Cada um faz o que quer

Foto obtida na internet - autor anônimo

Foto obtida na internet – autor desconhecido

“Doutora, quero que a senhora passe uma vitamina para o meu filho porque ele não come na-da. Aliás, o garoto  já tem 5 anos e só toma leite na mamadeira. Não quer arroz com feijão, detesta fruta, mas acaba com um pacote inteiro de biscoito. Depois da escola fica parado na frente da televisão. Vai ver que é por isso que ele está gordinho. O que a senhora acha que eu devo fazer?”

Era assim que muitas consultas começavam: uma demanda no estilo cliente solicitando serviço específico, algumas perguntas retóricas e um tom queixoso e insatisfeito. Posso adiantar: o papo era longo. Divertido (pelo menos para mim). Revelador. Um abacaxi enorme para ser descascado na consulta de pelo menos 1 hora. Obviamente o problema não era falta da vitamina, mas uma sucessão de hábitos e comportamentos equivocados. E quer saber? Muitos não gostavam da gente se intrometer nas manias da família e diziam francamente: Dá para passar logo a receita?

Mas você já ouviu variantes assim.

“Rapá, estou endividado até o pescoço. Meus cartões estouraram, meu nome sujou na praça. Mas também com essa mulher que só gasta. Os filhos só querem marca de grife. Estou pensando em um empréstimo. Só para aliviar.  Pelo menos agiota não faz pergunta. O que você acha?”

“Menina, tenho que emagrecer até o casamento da fulana! Amanhã mesmo começo uma dieta que uma amiga recomendou. Infalível. Ela me disse que tem como conseguir um remédio que tira a fome, tudo natural, você sabe. Dá para perder dez quilos em um mês. Vai valer a pena o sacrifício. Sacrifício não é para sempre. Depois? Depois volto para minha feijoadinha e meu choppinho.”

Falando sério. Cada vez que ouço uma dessas me convenço que não existe mesmo esse negócio de “milagre-mágica”. Cada vez menos acredito em versões onde a culpa é exclusiva do mocinho ou do bandido. Como é fácil o discurso impregnado pela síndrome do “vivo arranhado mas não largo o meu gato-meu emprego-meu estilo de vida-minha religião-meus preconceitos”. E por aí vai.

Ainda quando pedem uma dica, as pessoas só vão fazer o que realmente querem. As pessoas ouvem só o que querem ouvir. Podem ver e constatar uma infinidade de coisas  – vão reter, no fundo, no fundo, só o que querem. Vejo isso pelos diálogos nos consultórios, nas rodas de amigos, nas famílias, nas empresas, nos relacionamentos disfuncionais, nos hábitos cultivados de inveja, de teimosia, de exercícios físicos ou alimentação.

Estamos fazendo somente aquilo que queremos, desde o princípio. Honestamente, para que pedir conselhos? Cada um faz o que quer.

“Cada um faz o que quer” não é um imperativo – é um fato, uma constatação! Não se esqueça. Nossas ações (ou omissões) feitas em livre e espontânea vontade terão seu desdobramento natural da mesma forma como uma semente plantada sob a terra dá seu fruto. Manga dá manga. Laranja dá laranja. Não espere frutos de paz se a semente foi desconfiança, crítica, desamor. Não culpe infantilmente outros ou a “deus”/Deus pelo dia da sua colheita. Acredite ou não, esse dia chegará.

Mas como eu dizia, cada um faz o que quer.

HBP, 18/07/2012

Licença Creative Commons
This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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4 Comentários em “Cada um faz o que quer”


  1. Como eu gosto dos seus textos. Muito.

  2. Virgínia de Paula Morandi Says:

    Obrigada por me fazer refletir hoje cedo sobre esta questão. Como não gostamos de sermos confrontados, né? Somos melindrosos demais… Já disse e repito: eu tb gosto muito dos seus textos! Um abraço!

  3. Virgínia de Paula Morandi Says:

    Obrigada pela sua atenção e carinho!


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