Wright Road

sky3

Senti de imediato o fardo de um amor ao qual jamais renunciaria.

(Nélida Piñon)

Dos caminhos que levam a Grand Ledge, existe uma pequena estrada que corta de norte a sul o lado oeste da cidade, e é chamada Wright Road. Esse é o meu preferido.

As casinhas e árvores vao rareando até dar lugar a uma planicie que funciona como área agricola. Durante as temporadas, extensas culturas de milho e soja se alternam. Um pouco a frente, a esquerda, surge o pequeno aeroporto local. E é exatamente nesse ponto que se pode vislumbrar o céu a 180 graus, ocupando mais da metade da paisagem.

Nada a ver com o céu tristonho e intimidado pelos prédios de grandes cidades. Este é um céu claro, de azul reluzente e um brilho até dificil de descrever. Céu que aparece leve, inteirinho sobre sua cabeça, nunca enfadonho ou previsivel. De quando em quando surgem umas nuvenzinhas desfiadas e pequenos bandos de patos selvagens voando a baixa altitude.

Assim, viajar  para Grand Ledge por essa estrada virou uma espécie de terapia. A cada quilometro rodado me sinto mais leve, mais fora da caixa. Engraçado isso de se sentir sem molduras, sem as cercas do condicionamento, liberta do ordinario processo de pensamento. Sem culpas bobocas, sem necessidade de prestar contas a curiosidade alheia.

E foi lá que tive um insight. Há aqueles que passam a vida muito preocupados com o que os outros pensam. Há quem passe a vida tentando mostrar que tem a razão sempre, so por uma questão de auto afirmação ou poder. Vamos dizer que isso gera uma boa parcela das neuroses contemporaneas. (Claro que nao estou considerando os casos de puro mau-caratismo: aí a pessoa tem mais é que se auto-torturar).

Existe também uma dinamica que me foi relatada por nossos filhos quando adolescentes. Eles contavam (muito chateados) sobre o que chamavam amadoristicamente de sindrome da resposta atrasada: diante de uma pessoa muito, muito inconveniente (com suas respectivas inconvenientes perguntas e assertivas), o interlocutor fica tao constrangido que sua resposta se limita ao silencio. Mas depois (de horas, dias…) finalmente descobre a resposta ideal que deveria ter tido lá atras, e não teve. Que frustração. E tem tambem aquela mania da gente argumentar, argumentar, e isso não levar a quase nada. As vezes a gente faz isso até com quem ama, sem perceber o preco do desgaste emocional.

No dia em que viajo sob o céu brilhante da Wright Road, vem uma certeza perturbadoramente simples. Todas as vezes na vida em que minha melhor resposta foi a mudez, a verdade é que eu poderia ter usado cada grama de lógica e habilidade, hipertrofiadas ao longo dos anos em meu lado esquerdo do cérebro, tentando ganhar o argumento.

No entanto, decido (com o lado direito do cérebro?) que não tenho que dar a famosa melhor resposta. E que também não ficarei nem um pouco preocupada com o que o outro está pensando.  Afinal, eu quero estar certa ou quero estar em paz?

Pois estar em paz é a tenacidade do amor em empurrar os limites do passado em perdão. As vezes é abrir mão do argumento para convencer alguém em momentos presentes. Estar em paz é olhar adiante com expectativa e alegria, mesmo em face da mortalidade iminente.

(Dedicado a Jury Nakagawa)

HBP Nov 12, 2014

Licença Creative Commons

This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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2 Comentários em “Wright Road”

  1. Ivanilde Roque Says:

    Você sempre me emociona com a verdade de suas palavras! Mais um para a minha lista de preferidos!

  2. farbewerk Says:

    Gostei. O Manoel de Barros teria sido orgulhoso disso. A simplicidade….


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