdade, em casa a gente aprontou.  Teve a caixa de chocolates Chokito que sumiu em cinco minutos entre mordidas e cuspidas debaixo da cama.  Teve o teste de sobrevivência do peixinho dourado fora do aquário.  Teve o episódio do pacote de sabão em pó aberto na janela do supermercado para simular neve tropical na época de final de ano.

Sozinha (ou seja, sem minha ajuda), uma vez ela caiu da bicicleta e cortou o braço em uma cerca com arame farpado. Todo mundo foi para o pronto socorro. De outra, queimou-se com borra de café quente. Todo mundo no pronto socorro.  Cortou o pé direito em uma lasca de porcelana que havia quebrado. Todo mundo, de novo, no pronto socorro. É. Devemos muito know how a Bel; e meu pai, minha mãe e eu, respectivamente: a ausência de cabelos, alguns cabelos brancos e um destemor diante de qualquer tipo de ferimento ou sangue – vai que por isso fui parar na Medicina?

Maiorzinhas, ela me encantava por talentos extraordinários que possuía.  Ela era a mais criativa, a mais palhaça dos irmãos.  Inventava roteiros engraçadissimos para as nossas gravações da Radio Minigente. Desenhava, pintava e escrevia maravilhosamente bem.

As memórias são infinitas.  Tornamo-nos adolescentes. A gente teve, claro, aquelas briguinhas de irmãs: você pegou minha roupa! e você usou meus sapatos … mas essa fase não durou muito. Vi, maravilhada, ela terminar a faculdade antes de mim, trabalhar antes, comprar seu primeiro carro. Que orgulho imenso eu tinha dela, sempre destemida, empresária, dona do próprio negócio.  Ela também sempre teve mais namorados ( e candidatos!).  Era mais bonita e mais habilidosa em falar em público. Não havia competição, só prazer e reconhecimento recíprocos.

Nossos filhos chegaram em tempos diferentes:  casei e fui mãe primeiro, e ela, a super tia.  Aprendemos uma com a outra, já morando em cidades distintas.  Por telefone nossas conversas eram cheias de causos, risadas, palpites, combinações e muitas interrupções. Nossas casas eram barulhentas e sempre havia panela no fogo e alguma criança chamando para cortarmos a ligação.

Nos altos e baixos que surgiam, chorávamos, ralhávamos, brigavámos  e criticávamos. E como nos abraçamos, nos amamos e nos aceitamos!

Minha irmã – cuja risada me é tão clara na memória – traz lembranças muito mais vívidas e marcantes do que as palavras que ela escreveu em seus últimos dias de vida. Explico melhor o que sinto. Ela viveu 44 anos e 11 meses plenos de vida, alegria, sorrisos, conselhos, surpresas e descobertas.  A doença apareceu somente quando ela estava para completar 45 anos.  Minha Bebel não foi uma pessoa doente e somente preocupada em acalmar as pessoas assustadas com sua doença. (Como fico feliz em saber que a Bel nunca precisou me dizer que não tivesse medo da sua morte, pois sabíamos que isso não era problema para ela, tampouco para mim). Obviamente ela cresceu com o sofrimento, lapidador de caráter e de prioridades. Mas sua essência nunca mudou: plena, feliz, artística e engraçada. Alguém que amou a Deus criativa e profundamente, e que amou cada momento de vida que lhe era concedido.

Nesses últimos meses tentei o melhor de mim.  Fui chata com a equipe médica e hospitalar, vigiei procedimentos e decisões técnicas, discordei quando assim o entendi, busquei vários outros especialistas e opiniões, defendi minha irmã na fila da radioterapia, fiz curativos, fiz sopa e inventei gemadas doidas para que ela pudesse ficar mais forte.

Nas temporadas hospitalares reeditamos nossa brincadeira de infância ‘a escrava e a rainha’ (em resumo: ela mandava, eu obedecia). Molhamos muitos lenços e blusas com lágrimas, nos abraçávamos quando as notícias não eram boas.  Ja em casa, censurei-a  quando se preocupava em arrumar o armário de roupas das meninas e se esquecia de tomar os remédios. Passei maquiagem a seu contragosto só para que ficasse mais bonita quando as filhas chegassem da escola ou o marido do trabalho.  Mesmo assim eu sentia que sempre ficava devendo mais amor.  Aliás, era o que eu lhe dizia, mãos dadas, quando ela suspirou tranquilamente e partiu.

Meu memorial hoje é o das alegrias leves. A Bel  não foi um ser humano perfeito, mas foi a irmã mais perfeita para mim.  Minha princesinha, minha boneca, minha rainha, minha lagartinha saiu daquele casulo apertado e desconfortável, abriu as asas e se libertou, sem mistérios, como uma linda borboleta. A minha borboleta.

HBP , 27/06/2012

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7 Comentários em “Minha borboleta”

  1. Fernanda Says:

    Seu texto é lindo e emocionante. O Senhor também recolheu minha irmã, irmãzinha, pois tinha apenas 12 anos.
    Eu tinha 19 e como doeu ela ter morrido, com o tempo a dor deu lugar a uma saudade, saudade gostosa.
    Mas eu sinto falta de te-la aqui comigo, brigando, reclamando, sorrindo, se alegrando, vendo os sobrinhos que ela tanto sonhava em ter.
    Ensino-os a chama-la de tia, mesmo eles não a conhecendo e eu sabendo que ela não sabe de nada que se passa nesse mundo, mas sei que ela queria muito ser chamada assim.
    Com toda a certeza você foi uma grande irmã e isso serve de consolo, de saber que se amaram ate onde foi possível. E sei que você vai continuar amando sua borboleta até o dia em que se encontrarem.
    Queria ter te dado um abraço no domingo do velório da Bebel, mas não consegui, então, sinta-se abraçada agora.
    Com carinho e com muitas orações.
    Fernanda

  2. Virgínia de Paula Morandi Says:

    Que linda a sua declaração de amor a sua irmã! Não pude conter as lágrimas, me emocionei… Eu não tenho irmã (só um irmão); achei muito bonito sua proximidade com sua irmã e admiráveis os momentos tão especiais de convívio que tiveram… Um beijo.

  3. Ana Alice Says:

    Bia, eu sou testemunha do seu amor pela Bebel, e imagino que não está sendo fácil para você estes últimos dias, mas eu tenho certeza que ela pensava a mesma coisa de você: Você é uma irmã incrível, especial, cuidadosa, carinhosa, e sei que lutou até o fim pela sua borboleta…que Deus console seu coração de uma maneira muito especial, um grande abraço!

  4. Therezinha Medeiros Says:

    Que lindo depoimento Tiz! Tenho gostosas recordações de vocês na igreja, no MAB…Bel contando as histórias, sendo a conselheira das minhas filhas, tocando violão para as acampantes….semprre com uma palavra doce e precisa para os que precisavam. Alegre e verdadeira! Desde o momento que soube da doença, orei incessantemente. Na madrugada do último dia, Deus me fez acordar e senti o desejo de orar muito. Naquela hora o Pai me deu a certeza que Ele a levaria para o Lar. Se por um lado me senti triste, de outro compreendi que Ele estava fazendo o melhor para ela.Deixo a você e em particular à sua mãe um grande abraço e continuo orando por todos, especialmente pelas meninas.


  5. Querida Tiz,

    Tendo convivido com vocês desde a mais tenra idade e, eu mesmo sendo beneficiário da ambiência carinhosa que vocês criavam, sei da verdade de cada sentimento e de cada palavra sua.

    Por isso mesmo, a delicadeza de sua reflexão me remete às memórias mais caras e preciosas que retenho como a um tesouro.

    Sinto-me honrado de ter compartilhado, em certo momento de minha existência, dessas vivências de amor, de delicadeza, do encantamento da arte, da solicitude em servir, das sinceridades emocionadas, das levezas brincalhonas, da ressignificação feliz do Natal que uma vez vocês me deram como presente para a vida.

    Por isso tudo, registro, aqui, meu agradecimento sincero a você, à pequenina Bel-borboleta e a Deus por suas vidas lindas.

    Enterneci-me como texto.

    Com imenso carinho.

    + Miguel Angelo

  6. Lia Casanova Sauaia Says:

    Tiz, minha querida! Vcs duas sempre estarão na minha memória e no meu coração, como as irmãzinhas lindas por quem me encantei, em seu primeiro MAB. Depois de crescidas, perdemos contato, pq eu já estava na vida afogueada de esposa, mãe, filha zelosa de pais doentes, fora o trabalho. Mas isso não modificou meu amor. Encontrava sua mãe de vez em quando, que me dava notícias. Aí veio o FB, que nos aproxima e nos faz sentir um consolo por vencer a distância. Seu texto sobre a Bebel é lindo, comovente, inspirador. Que Deus abençoe sua vida, conforte seu coração e lhe renove as forças e o ânimo, pq vc precisa ajudar a fortalecer e consolar sua mãe, seu irmão, suas sobrinhas e seu cunhado. Bj enorme. Amo vc. Lia

  7. Claudia Chaves Says:

    Que sorte feliz a minha de ter caído aqui um dia desses… copiei aquele textinho ‘a gente durmimo no quentinho’, lembra? e vez ou outra passei pra ler… hoje estou chorando aqui por puro e bom encantamento! Deus a abençoe ainda mais, querida! Sua Bel nos ensina também! Gracias!


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