Wright Road

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Senti de imediato o fardo de um amor ao qual jamais renunciaria.

(Nélida Piñon)

Dos caminhos que levam a Grand Ledge, existe uma pequena estrada que corta de norte a sul o lado oeste da cidade, e é chamada Wright Road. Esse é meu preferido.

As casinhas e árvores vão rareando até dar lugar a uma planície que funciona como área agrícola. Durante as temporadas, extensas culturas de milho e soja se alternam. Um pouco a frente, a esquerda, surge o pequeno aeroporto local. E é exatamente nesse ponto que se pode vislumbrar o céu a 180 graus, ocupando mais da metade da paisagem.

Nada a ver com o céu tristonho e intimidado pelos prédios de grandes cidades. Este é um céu claro, de azul reluzente e um brilho que é difícil descrever. Céu que aparece leve, inteirinho sobre sua cabeça, nunca enfadonho ou previsível. E de quando em quando surgem umas nuvenzinhas desfiadas e pequenos bandos de patos selvagens voando a baixa altitude.

Assim, viajar  para Grand Ledge por essa estrada virou uma espécie de terapia. A cada quilômetro rodado me sinto mais leve, mais fora da caixa. Engraçado isso de se sentir sem molduras, sem as cercas do condicionamento, liberta do ordinário processo de pensamento. Sem culpas, sem necessidade de prestar contas a curiosidade alheia.

E foi lá que tive um insight. Há aqueles que passam a vida muito preocupados com o que os outros pensam. Há quem passe a vida tentando mostrar que tem a razão sempre, só por uma questão de auto afirmação ou poder. Vamos dizer que isso gera uma boa parcela das neuroses contemporâneas. Não estou considerando os casos de mau-caratismo.

Existe também uma percepção relatada por nossos filhos quando adolescentes. Eles contavam, muito chateados, sobre o que chamavam de síndrome da resposta atrasada: diante de uma pessoa muito inconveniente (com suas inconvenientes perguntas e assertivas) o interlocutor fica tão constrangido que sua resposta se limita ao silêncio. Depois de horas, dias, finalmente descobre a resposta ideal que deveria ter tido lá atrás, e não teve. Que frustração. Existe também aquela mania da gente argumentar, argumentar, e isso não levar a nada. As vezes a gente faz isso até com quem ama, sem perceber o preço do desgaste emocional.

No dia em que viajo sob o céu brilhante da Wright Road, vem uma certeza perturbadoramente simples. Todas as vezes em que minha melhor resposta foi a mudez, a verdade é que eu poderia ter usado cada grama de lógica e habilidade – hipertrofiadas ao longo dos anos em meu lado esquerdo do cérebro – tentando ganhar o argumento.

No entanto, percebo que não tenho que dar a melhor resposta. E também não ficarei nem um pouco preocupada com o que o outro está pensando.  Afinal, eu quero estar certa … ou quero estar em paz?

Pois estar em paz é a tenacidade do amor em empurrar os limites do passado em perdão. As vezes é abrir mão do argumento para convencer alguém em momentos presentes. Estar em paz é olhar adiante com expectativa e alegria, mesmo em face da mortalidade iminente.

(Dedicado a Jury Nakagawa)

HBP Nov 12, 2014

Licença Creative Commons

This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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2 Comentários em “Wright Road”

  1. Ivanilde Roque Says:

    Você sempre me emociona com a verdade de suas palavras! Mais um para a minha lista de preferidos!

  2. farbewerk Says:

    Gostei. O Manoel de Barros teria sido orgulhoso disso. A simplicidade….


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