Dobrado

Imagem: Double View Bench – Design Chloe de la Chaise, France

 

Uma amiga conta que o  filho passou um final de semana remoendo uma frustração enorme: um prêmio escolar que não recebeu. Mas fiquei impressionada pela maneira como ele reagiu. Primeiro porque ele não fingiu estar tudo bem, foi lá compartilhou sua tristeza com a mãe. É preciso coragem para ser genuíno. Segundo porque ele tem um coração generoso, redigiu um poema, voltou a escola na semana seguinte e recitou para os amigos. E terceiro porque todo mundo conhece a dedicação dele, sempre levando as coisas com diligência. Ele ainda não sabe, mas já tem em si a própria recompensa.

De qualquer forma, frustração dói, e dói um bocado. Em casa também passamos pela fase das auto-decepções na área de performance pessoal. Se um de nossos filhos achasse que merecesse um 10 mas ganhasse um 9, era meio que o fim do mundo. Se ele não fizesse determinado número gols no jogo de futebol, ou se perdesse o lance, ou se fosse ao menos censurado por algum colega, ficava arrasado…

Às vezes me pergunto se isso é genético. Fui meio assim. Com 13 anos de idade, abri o berreiro no meio do recreio porque minha prova de Biologia tinha vindo com um “B”, eu tinha certeza que a professora tinha errado a correção. Minha melhor amiga na época (com metade da minha altura e o dobro da coragem) tomou as minhas dores e foi encarar a professora na sala dos mestres!! Ai que mico! Eu, muda e olhando para baixo, ao lado da coleguinha requerendo em meu nome a revisão das questoes da minha prova. E no final, a professora tinha errado mesmo. Ganhei o raio da nota “A”, e de brinde uma anotação no canto superior da página:  “Na próxima vez, abra a boca e fale você mesma.”

As frustrações de um ecoam em outro. Eventualmente converso com amigas, mães de filhos com idades próximas as dos meus…Uns ainda não conseguiram emprego, outros lutam com várias tentativas frustradas para entrar na universidade… Uma amiga conta que já chorou muito escondido do filho. Outra confessa que seu desejo utópico, secreto e absolutamente lunático era ter uma bolha que protegesse os filhos de qualquer dor, para o resto da vida – isso mesmo, para o resto da vida! Rimos juntas porque toda mãe sente isso, a gente quer proteger, poupar, não deixar que os filhos sofram….preferiríamos que aquela dor, a febre, a virose, a espinha, a rejeição, a vergonha, essas coisas doessem em nós ao invés de doerem neles.

Mas a verdade é que não é só mãe quem sofre. Ah, ja fui inexperiente, mãezinha nova em um tempo! E às vezes me julgava importante porque só eu seria capaz de dar minha vida pelos meus filhos. Mais tarde, conheci pais, avós, tios, cônjuges, capazes de qualquer sacrifício por aqueles que amavam. Também conheci vários bons samaritanos, que, feito aquele da parábola do Evangelho, gastaram do seu tempo, dinheiro e cuidados com desconhecidos que topassem no caminho.

Dentro do meu coração, tenho recebido a lição de humildade de gente anônima: todo aquele que ama, sofre dobrado. Mas – delícia das delícias – se alegra dobrado também. E sabe a condição das coisas impossíveis ao humano comum. Só quem ama experimenta uma espécie de invisibilidade, de não prêmio, e vai abrindo mão do julgamento… Quem sabe um dia, de tanto amar, alguém conheça o perdão radical, uma dessas maluquices atribuidas a Deus.

HBP, Jun 09,2014

Licença Creative Commons

This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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