A Culpa é do Vento

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A atriz e poetisa brasileira Elisa Lucinda costumava dizer: Sou super a favor de ouvir a conversa dos outros. Você tem alguém contando uma história bem contada e não vai ouvir? Claro que vai. Além disso, ela aconselhava o ouvinte eventual a se intrometer quando necessário: E se a pessoa vai tomar aquele remédio que sua mãe tomou e quase morreu? Por fim, justifica: Quem traz a palavra é o vento, você só tem que se posicionar para ouvir a conversa.

Não que eu seja ouvinte da conversa dos outros de primeira. Mas amiúde alguém me conta uma conversa inusitada trazida pelo vento. E a conversa fica lá quietinha, guardada no bolso; às vezes surge na memoria e fica la, piscando feito continhas de vidro ao sol. Hoje selecionei três destas preciosidades, e prometo me abster de comentários.

Deu-se que duas senhoras conversavam nos arredores de um museu de bairro de uma grande cidade brasileira, em tempos ultra recentes. A primeira, uns 80 anos e cabelos brancos; a segunda senhora com aspecto de 55 e cabelos tingidos.

Senhora de cabelos Brancos (B): Ah, que saudades de antigamente. Aqui no museu havia desfile de 7 de setembro. As pessoas eram tão patrióticas.

Senhora de cabelos Tingidos (T): Mãe, desfile militar não é patriotismo, é ostentação de poder militar. Ainda bem que a ditadura acabou.

B: Ah, mas pelo menos a gente tinha no que acreditar.

T: Ainda bem que aquela ilusão acabou e hoje nós temos a democracia.

B: Mas hoje em dia tá essa bagunça. São Paulo deveria se separar do resto do país.

T: É, se isso acontecer, aí eu quero ver onde o governo de SP vai buscar água para você tomar banho.

B: Água a gente compra. 

T: Mãe, faça um favor para você mesma, não diga essas coisas em público.

B: É, seu pai já dizia para eu não ficar falando essas coisas senão ele ia ficar envergonhado diante dos amigos. Hihihi. Mas o problema agora é essa presidente, tá tendo corrupção demais.

T: Mas você acha que o outro candidato seria melhor? Está muito enganada.

B: O tempo vai dizer. 

T: (dando uma cortada) Bom, a gente não dispõe de muito tempo para conviver, então que tal a gente fazer deste um momento agradável?

A segunda conversa chegou ao meu ouvido em um cafe perto da Universidade. Dois ou três casais da terceira idade estavam em um papo animadissimo sobre Jung, sonhos e a mente subconsciente. Na mesa deles, muitos livros entreabertos, retirados da sessão de psicologia. Imaginei que fossem antigos professores ou um grupo de psicanalistas da região. Só percebi que não era nada disso quando um senhor começou a relatar o sonho que tivera na noite anterior. Contou que “estava em um grande recinto com uma pequena multidão presente, aguardando a chegada do Rei da Inglaterra”. A senhora ao lado (provavelmente a esposa) tentou consertar:

– O Rei? Não seria a Rainha?

– Não, não havia Rainha, só o Rei, insistiu o marido. E prosseguiu: era uma recepção fora da Inglaterra, aqui na ex-colônia, e portanto com muito menos pompa. Na ponta do salão havia um trono relativamente simples, para onde o Rei se dirigiria após o trajeto diante de todos.

– E…?

– Como as pessoas ao meu redor não sabiam como se posicionar ou o que fazer, tomei a iniciativa de sugerir o protocolo. Anunciei a todos que quando o Rei aparecesse, eu me ajoelharia em sinal de respeito.

– E …?

– O Rei surgiu a porta escoltado pela King’s Life Guard. A medida em que o grupo caminhava, os convidados se ajoelhavam. Ele sentou no trono, fez aquele sinalzinho com as mãos para que a multidão se levantasse. Fiquei reparando bem no rosto do rei, muito bem apessoado, roupas elegantes e uma curiosa barba.

– E…?

– Bem, nesse exato momento, acordei com vontade imperativa de ir ao banheiro. E me pergunto, qual a conexão entre o conteúdo do sonho e a súbita interrupção?

Todos se entreolharam, depois desviaram os olhares, mãos no queixo, pensativos. Então o senhor com o aspecto mais idoso (e que parecia estar dormindo o tempo todo)  abriu os olhos e exclamou:

– Simples. A conexão … é o trono!

O terceiro relato veio da minha irmã, anos atrás. Uma das minhas sobrinhas (hoje uma linda adolescente) tinha sete anos idade e já era excelente aluna de Português e Matemática. Um dia, trocando idéias com a mãe sobre a frase para iniciar a redação de lição de casa, sob o empolgante titulo “Sou Assim”, começou:

Filha (F) : Mãe, o que é mesmo algo au-to-bi-o-grá-fi-co?

Mãe (M): É quando você conta o que pensa de você mesma.

F: Conto as coisas boas ou as ruins?

M: O melhor é sempre falar a verdade.

F: Então já sei!

A pequenina foi ao quarto pegar o caderno e lápis. Escreveu, escreveu, depois voltou.

M: Então, o que você escreveu? Quer ler para mim o comecinho?

F: Tá bem: “Sou assim. Alegre, feliz, alfabetizada, numerada, saudaveuiluminada e tem algumas coisas que eu tenho que melhorar mas não irei contar. “

HBP  – Nov 30, 2014

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This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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One Comment em “A Culpa é do Vento”


  1. Doce Helena,

    Que delícia de leitura. Do seu baú de preciosidades.

    Sabe que Elisa Lucinda lançou um livro no final de 2014 e soube através da Tv Senado no seu belo Leituras.
    Título: Fernando Pessoa – O Cavaleiro de Nada – Editora Record.

    Três diálogos adoráveis e cada um com seu encanto.

    beijo
    denise


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