Letras de Macarrão

letters

We shall not cease from exploration, and the end of all our exploring will be to arrive where we started and know the place for the first time.

Não cessaremos de explorar, e o fim de nossa exploração será voltar ao ponto de partida, e conhecer o lugar pela primeira vez. 

T. S. Eliot

Houve um tempo em que fomos absurdamente felizes. Em alguns momentos da infância, por exemplo, aconteceram certas felicidades tão intensas que fica dificil entender como podiam estar vinculadas a eventos banais. E olha que não era aquela felicidade curta dos adultos, gente desmancha-prazeres, cheia de reticências, aquela felicidade mal usufruida, antecipadora de final de festa.

Não, senhor. Era felicidade pura, infinita. Como aconteceu em um dia com nossa familia pequena: só papai, mamãe, meus avós paternos e minha irmã Bebel. Era almoço de Natal ou Ano Novo, pleno verão, a mesa posta com toalha alva e enfeites vermelhos, dourados, pequenos chocolates na cesta de prata de tres andares, a jarra de laranjada cheia de açúcar e gelo, o cheiro suave de peru assado invadindo a casa. Minha irmã e eu brincando e rindo, ambas de vestido de renda branca e cinto de veludo – o meu vermelho, o dela azul claro, e os adultos conversando. E eram férias! Tudo perfeito.

Outra coisa sublime foi ter ouvido, pela primeira vez e pelo radio, o movimento Jesus bleibet meine Freude (Jesus, Alegria dos Homens) de Bach. Eu devia ser muito pequena, nao sei nem a data. Só lembro do impacto, da pontada no peito, uma alegria gigante e lágrimas de contentamento. É admirável a clareza com que uma crianca pequena, de 3 ou 4 anos, consegue sentir a extraordinária emoçao causada pela Musica.

Bem lá atrás aprendemos a andar e correr, movidos apenas pelo desejo das nossas pernas curtas e o olhar curioso. Tudo era espanto e encantamento. E alem disso aprendemos a falar. E tinha tanta novidade. Luzes coloridas enfeitando as ruas. O pianinho Hering amarelo com teclas brancas e pretas. Tinha as noites de sopa com letras de macarrão, quando separávamos as vogais e consoantes para brincarmos com as palavras. O primeiro dia de escola, uniforme xadrez novo com aventalzinho de babado, laço vermelho preso a gola. E lancheira e botinhas novas. Como a gente era importante e feliz, e ainda ia descobrir um novo mundo, sem nenhuma angustia e sem precisar dizer (ou provar) isso a ninguem.

Houve tempos em que fomos absurdamente felizes e sequer nos dávamos conta. No pequeno-enorme quintal, corriamos debaixo dos lençóis pendurados no varal, era nossa floresta imaginária. Depois faziamos poções mágicas e remedios milagrosos com folhas amassadas, açucar e restos de insetos. Logo a seguir eramos indios selvagens com rostos camuflados pela (mesma) poção, rumo a grande caçada, seguida do banho na cachoeira gigante, que na verdade era só água de mangueira. Ao final de tudo, virávamos princesas refinadas com longos vestidos, tomando chá em xicaras de brinquedo cor-de rosa e reclinadas sobre o sofá velho do quarto da bagunca. Exaustas.

O que nos fazia tão felizes ? Com certeza não eram os eventos, ou coisas, ou brinquedos. Talvez um pouquinho de ignorancia, de simplicidade exagerada, de esquecimento. Na verdade não tenho ideia do que era. Só sei que funcionava como antidoto contra o veneno da autocentralização – a praga da colocação, pelo indivíduo, do centro das coisas em si próprio. Esse veneninho que nos contamina quando deixamos a meninice, e vai tomando conta da gente sem doer,silenciosamente, e bem devagar…

HBP, Aug 28, 2014

Licença Creative Commons

This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

Explore posts in the same categories: Lendo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: