Trégua

Cerca e cavalinho

A Maria Rita, que me “provocou” o texto com a alegria do reencontro, 

Ao amigo Segis, que me ensinou a última frase, 

Ao meu porto seguro e amor da minha vida, Mario.

 

Como toda criança nascida e criada na metrópole, até a adolescência eu não sabia sequer diferenciar uma espécie de árvore de outra. Bicho para mim eram cinco: formiga, mosca, gato, cachorro e pato de Parque Ibirapuera.  Vaca, boi e cavalo ao vivo e 3D só nas férias, e olhe lá.  Uma vez, caminhando em uma trilha do acampamento de verão, fiquei espantada quando um amiguinho apontou a árvore adiante: “Olha rápido…um picapau!” Não iria admitir que jamais havia visto um de verdade.  Até então, picapau era um personagem de desenho na TV.

A gente vira adulto e aprende a disfarçar a ignorância, recolhendo informações aqui e acolá em um filme, um documentário ou um passeio, mas definitivamente eu era uma criatura com aversão a insetos e pés sujos de terra. Toda saída ao ar livre não acontecia exceto se  me besuntasse de repelente e protetor solar, por exemplo.  Pequenas frescuras de quem aprendeu a ter medo de sol (raios UV), medo de chuva (ácida) e medo de qualquer coisa química, física e biológica na delicada epiderme urbana.

Há uns anos eu já estava fazendo o famoso caminho do retorno, trocando plantões de hospital por trabalho de carga horária reduzida, comprando carro mais simples, andando mais a pé e usando ainda menos o carro simples, ganhando menos dinheiro, cozinhando mais em casa, curtindo mais os filhos e me preocupando menos com a faxina da casa e menos ainda com o que os outros pensassem de mim. No projeto de leveza, também deixei para trás gente complicada e de cuca doente, investi em amizade com gente mais simples e de coração puro.  Já faz um tempo estou aprendendo a aceitar o que não pode ser alterado, pois só Deus pode controlar e mudar as coisas de fato importantes.  E por mil voltas que a vida dá, vim parar aqui longe na casinha no meio do campo, cercada de uma profusão de árvores, folhagens, pássaros, coelhos, veados, perus selvagens, esquilos, cavalos, sapos, aranhas de todos os tamanhos e cores, besouros, mosquitos, vento, rio, chuva, trilhas.

Falei casinha no campo mas eu gosto de dizer que moramos na “roça”, o que soa exagerado quando sei perfeitamente que posso chegar em dez minutos de carro ao supermercado mais próximo, em vinte minutos na biblioteca da universidade ou em meia hora em um teatro sofisticado.  Mas falo assim porque finalmente estou cortando o cordão umbilical com antigas frescuras.  Não faz muito tempo aprendi a diferenciar o canto do Cardinal, do Blue Jay e do Chikadee.  Aprendi a ver pegadas de veados ou de um racoon no quintal, a plantar mudas de pinheirinhos no inicio da primavera, e descobri que existem mais de 365 diferentes pores-do-sol.  Pela primeira vez acompanhei a saga de uma família de esquilos durante o inverno, assim como os esforços de uma mamãe Hoouse Finch chocando seus ovos e posteriormente alimentando a prole em uma semana de tempestades. Nos passeios de barco no rio que margeia o parque próximo, consigo me enxergar de fato como sou: um pontinho minúsculo em uma imensidão de sossego, cujo remanso é intercalado pela batida dos remos na água ou um pássaro trilando na margem.

No início do outono aprendi com meu marido a colher algumas maçãs na árvore, e ainda espero que outras delas cresçam um pouco mais antes de serem retiradas.  Quando vamos ver os cavalinhos, Coco e Bibi, já não me incomodo com a quantidade de carrapichos que grudam na roupa, nem com os raspões nos espinhos e mato alto que cresce perto do estábulo.  Aqui tudo começa cedo, escola e trabalho, quando a escuridão, o silêncio e o orvalho são absolutos.  Pela janela da cozinha dá para assistir ao nascer do sol quase todas as manhãs, pela janela da sala da lareira nos despedimos do sol que afunda no horizonte. O som dos grilos embala nossas noites de verão, e no inverno é o vento que assovia pelos galhos retorcidos das árvores.

Na casa da roça a cozinha é maior e tem espaço para os vasinhos de tempero, manjericão, tomilho.  Aliás, a quantidade de temperos estimula a invenção de receitas, onde nunca faltam folhas verdes, beringelas, pimentões coloridos, cebolas, bulgur, limão, tomates, azeite. Dá para inventar a comida devagar, dá para comer com calma, conversar mais, digerir melhor. Dá para enfeitar as salas e quartos com as flores miúdas colhidas no jardim lá de trás.  Dá para entrar pela porta da frente com os pés sujos de terra depois de uma caminhada matinal na grama úmida e gelada, suprema transgressão no meu imaginário do passado.

A alergia respiratória praticamente desapareceu, talvez porque a poeira seja só de terra, não mais de fuligem e graxa.  Também estou me curando da ansiedade e da pressa varrida de anos e anos em congestionamentos e horários apertados.  As noticias do mundo todo e de todo mundo chegam sim, mas felizmente atrasam quando chove ou neva demais e a internet e o telefone emudecem por algumas horas. Voltei a ler vários livros ao mesmo tempo, e aos poucos vou fazendo as pazes com o piano, com a Música e a solitude voluntária. Com a velocidade reduzida a gente presta mais atenção na postura, na própria respiração, no tic tac do relógio de parede e nos recados de Deus, que invariavelmente chegam disfarçados de avezinhas canoras ou borboletinhas amarelas.

Ainda me vejo criança descobrindo novidades, com ambições bem mais singelas. Não virei ermitã, eremita, monja, tampouco tenho a intenção.  Mas acho que a casa no meio do verde me deu uma trégua, e por esse tempo ando trocando o salto alto pela botina, a grife pelo mato, o excesso de café por chá, e, finalmente, sou muito, muito grata por isso.  Deus ‘bençoe.

Oct 08, 2013

Licença Creative Commons

This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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7 Comentários em “Trégua”

  1. Zé Wilson Says:

    Pois é …
    Se essa discrição foi pra causar ‘inveja Santa’, rsrsr…
    Conseguiu!
    Beijão proceis

  2. denise senra Says:

    Helena querida,
    um texto lindo e encantador! De enternecer a gente!
    Continue sua envolvente, deliciante e inspiradora “Trégua”. E nos dê mais notícias dela aqui, pois é coisa linda e gratificante para a alma te ler!

    beijo carinhoso.

    denise


  3. Obrigada Tiz, linda e querida amiga por – mais uma vez! – tocar meu coração! Estamos agora “tão longe, tão perto” (“far away, so close” Wim Wenders)…
    Um beijo,
    Maria Rita

  4. Joseane Borges Says:

    Que texto lindo Helena! Sua descrição é sensível e bela, e me fez pensar no meu caminho. Também em casa, fora do consultório e em outro país, com tempo para observar coisas que antes estavam ao meu lado, e eu não podia ver, encerrada que estava na correria do dia a dia. Bjo

  5. Eunice Pacitti Says:

    Querida Beatriz,
    Seu texto, como sempre, é lindo. A Beatriz que conheci aqui no Rio, numa selva de pedras, asfalto, trânsito, trabalho árduo, já me impressionava pela doçura, gentileza e tantas qualidades que fazem parte de sua personalidade. Entendo bem seu atual modo de SER, numa atmosfera de tanta paz, beleza, identificando-se com a natureza exuberante que lhe cerca. Sem mencionar, lógico, o seu porto seguro….. o seu grande .amor.Parabéns! Belíssimo!

  6. Helena Says:

    Tiz, lendo senti muitas saudades de você… Desejei um pouco desse descanso, assim como de sentar-me com vc nessa mesa da cozinha e conversar até o amanhecer… Lembrei da Bel, pois, conseguia com palavras, nos fazer viajar…Ela…estando em sofrimento.
    Querida amiga, gosto MUiTO de vc e queria me aproximar mais de quem foi usada por Deus quando O conheci. Bjs. Helena

  7. Marcia Torres Says:

    Ola Helena! Obrigada por mais um texto maravilhoso! E sigamos todos em busca de leveza, deixada pra trás em anos idos da infância, mas ainda aqui, em algum lugarzinho dentro de nós…
    Marcia


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