De gregos, Deus e sagüis

'Far niente' - foto de Helena Beatriz Pacitti

“Far niente” – HBP,2007

Quando passei pela disciplina de Obstetricia e Ginecologia na faculdade de Medicina, o saudoso professor Henrique Pavaventi ensinava aos alunos os passos da propedêutica médica. Não eram somente os 4 que achávamos saber: inspeção, percussão, palpação e ausculta; mas sim os 5: inspeção, percussão, palpação, ausculta e contemplação.

A gente devia contemplar a mulher em trabalho de parto para saber quando ajudar, quando não atrapalhar e quando finalmente interferir no parto, fosse ele normal ou cesariana. Infelizmente essa arte médica se perdeu. Dificilmente a gente encontra um médico que contemple seu paciente. Que observe o modo de andar, de falar, de gesticular. O tom de voz, o olhar. O medo, o receio, as reticências. Foi uma lição que nunca esqueci.

Inspirada por um amigo que hoje tira férias em Punta Cana e de lá me escreve, sugeri que ele tente exercitar algum tipo de contemplação. Paisagem bonita não deve faltar.

A contemplação – que não é privilégio de religiões orientais – deveria ser um exercício diário. Ou pelo menos reaprendido em períodos menos agitados, como nas férias, finais de semana, feriados.  Aos poucos a gente começa a praticá-la no dia a dia, seja flagrando um passarinho na janela ou captando detalhes de um fio elétrico de rua. Perto da nossa casa em Niterói a gente sempre descobre um sagüi correndo sobre os fios e subindo nos postes e árvores.  Mas para isso é necessário ficar imóvel e quieto na calçada. Então chegam curiosos, primeiro o mais corajoso, os outros de guarda atrás.

Ouvi dizer que na filosofia grega a palavra contemplação era denominada teoria, opondo-se a práxis, ou ação. Por isso, os gregos designavam a vida contemplativa como vida teórica, por oposição à vida ativa, ou vida prática. Alguns autores afirmam que a etimologia da palavra “teoria” deriva de um verbo grego que significa ver; deste verbo é que se origina também o nome Deus, que em grego se diz Teos, ou “Aquele que vê ou contempla”.

E não é que pensei nisso uma vez? Às vezes a gente devia contemplar mais a vida como quem procura o divino.  Se a gente não aprender a observar de verdade vai perder preciosidades. Talvez a maior delas.

HBP, 25/07/2012

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This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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2 Comentários em “De gregos, Deus e sagüis”

  1. Sandra Giacopini Says:

    Bela e sensivel contemplação, Prof Paraventi foi meu paraninfo, e fico me perguntando porque demoramos tanto pra entender o que diziam. Talvez pelo mesmo motivo que ficamos contemplando os mais jovens, esperando que chegam no momento deles de contemplar.


  2. […] Helena Beatriz Pacitti, no blog Timilique […]


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